segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

Yoga,Shakti e Tantra


A palavra yoga vem da raiz sânscrita yuj que significa atrelar, unir, juntar. É um ensinamento prático e científico que inclui um sistema de exercícios que visam o controle físico e mental, além de proporcionar bem-estar, com o objetivo de realizar a união do espírito humano com o Espírito Universal. Seria então a união do ser individual  (jivatman) ao Ser Supremo (paratman).

"Yoga chitta vritti nirodha" (Yoga-Sutra I.2) 
"Yoga é a cessação (nirodha) dos vórtices (vrittis) da substância mental (chitta)".

O Yoga tem por objetivo promover condições mentais indispensáveis para que chitta (a substância mental) cesse todos os seus movimentos, os quais impedem o Eu Supremo (Purusha) de alcançar sua verdadeira natureza. A mente oscilante é o grande obstáculo à percepção do Eu Real. Segundo o Vedanta, este Eu é a base de tudo o que existe e sem esse Eu, que é consciência, a mente não seria possível, mas a mente não é real e encobre o Eu. Por essa razão o Yoga tem por objetivo interromper esse fluxo de pensamento e a identificação com a mente, percebendo assim a base da mente que é a consciência e alcançar o Samadhi (união, êxtase, superconsciência).

O Yoga foi codificado por Patanjali no texto conhecido como Yoga Sutra, que ensina o Ashtanga Yoga (Yoga dos oito - ashta - membros - anga) ou Raja Yoga (Yoga Real). 

Patañjali expõe o conhecimento nos quatro capítulos de seu Yoga Sutra. Eles são: 

1) Samadhi-pada, que estuda o conceito e as técnicas mais elevadas do Yoga; 
2) Sadhana-pada, que expõe o caminho geral que deve ser seguido pelo yogue, apresentando o conhecimento dos kleshas (obstáculos que sujeitam a mente e geram o sofrimento), e propõe as etapas iniciais (bahiranga) do método;           .  
3) Vibhuti-pada, que ensina as etapas últimas (antaranga) do método, e sobre as perfeições (siddhis) ou poderes extraordinários que daí resultam; 
4) Kaivalya-pada, que trata dos problemas essenciais da filosofia, da natureza da mente e da libertação espiritual do yogue.

O Yoga Sutra explica também os 8 membros (angas) do Yoga de Patanjali que são: 
• Yamas (regras de conduta do homem com a sociedade)  
• Niyamas (regras de conduta interna do homem com ele mesmo)  
• Asanas (exercícios físicos)  
• Pranayama (exercícios respiratórios)  
• Pratyahara (abstração e interiorização dos sentidos)  
• Dharana (concentração da mente)  
• Dhyana (meditação)  
• Samadhi (estado em que se destruiu a ignorância sobre nossa verdadeira natureza). 

Yoga é um estado mental de supra-consciência onde o seu eu individual é dissolvido na "consciência cósmica". O individuo passa a ser o observador, o objeto observado e a consciência sobre a observação. Tudo passa a ser uma coisa só. A mudança não ocorre de um dia para o outro, requer desenvolvimento, aprimoramento, prática regular e constante.  
Há vários caminhos no Yoga, adequados ao temperamento de cada praticante: Karma-Yoga, Bhakti-Yoga, Jñana-Yoga, Hatha-Yoga, Kriya-Yoga, Laya-Yoga, Kundalini-Yoga, Raja-Yoga e muitos outros caminhos e derivações. 
  
Hatha Yoga 

É o tipo de Yoga mais conhecido e difundido no ocidente por ser um Yoga vigoroso, de natureza principalmente física, que tem como base principal o uso de asanas, mudras e bandhas, bem como exercícios de respiração (pranayama) para preparar o corpo e desobstruir o sistema nervoso. Seus objetivos estão relacionados com o bem-estar físico e a saúde, beneficiando todo o sistema biológico, visando um desenvolvimento harmônico do corpo-mente e alma.

A palavra Hatha significa a união entre “Ha” e “Tha”, isto é, o Sol e a Lua. Uma das forças vitais, o prana, é conhecido pelo nome do Sol, e outra das forças vitais, apana pelo nome da Lua. Em tal sentido, Hatha-Yoga expressa a união do Prana com o Apana. Isso possibilita adquirir um controle sobre si mesmo, perfeita concentração mental e desenvolvimento das potencialidades físicas e psíquicos. Numa etapa avançada, a prática de Hatha Yoga leva ao Raja-Yoga e ajuda o praticante a entrar em comunhão consciente com o divino, mediante o Samadhi, a desligar-se do domínio das forças da natureza (gunas), e alcançar Kaivalya, ou liberação. 

Kriya Yoga 

Kriya-Yoga é uma ciência antiqüíssima. Os antigos iogues descobriram que o segredo da consciência cósmica se liga intimamente ao domínio da respiração. Esta é uma contribuição sem par, e imortal, da Índia, ao tesouro de conhecimento do mundo.

Nesse yoga o praticante executa uma seqüência definida de técnicas fornecida por um guru. São praticas (kriyas) muito potentes. É o Yoga para quem realmente quer "transcender". O sistema consiste em técnicas yóguicas que aceleram o desenvolvimento espiritual e ajudam a alcançar um profundo estado de tranquilidade e comunicação com o divino. Kriya Yoga é um método simples, psicofisiológico, pelo qual o sangue humano se descarboniza e volta a oxigenar-se. Os átomos deste extra-oxigênio transmutam-se em corrente vital para rejuvenescer o cérebro e os centros da espinha. 

O Kriya Yogi dirige mentalmente sua energia vital para cima e para baixo, a fim de fazê-la girar em torno dos seis centros espinhais (plexos medular, cervical, dorsal, lombar, sacro e coccígeo) purificando todos os nadis e chakras. Esta antiga técnica iogue converte a respiração em substância espiritual. 

Bhakti Yoga  

É o caminho do Yoga Devocional, do amor à divindade. A palavra Bhakti origina-se da raiz “bhaj”, tendo a intenção de “ligar a Deus”. Bhajan, adoração, Bhakti, Anurag, Prema, Priti, Suddha Prema, são considerados sinônimos. Bhakti é o amor divino (prema), sem pedir nada, sem nenhum desejo de recompensa.  
Através de Bhakti Yoga, do caminho de Prema ou Amor, através de sua devoção, sentimento, emoção, oração, fé, adoração, o praticante conecta seu coração a Deus. Bhakti é o supremo amor por Deus. É uma chuva espontânea de Prem em direção ao Amado. É uma ação pura, livre de egoísmo, plena de amor divino, e não há nenhum tipo de negociação ou expectativa de qualquer coisa e tampouco medo.

Na tradição indiana, o praticante do Bhakti Yoga se dedica à divindade com a qual tem maior afinidade, que pode ser masculina ou feminina.  
Bhakti está geralmente associado ao Karma-Yoga (ver abaixo), que se desenvolve o amor ao próximo, a caridade e a reconciliação através da prestação de serviços altruísticos. A vivência destes elevados propósitos conduz o praticante à libertação.

Karma Yoga 

Karma Yoga, ou Yoga da Ação é a Yoga do reto agir, é a consagração de todas ações e de seus resultados, de todas as suas atividades diárias para o divino. É a execução destas ações de forma consciente e enfatizando a união com o Divino em tudo, removendo o apego, permanecendo sempre equilibrado, no sucesso ou no insucesso. Esse processo purifica o coração e prepara o Antakharana (o coração e a mente) para a recepção da Divina Luz, ou obtenção do conhecimento do Ser. O ponto importante é este: serviço para a humanidade sem qualquer apego ou egoísmo. Os praticantes desse tipo de Yoga procuram atuar corretamente no mundo, tanto nas coisas materiais como espirituais, são pessoas de natureza altruísta. 

Kundalini Yoga  

Segundo Swami Sivananda, Kundalini yoga é o yoga com ênfase em asanas e canto de mantras para elevar Kundaliní do primeiro para o sétimo chakra, situado no alto da cabeça.  
É praticado pelos estudantes com a finalidade de despertar a Kundalini, ou energia primordial da Shakti, que se encontra numa cavidade triangular chamada "triângulo celestial" (trikona) no Chakra básico (Muladhara), em estado potencial ou adormecido  e conduzi-la pelo canal principal (sushumna) até o Sahasrara Chakra, e assim a Shakti  se une com o Senhor Shiva no topo da cabeça.

O Yogi abre a boca de sushumna mediante o Pranayama, os Bhandas e os Mudras, e desperta a Kundalini adormecida. A Kundalini não permanece muito tempo no Saharara, pois sua permanência depende do grau de pureza do Sadhana, da fortaleza espiritual e introspectiva do praticante de Yoga. Muitos estudantes não passam além dos Chakras inferiores e, por tal razão, não prosseguem em seus intentos de alcançar o Sahasrara.  

Swami Sivananda diz que a mente, o Prana, o Jiva e a Kundalini se movem em conjunto até o alto. Em suma, o praticante demandará ajuda introspectiva, quando se move de Chakra em Chakra; em tal estado uma voz misteriosa, um força mais misteriosa ainda, o guiarão em cada passo. Será necessário em cada caso possuir uma fé perfeita e equilibrada na Divina Mãe. Ela é quem guia o Sadhaka. É ela que conduz seu filho de Chakra em Chakra. Sintamos seu caloroso abraço. Sintamos sua Graça em cada passo. Falemos como se fôssemos crianças. Abramos-lhe plenamente nossos corações. Sejamos simples e cândidos. Digamos-lhe fervorosamente: “Mãe Divina, eu sou Teu; Tu és meu único refúgio e sustentação. Protege-me; Tem piedade de mim”. 
Todas nossas dúvidas se dissiparão com o conjuro de nossas preces. Sem a Sua graça nos resultará impossível avançar, ainda que seja uma polegada, no sendeiro do Shushumna, até o Sahasrara que quando ascende, inunda os Chakras com o néctar da refulgência. 
A intrepidez, o imperturbável estado mental, a ausência de paixão e desejos, a constante introspecção, a concentração, a felicidade espiritual, paz, íntima fortaleza, discriminação, o equilíbrio e ajuste da mente, a inquebrantável fé na existência do Senhor Supremo (Ishvara), devoção, firmeza mental, domínio dos Asanas, pureza, as ânsias infinitas de liberação, misericórdia, doce voz, brilho nos olhos, serão os sinais indicadores do despertar de Kundalini, e que o Sushumna perfurou o Chakra Muladhara. Quanto mais ascende esta força, tanto mais forte será a experiência espiritual, e a evidência das qualidades e dos sinais de tão sublime despertar.

A Kundalini, em última instância, se une com seu Senhor Parama Shiva e é então quando o Nirvikalpa Samadhi tem lugar. É neste momento quando o Yogi alcança a Liberação e o mais elevado conhecimento e felicidade.

Jñana Yoga 

É um sistema de yoga que busca a comunhão com o divino pela via do conhecimento da Verdade e da Sabedoria. Jñana é obtido pelo intermédio do Conhecimento do Ser. 

Após adquirir instrução teórica, o praticante busca conhecer a verdade diretamente por meio da experiência intuitiva, cortando o véu da ignorância pela meditação no Ser. Seus métodos, através de questionamento (vichara), discernimento (viveka), reflexão, análise, investigação, austeridades, ética de conduta, estudos e da meditação, tem como meta a compreensão da Divindade, da Sua manifestação cósmica. Então o praticante irá brilhar em sua pureza e Divindade.

Tantra Yoga 

É um caminho ligado ao domínio das energias latentes do ser humano, que também desperta o chamado "fogo sagrado" (a kundalini), ou a "serpente que jaz adormecida" no cóccix. O Tantra Yoga coloca ênfase especial no desenvolvimento dos poderes latentes nos seis Chakras, do Muladhara ao Ajña. O Kundalini Yoga pertence ao Sadhana Tântrico, o qual fornece uma detalhada descrição sobre o poder serpentino e os Chakras (plexos). O Sadhana Tântrico desperta Kundalini, e faz com que ela se una com o Senhor Sadashiva, no Sahasrara Chakra. O método adotado para alcançar este fim no Sadhana Tântrico é a repetição (japa) de mantras como o Nome da Grande Deusa e vários rituais. 

O Tantra, em alguns dos seus aspectos, é uma doutrina secreta, é um Gupta Vidya. Você não poderá aprender sobre esses aspectos do estudo de livros. Você precisará adquirir o conhecimento e a prática de um Tantrika prático, o mestre Tântrico, e de Gurus que possuem a chave para isto. O estudante tântrico deve doar-se com pureza, fé, devoção, dedicação ao Guru, com ausência de paixão, humildade, coragem, amor cósmico, honestidade, contentamento, e sem cobiça. A ausência destas qualidades no praticante significa um grosso e mau uso do Shaktismo. 

Laya Yoga 

O Laya Yoga, segundo Swami Sivananda, é também um tipo de Kundalini Yoga. "É o processo de transmutar a energia física em luz (ojas). A consciência humana é levada através de graus diferentes de percepção até que se una ao Absoluto". Trata-se de uma modalidade de controle da natureza mental, partindo do pressuposto que se podem dominar as funções físicas e psíquicas e, assim, eliminar todos os bloqueios e barreiras no caminho espiritual.

A sua prática implica em pranayamas e bhandhas. Apenas o praticante pode sentir seus efeitos. O praticante desta técnica geralmente encontra-se sentado. Isso levou muitos livros a sugerirem que a postura sentada seja a melhor maneira de se praticar Yoga - imagem que se transformou no estereótipo ocidental do praticante de Yoga. Essa técnica consiste em práticas de respiração para eliminar as desarmonias físico-psíquicas, dominar o corpo físico, permitir ao Espírito Divino, que está eternamente unido ao ser, manifestar-se.

Raja Yoga 

O Raja Yoga, Dhyana Yoga,  "Yoga real" ou "união real", é um dos caminhos do yoga que se utiliza do domínio interno das atividades mentais, portanto é voltada para pessoas que tenham uma tendência à meditação. Através do Raja Yoga, pela reta-ação da mente, tornando-a introvertida, controlando e superando sua natureza e tornando-a estável, concentrando-a e meditando, o praticante atravessa o véu da ignorância e atinge a iluminação.

É considerada a síntese dos Yogas. Seu objetivo é a comunhão com o Divino, através da prática da meditação, conduta ética, serviço impessoal no mundo e veracidade. Nela estão incluídos os sistemas Karma (reta ação), Jñana (sabedoria) e Bhakti (amor). A prática do Raja Yoga consiste em pranayamas (controle do alento), irradiação de amor universal, namaskara (rendição total e irrestrita a Deus) e a compreensão do bhavana (conceito da Unidade Divina). A meditação proporciona ao praticante o despertar das potencialidades latentes e divinas do ser.

A Grande Deusa (Maha Devi)

No pensamento indiano existem muitos seres divinos (Devas), masculinos e femininos; e um Ser Absoluto (neutro), que é Brahman. Todas as divindades, como Brahma, Vishnu e Shiva, são manifestações de Brahman, não são independentes dele. Brahman está além da compreensão conceitual e racional, mas é descrito como tendo a essência da existência (Sat), da consciência (Cit) e da completude ou não-dualidade, que se manifesta como uma felicidade plena (Ananda). 

De acordo com a tradição indiana, todo o universo e todos os seres são também uma manifestação de Brahman. Existem períodos em que o universo é criado, se mantém durante um certo tempo, depois é destruído – e todos os Devas também desaparecem. Quando isso ocorre, resta apenas Brahman, indiferenciado, e nada acontece. É como se tudo estivesse adormecido – é a noite cósmica, ou noite de Brahman. Depois, Brahman se manifesta, o universo começa a surgir novamente, iniciando-se um novo ciclo cósmico. Brahma (um Deva masculino) é quem atua criando o universo, depois Vishnu é quem o mantém ou sustenta, e Shiva o destruirá. 

Segundo uma das tradições indianas (no Tantra), existe uma Deusa (Devi) que está acima de todos os Deuses. Ela é chamada de Maha Devi (a Grande Deusa), ou Shakti (a Poderosa). Sua característica principal, como o seu próprio nome diz, é o Poder. Ela é ativa, dinâmica, é considerada como a energia que move todo o universo (inclusive os Devas). Em comparação com ela, os Devas são inertes, inativos, passivos. Nessa visão, temos um conceito exatamente oposto ao que se desenvolveu no ocidente (e em outros lugares, como a China), segundo o qual a energia ou atividade seria uma característica masculina e a receptividade ou passividade seria uma característica feminina. 

Podemos encontrar alguns aspectos dessa concepção básica indiana na filosofia Sankhya, por exemplo. De acordo com o Sankhya, existem dois princípios cósmicos fundamentais. Um deles é a consciência (Purusha), que é um princípio masculino; o outro é o poder da natureza (Prakriti), que é um princípio feminino. Purusha é passivo, Prakriti é ativa. Todo o desenvolvimento do universo ocorre apenas por causa dos poderes da Natureza. Esses poderes (gunas) são três: tamas, rajas e sattva. Tamas é o poder da inércia, da tristeza, das trevas, da morte; rajas é o poder da vitalidade, do ego, da força, do prazer e da violência; sattva é o poder da luz, da felicidade e da sabedoria. Os três Devas principais do hinduísmo (Shiva, Brahma e Vishnu) estão associados respectivamente a esses três poderes (tamas, rajas, sattva). Esses Devas são seres que só podem atuar no universo porque a Grande Deusa lhe empresta uma parte de seu Poder. Nenhum deles tem todo o poder da Shakti. 

A mitologia indiana tem também muitas histórias que mostram que os Devas não são tão poderosos quanto a Shakti. Em alguns mitos, um demônio (Asura) muito poderoso vence todos os Devas (masculinos) e eles vão então pedir ajuda à Grande Deusa, que assume uma de suas formas mais terríveis (como Durga ou Kali) e destrói todos os demônios. 

A Shakti, ou Maha Devi, é o poder feminino absoluto. Há, no entanto, muitas deusas (Devis) diferentes. Cada um dos Devas, por exemplo, tem sua companheira (sua Shakti), sem a qual ele é incompleto. A Shakti de Brahma é Sarasvati, a de Vishnu é Lakshmi, a de Shiva é Parvati. Essas Devis são manifestações ou aspectos parciais, limitados, da Grande Deusa. No entanto, muitas vezes se identifica Parvati com a própria Shakti. 

Embora Shiva seja um Deva muito poderoso, ele não é nada, comparado com a Shakti. Ela é ativa, ela tem todos os poderes, ele não tem nenhum poder sem ela. Por isso, muitas vezes ele é representado como um cadáver acima do qual Shakti dança, ou com o qual ela tem relações sexuais. 

Enquanto Shiva e Shakti estão separados, o universo é dinâmico, ele se transforma, está ativo. Quando Shiva e Shakti se unem e se fundem em uma unidade, toda multiplicidade desaparece, o tempo pára. 

Shakti, o poder feminino, está presente, de acordo com o Tantra, em todas as coisas e todos os seres do universo – mas de forma muito mais forte e significativa nas mulheres. Da mesma forma, Shiva, seu complemento masculino, está presente também em todos os seres, mas especialmente nos homens. 

Manifestações da Shakti 

Vamos apresentar a seguir algumas das principais Devis, ou manifestações da Grande Deusa:

Sarasvati é a Deusa associada ao conhecimento, à música e às artes. Ela é a companheira de Brahma, o Deva responsável pela criação do universo. Juntamente com Lakshmi e Parvati, formam a trindade de Deusas (Tridevi). É geralmente representada com roupas brancas (às vezes amarelas), sendo associada a um cisne ou a um pavão. É identificada, muitas vezes, com deusas que aparecem nos textos indianos mais antigos (Vedas): Vak (a Palavra), Savitri ou Gayatri (nome da oração mais sagrada dos Vedas). É a Deusa asssciada à sabedoria sagrada, e por isso se diz que os Vedas são seus filhos. Seu nome quer dizer, literalmente, "aquela que flui", e estava associada a um rio, na mitologia antiga. Muitas imagens de Sarasvati a representam com quatro braços, em um dos quais segura um livro (os Vedas), em outra um rosário indiano (mala) com contas de cristal, representando meditação e espiritualidade, em outro um pote com água sagrada, representando purificação, e por fim um instrumento musical de cordas (Vina) que representa a perfeição nas artes. 

O nome Gayatri representa um tipo especial de métrica utilizada nos Vedas. Muitos hinos dos Vedas utilizam essa métrica, mas há um hino em especial que é chamado Gayatri Mantra. A deusa Gayatri é uma forma de Sarasvati, associada aos Vedas, uma representação feminina de Brahma. Ela costuma ser representada sentada sobre um lótus vermelho, com cinco cabeças. 

Lakshmi é uma deusa associada à riqueza, à prosperidade e à generosidade, protegendo seus devotos de problemas financeiros. Também está associada à beleza e encanto. É também chamada de Shri. Ela é a companheira de Vishnu, e tem diferentes nomes quando se casa com as diferentes encarnações (avataras) de Vishnu. Assim, ela é Sita, companheira de Rama, e Rukmini, esposa de Krishna. Com o nome de Mahalakshmi, ela é identificada à Shakti, ou Grande Deusa. Dois de seus aspectos são Bhudevi (a Deusa da Terra) e Shridevi (a Deusa luminosa), que são os aspectos complementares das forças da Natureza (Prakriti). Ela é representada em imagens que mostram uma linda mulher, com quatro braços, sobre um lótus, com bonitas roupas e jóias, distribuindo moedas (significando prosperidade) e acompanhada por elefantes que indicam seu poder real. O lótus representa perfeição espiritual e pureza. 

Radha é a principal companheira de Krishna, em muitos textos tradicionais. Ela é considerada a Shakti de Krishna e, algumas vezes, é identificada com a Grande Deusa. Assim como Shiva e Parvati, juntos, constituem o Absoluto, há uma tradição que considera que Radha e Krishna juntos constituem a Realidade Absoluta. Às vezes se descreve Radha como tendo se tornado uma esposa de Krishna, às vezes sua relação é descrita como um "amor eterno" (parakiya-rasa). O amor entre Radha e Krishna tem um significado esotérico, representando um amor divino e não mundano. 

Parvati é a deusa associada a Shiva. Ela é considerada uma representação da Shakti, ou Grande Deusa, especialmente nos seus aspectos de Mãe divina. As outras Devis são consideradas como suas filhas ou manifestações. Os devotos da Shakti a consideram como a Shakti suprema, incorporando toda a energia do universo. Embora seja apresentada como uma divindade benigna, Parvati também tem aspectos terríveis, como Durga, Kali, Chandi. Ela também tem dez aspectos complementares, as Mahavidyas. Suas formas benevolentes são Mahagauri, Shailputri e Lalita. O nome Parvati significa "a das montanhas", pois é considerada filha do Senhor das Montanhas (Himavan). Ela tem muitos outros nomes, como Gauri (a dourada), Ambika (a mãe), Bhairavi (a terrível), Kali (a negra), Uma, Lalita, etc. Na mitologia, Parvati tem dois filhos, Ganesha e Skanda, mas na tradição Shakta ela é a mãe de todos os Devas e Devis. O veículo (vahana) de Parvati é um leão ou tigre. A união de Shiva com Parvati é considerada como equivalente ao Absoluto, ou Brahman. 

O nome Durga significa "a invencível" ou "a inatingível". Ela é uma forma da Shakti invocada para superar situações de dificuldade e sofrimento. É uma forma guerreira de Parvati. É representada com dez braços, e seu veículo é um tigre ou um leão. Ela é considerada um poder auto-suficiente (svatantrya). Pode ser considerada como uma forma de Kali, embora suas aparências sejam distintas: Kali é negra, Durga é branca e radiante. Kali tem uma aparência horrível e é representada com símbolos associados à morte, Durga é linda e tem belos ornamentos de ouro, pérolas e pedras preciosas. Durga é uma representação da Shakti, e por isso é descrita como possuindo todos os poderes de todos os Devas. Na mitologia, ela surge para combater um demônio invencível, Mahishasura. 

Kali, também conhecida como Kalika, é uma Devi associada à morte e à destruição. Seu nome significa "a Negra", mas também está associado à palavra Tempo (Kala), podendo ser interpretada como o Poder do Tempo. Ela é uma forma terrível, guerreira e destruidora de Parvati, e é também a principal das Mahavidyas, as dez formas tântricas da Grande Deusa. Está associada a cadáveres, ao sangue, aos chacais e aos terreiros de cremação de corpos. Seus adornos são de cabeças humanas decepadas. Na literatura tântrica, Kali tem um papel central nos textos, nos rituais e na iconografia, sendo considerada como uma representação da Grande Deusa (Maha Devi) ou Shakti. Embora geralmente seja representada sob uma forma terrível, às vezes assume uma forma jovem e bela e seus aspectos positivos são indicados, por exemplo, na expressão Kali Ma (Mãe Kali). 

Chamunda é o nome de uma forma terrível da Grande Deusa, sendo uma das sete Deusas Mães e uma das principais Yoginis (um grupo de deusas do Tantra, que acompanham Durga). O nome Chamunda é uma combinação dos nomes dos demônios Chanda e Munda, que ela destruiu numa batalha. Muitas vezes, Chamunda é identificada com Kali. Ela é cultuada com sacrifícios de animais e oferecimento de vinho. Ela é representada com uma cor negra ou vermelha, com uma guirlanda de cabeças decepadas (como Kali). 

Lalita, "Aquela que Brinca", é o nome de uma forma benigna de Parvati. Ela é também chamada de Tripura Sundari, Shodashi e Rajarajeshvari. Pertence ao grupo das dez Mahavidyas. O nome Shodashi significa uma jovem com dezesseis anos, e representa dezesseis tipos de desejos. Lalita, ou Tripura Sundari, está associada ao Shri Yantra e ao Shri Mantra. O nome Tripura significa "Os Três Mundos" (Terra, Atmosfera, Céu) e Sundari significa "A Mais Atraente", ou "A Mais Bela". Assim, Tripura Sundari é a Deusa mais bela dos três mundos. Na iconografia, é sempre representada como uma linda jovem, geralmente com roupas vermelhas. O hino Lalita Sahasranama (os mil nomes de Lalita) descreve todos os seus atributos. 

O nome Mahavidya vem das palavras Maha (grande) e Vidya (sabedoria, revelação, conhecimento). É um grupo de dez deusas conhecidas como Deusas da Sabedoria por revelarem aspectos auspiciosos do conhecimento da Grande Deusa. Elas são: Kali, Tara, Tripura Sundari (ou Lalita), Bhuvaneshvari, Bhairavi, Chhinnamasta, Dhumavati, Bagalamukhi, Matangi, Kamalatmika. Cada um dos nomes da Deusa possui uma vibração especial. Eles são Mantras, e entonação correta, sob a orientação de um Guru, confere realização espiritual. A forma feminina confere bênçãos ao devoto, liberando-o do mundo material e da roda de reencarnações. 

A palavra Tantra significa teia (como a teia de aranha), tecido, rede. Indica a idéia de fios entrelaçados, unidos e formando um todo. Representa a idéia de que todas as coisas do universo estão conectadas, entrelaçadas, unidas entre si, através de uma espécie de fio invisível que forma essa união íntima de todas as coisas. 

Aquilo que une tudo, que está dentro de tudo, é o Poder divino (Shakti). Esse Poder está dentro de cada um de nós, e está também fora de nós. Penetrando em tudo, o Poder torna todas as coisas divinas. Porém, nosso modo comum de ver o universo e de vermos a nós mesmos não permite que enxerguemos essa perfeição de tudo. O Tantra, como prática, leva a uma transformação da pessoa, permitindo-lhe ver além das aparências e perceber a realidade divina em tudo. 

Uma parte da base do Tantra vem do pensamento indiano tradicional, podendo ser encontrada nas Upanishads, por exemplo, que enfatizam o conhecimento do Absoluto, Brahman, que está presente em todas as coisas, em todos os seres do universo. Outra parte, no entanto, é diferente. Pois o Tantra é essencialmente não-dualista, ele rompe com todo tipo de limitações impostas pelo pensamento racional, conceitual. E isso se reflete também nas práticas do Tantra, que não respeitam regras morais e éticas. Tudo aquilo que existe pode ser utilizado como um veículo para entrar em contato com a Divindade, nada é errado ou impuro. Desde que tenha desenvolvido a atitude espiritual correta, o praticante do Tantra pode vivenciar a perfeição em tudo. 

“Não existe nada que não se possa fazer e nada que não se possa comer. Não há nada que não se possa pensar ou falar, seja agradável ou desagradável. O Eu supremo existe dentro dele assim como nos outros seres. Assim considerando, o Yogi deve se aproximar da comida e da bebida e das outras coisas.” 

No ocidente, o nome Tantra está fortemente associado ao sexo. É utilizado às vezes como uma simples desculpa teórica para práticas sexuais sem objetivo espiritual. O Tantra indiano tem, é verdade, práticas de natureza sexual, mas isso é apenas um dos seus múltiplos aspectos. Fazer sexo e ter prazer não é nem o objetivo, nem o principal instrumento do Tantra. 

A tradição indiana nunca considerou o sexo como algo errado: os objetivos humanos listados nos textos clássicos indicam que as pessoas podem buscar a libertação espiritual (moksha), a ação correta no mundo (dharma), riquezas (artha) e prazer (kama). O famoso manual indiano sobre práticas sexuais, Kama Sutra, é um texto que fala sobre os modos de obter prazer – mas não é um texto tântrico. O que o Tantra adicionou foi o uso do sexo como um dos muitos modos de obter desenvolvimento espiritual através daquilo que nos atrai – pela união de moksha e kama.  

No entanto, sexo não é o centro do Tantra. O ponto central é obter uma transformação de nosso modo de ver a realidade, através de práticas que podem utilizar aquilo que desperta em nós emoções e sensações muito fortes. Através dessas práticas, o modo comum de funcionamento de nossa mente é ultrapassado, e surgem vivências espirituais completamente diferentes. Gradualmente, abre-se um canal de comunicação com a realidade divina, e por fim se estabelece um contato constante com esse estado de consciência. 

TEORIA DO TANTRA 

A filosofia tântrica é ensinada em muitos textos antigos, como os Puranas, e também em textos específicos, que se chamam também Tantras. Apenas no início do século XX alguns textos tântricos começaram a ser traduzidos para idiomas ocidentais, especialmente através do trabalho de John Woodroffe (mais conhecido por seu pseudônimo Arthur Avalon). As obras deste autor são o resultado de uma pesquisa muito profunda e séria sobre o Tantra. Atualmente, no entanto, há muitos livros sobre Tantra que são equivocados e que distorcem sua doutrina. 

Dentro do Tantra há diversas linhas ou correntes de pensamento e de prática. Pode-se dizer que os dois maiores grupos de pensamento tântrico são o Shivaísta (no qual Shiva é considerado a principal divindade) e o Shakta (no qual Shakti, a Grande Deusa, é considerada a principal divindade). Vamos apresentar aqui um esboço da doutrina tântrica Shakta.

Segundo essa doutrina, tudo o que se manifesta no universo como matéria, vida e consciência é o Poder Divino (Shakti). O Poder é feminino. É a Grande Deusa (Maha Devi), a Mãe de todos os seres e dos próprios Devas. Tudo o que existe brota dos órgãos genitais (Yoni) da Grande Mãe. 

Aquele que possui o poder é Shiva. Não existe Shiva sem Shakti, nem Shakti sem Shiva (Na shivah shaktirahito na shaktih shivavarjita). Shiva, sozinho, é semelhante a um cadáver (shava), pois ele próprio não tem poder. Apenas quando está unido à sua Shakti, Shiva se torna o Deva poderoso. Shiva é, essencialmente, a consciência inativa, é aquele que testemunha a ação da Shakti. 

A fusão íntima entre Shakti e Shiva é representada pela união sexual entre eles, ou por uma figura com os dois sexos (Ardhanarishvara), um lado sendo masculino, e o outro feminino. 

Shiva e Shakti, unidos, formam o Absoluto não-manifesto, ou Brahman, que pode ser descrito por Sat, Cit, Ananda. Quando estão unidos em um só, Parashiva e Parashakti são inativos e invisíveis. 

Esse estado corresponde à noite de Brahman, em outras tradições. Nessa união, Shiva pode ser pensado como um ponto, e Shakti como uma linha enrolada em torno deste ponto. Como a linha não tem espessura, é impossível distinguir o ponto e a linha. São uma única coisa. A criação do universo se dá quando Shiva e Shakti se separam, ou seja, com o surgimento da dualidade. Quando a linha (Shakti) se desenrola do ponto central (Shiva), surgem a meia-lua (Candra) e o ponto (Bindu) que aparecem na parte superior do símbolo OM.

À medida que se desenrola, a Shakti se manifesta sob a forma de um som primordial (Nada), e através do som ela começa a criar o universo. O som é um dos principais instrumentos do Poder, no Tantra. Através de algumas práticas, o Tantrika pode ouvir os sons primordiais produzidos pela Grande Deusa.  

Os seres do universo são descritos por nome (nama) e possuem uma forma (rupa). O som (shabda) e a palavra (vac) são manifestações da Shakti, que dão forma aos seres. 

A Shakti não apenas cria todos os seres, ela permanece dentro deles. A Shakti imagina o universo, por sua própria vontade, pelo prazer de criar, e se incorpora nele. O universo não tem essência própria, é vazio, mas ao mesmo tempo contém o absoluto. 

Em todos os seres do universo se manifesta o poder de Shakti e a consciência de Shiva. O Absoluto está presente em todas as manifestações do universo. Portanto, tudo o que existe é sagrado. No centro de cada coisa estão Shiva e Shakti, que contêm tudo o que existe. Por isso o Tantra afirma: “Aquilo que está aqui está em toda parte. Aquilo que não está aqui não está em lugar nenhum” (yad ihasti tad anyatra, yannehasti na tat kvacit). Tudo o que existe no universo é perfeito, divino, e Eu sou tudo isso, e tudo isso existe em mim. 
Toda a realidade e toda pessoa é, essencialmente, Shiva-Shakti, mas de forma específica todo homem é Shiva e toda mulher é Shakti. Perceber a realidade mais profunda disso é um dos caminhos para a libertação espiritual.

Embora nossa natureza seja divina, e tudo o que nos cerca também seja, nossa percepção usual da realidade é limitada, dualista, pobre. É a própria magia (maya) da Shakti que dá a aparência de finito ao infinito, de múltiplo àquilo que é uno, de específico (dotado de nome e forma) àquilo que não tem nome nem forma, de destrutível ao que é eterno. Ela envolve toda a criação divina, perfeita e ilimitada com um véu mágico, mas ela própria cria por toda parte as portas através das quais podemos atravessar a ilusão e chegar à percepção clara da realidade divina. Penetrando através de Maya-Shakti é possível atingir o absoluto, ultrapassando as limitações e dualidades.

A compreensão e o contato direto (vivência) da Shakti é um dos aspectos centrais do Tantra. A Shakti pode ser vista sob seus aspectos bondosos, como a Mãe (Ma) ou como a esposa / amante de Shiva, extremamente bela e sábia. No entanto, ela pode também ser vista sob seu aspecto destruidor, horrível, como Kali, que destrói as ilusões, aniquila as forças do egoísmo e leva as pessoas a verem a realidade divina. 

A pessoa em um corpo (jiva) conhece apenas os níveis mais baixos da realidade e se confunde com eles. No entanto, é possível se transformar, atingindo uma compreensão diferente da realidade. Às vezes se descreve essa transformação como uma libertação (kaivalya) ou como a união ao Eu Supremo (Paramatma). No entanto, o Tantra descreve esses processos de uma forma diferente. A pessoa viva (jiva) e o Eu Supremo possuem a mesma natureza, por isso eles não podem se unir. O Jiva não se liberta, ele pode apenas perceber que nunca esteve preso. Para isso, ele precisa penetrar através dos véus de Maya, a magia da Shakti, através da sabedoria (jñana) obtida através da vivência (vijñana), conhecendo diretamente a Shakti e tornando-se um jivanmukta e mantendo-se no mundo.

O objetivo não consiste em se afastar do universo criado por Shakti, e sim percebê-lo como ele é: infinito, absoluto, eterno, sem dualidades. Através do Shakti-Tantra, o adepto atinge a libertação voltando-se para fora e não para dentro. Adotando uma visão não-dualista (advaita), a doutrina do Tantra admite que tudo é igualmente puro e perfeito. Por isso, o Tantra permite obter a iluminação (moksha) desfrutando do mundo (bhoga).

PRÁTICA DO TANTRA 

Sob o ponto de vista prático, o Tantra desenvolve uma série de atividades que induzem estados alterados de consciência, transformam o praticante e o levam a uma percepção diferente da realidade. Essas vivências precisam ser compreendidas, para serem integradas à sua vida, e por isso o estudo teórico também é importante. Pela prática constante, a transformação do Tantrika vai se fortalecendo, levando a um contato contínuo com a Shakti. 

O Tantra utiliza muitos recursos empregados nas diferentes linhas do Yoga, como posturas (asanas), práticas de respiração (pranayama), meditação (dhyana), etc. A parte ética do Yoga de Patañjali (yama e niyama) não faz parte do Tantra propriamente dito; mas apenas pessoas que já tenham obtido um grande desenvolvimento ético podem ser admitidas no Tantra. 

Algumas das características centrais do Tantra são a utilização de rituais, o uso das coisas do mundo profano para atingir a realidade divina, e a identificação entre o microcosmo (o ser humano) com o macrocosmo. Um dos aspectos importantes das práticas tânticas é o controle da energia interna, que é um reflexo do Poder Cósmico (Shakti). 

Dentro do corpo, essa energia é representada por Kundalini, a energia em forma de uma serpente enrolada, que fica normalmente adormecida no chakra inferior (Muladhara). Através de práticas envolvendo respiração, posturas, meditação, mantras e outros elementos, o Tantrika desperta Kundalini e faz com que essa energia ative sucessivamente os vários chakras corporais, transformando o corpo energético  do yogi (a estrutura sutil, constituída pelos chakras e pelos canais – nadis – onde circulam os diversos tipos de prana). Este aspecto do Tantra está também presente no Hatha Yoga tradicional indiano, já que o Hatha Yoga surgiu como um ramo especial dentro do Tantra. 

São muito importantes no Tantra a recitação de mantras, o uso de imagens de devas e especialmente da Shakti, o uso de diagramas (yantras) para meditação, purificação (nyasa) do corpo, e muitos rituais especiais utilizando mantras e gestos com as mãos (mudras), geralmente feitos dentro de círculos especiais (mandalas). O culto e adoração (puja) da Grande Deusa é também essencial, no Tantra. 

Há rituais e práticas extremamente complexos, dentro do Tantra, e outras práticas que parecem simples. Todas devem ser aprendidas através dos ensinamentos diretos de um mestre (guru) que já tenha praticado e dominado essas técnicas. A união entre o discípulo e o mestre é fundamental, pois através dessa união o Guru consegue induzir estados alterados de consciência no discípulo e fazê-lo vivenciar coisas que ele não teria condições de conseguir sozinho, por seu próprio esforço. Práticas em grupo também são consideradas muito importantes, pois a união espiritual de várias pessoas, no Tantra, multiplica os resultados obtidos. 

Não existe Tantra sem vivências diretas dos aspectos sagrados do universo e de si próprio. E isso ocorre através de estados alterados de consciência, especialmente através de experiências de samadhi. Deve-se compreender que o samadhi não é o objetivo do Tantra (nem de nenhuma outra linha de Yoga), e sim uma prática especial, acompanhada por um estado alterado de consciência, que deve ser atingido repetidas vezes, produzindo aos poucos importantes efeitos no praticante.

A devoção à Grande Deusa (ou a Shiva, no caso da linha tântrica shivaísta) é também essencial, no Tantra. O praticante desenvolve um enorme respeito, admiração, amor e adoração pela Grande Deusa, e Ela se torna um foco central de sua vida. Sem essa devoção (bhakti) e sem a ajuda direta da própria Deusa, o Tantrika não atinge seu objetivo.  
Embora não se possa aprender as práticas do Tantra através da leitura de livros, é muito útil estudar os textos tântricos tradicionais para obter uma compreensão teórica daquilo que essa linha espiritual significa. 

Algumas linhas do Yoga possuem práticas “leves”, destinadas a melhorar a saúde física e psíquica da pessoa. O Tantra, no entanto, não está voltado para a obtenção de resultados desse tipo. É uma linha de trabalho mais radical, destinada a mudar toda a consciência do praticante. Por isso, não se deve iniciar práticas tântricas a menos que a pessoa queira deixar para trás seus valores, suas crenças e sua vida antiga, iniciando uma nova. É um caminho poderoso, mas que tem também riscos e um custo alto – ele exige uma morte do ego, para levar a uma transformação espiritual completa.

Kali


Kali personifica os três aspectos do ato cósmico, que se revelam na criação, na preservação e na aniquilação. Ela é a divindade mais misteriosa de todas as ordens religiosas indianas – no Budismo, no Jainismo, entre os seguidores de Vishnu ou Shiva, ou qualquer outra. Ela faz gestos que asseguram a ausência de medo (abhaya) e benevolência (varada), definindo perpetuamente sua disposição mental mais profunda. Porém, em contraste, a aparência da Deusa inspira sentimentos de espanto e terror, espalhando a morte com a espada nua que carrega em uma de suas mãos e se alimentando com o sangue que jorra dos corpos que mata. Os instrumentos de destruição, para ela, são meios de preservação. Seu caminho de passagem para a vida é através da moradia que Ela escolheu – o terreno de cremação, iluminado por piras queimando e cheio dos ecos de gritos dos chacais e dos fantasmas, que pairam sobre cadáveres desmembrados. 

A Deusa mais sagrada, Kali, partilha sua moradia com terríveis monstros que comem carne humana (pishachas) e é representada montada sobre um cadáver. Ela ama Shiva, mas só se une com o seu cadáver (shava), seu corpo passivo e morto, sendo ela própria o agente ativo. Ela se alegra com a destruição e ri, mas apenas para fazer com que os quatro cantos da Terra e do Céu tremam de terror. Sendo uma mulher, Kali gosta de se enfeitar, mas seus ornamentos são uma guirlanda ou um colar de cabeças humanas decepadas, um cinto com braços humanos cortados, brincos com cadáveres de crianças, braceletes de serpentes – tudo com aparência horrível e lamentável. A essência de Kali é essa fusão de contradições, um misticismo com o qual nenhuma outra divindade foi dotada. Vashishtha Ganapati Muni disse corretamente sobre ela:
"Tudo aqui é um mistério de contrários, trevas, uma luz mágica que oculta a si própria, sofrimento, uma máscara secreta do êxtase trágico, e morte, um instrumento de vida perpétua." 

O que define Kali e também o cosmos que Ela manifesta, é a fusão de contrários – não apenas como duas coisas que existem juntas, mas como dois aspectos essênciais da unidade. Do útero, que é mais escuro do que os recessos mais pro-fundos do oceano, onde nenhum raio de luz jamais chega, surge a vida. Da mesma forma, das trevas nasce a luz brilhante, e quanto mais profunda a escuridão, mais brilhante essa luz. Uma realização que contrasta com o sofrimento, pois a alegria é a face brilhante do sofrimento – o filho que nasce dela, por contraste. A árvore nasce quando a semente explode e sua forma é destruída, isto é, a vida é o renascimento da morte, e sua forma, toda sua beleza e vigor, é a deformação incarnada. A unidade interrelacionada dos contrários define ambos, cosmos e Kali. A Deusa de tonalidade escura, que representa nela própria as trevas, o sofrimento, a morte, a deformação e a feiúra, é a fonte mais poderosa de vida, luz, alegria e beleza – o aspecto positivo da criação. Ela destrói para recriar, produz sofrimento para que a alegria se revele melhor, e em sua forma assustadora deve-se ultrapassar todos os medos, não escapando deles, mas aceitando-os como bem-vindos. 

A invocação da luz é comum a todas as ordens religiosas e todas as divindades. Na invocação a Kali, o devoto se confronta com as trevas que agregam morte, destruição, sofrimento, medo e todos os aspectos negativos do universo. Não sendo sua presa mas sim um guerreiro valioso, o devoto procura superar as trevas e descobrir tudo o que elas ocultam – luz, vida, alegria e até mesmo a libertação do ciclo de nascimentos e mortes. Kali lhe dá assistência em sua batalha. Ela concede sua graça ao seu devoto que adquire assim o domínio sobre todas as trevas cósmicas – acessíveis ou inacessíveis, conhecidas ou desconhecidas, ou impossívels de conhecer, que Ela condensa em si própria. Se não estivessem condensadas assim, o devoto não poderia apreender e controlar sua imensidão cósmica. Kali é a divindade suprema dos Tantrikas, pois nela eles descobrem o instrumento que lhes permite comandar diversas forças cósmicas de uma única vez. A antiga popularidade de Kali entre as tribos primitivas ignorantes foi inspirada, talvez, por seu poder de revelar a luz a partir das trevas, algo que eles possuem dentro e fora e em grande abundância. Por outro lado, Kali assegura a luz perpetuamente. Em cada ciclo, uma caminhada que parte da luz termina nas trevas, mas aquela que se inicia nas trevas deve necessariamente chegar aos vales da luz ilimitada. 

Invocar e associar-se ao terrível – o aspecto negativo da criação – afastando assim os males e sua influência, é um culto primitivo que ainda permanece em vários grupos étnicos e mesmo nas tradições clássicas como o Budismo, que tem muitas divindades que inspiram terror, como Kali, ou na tradição grega de Nemeses, as mulheres cheias de ira que infligiam castigos pelos erros e realizavam a purificação através de um azar vingativo. Mesmo sem ter a amplitude cósmica de Kali, nem atingindo objetivos tão amplos quanto o comando dos elementos cósmicos, há temas como o dragão chinês, ou o memento mori, na forma de um esqueleto considerado muito auspicioso por alguns setores da sociedade russa, ou a semurga do mundo islâmico, formas animais grotestas e temíveis, máscaras de fantasmas... veneradas em todo o mundo, todas revelam a busca humana para se tornar benéfica ou mais branda a influência de algum aspecto terrível da natureza – do cosmos manifesto.

ORIGEM DE KALI 

O misticismo encobre não apenas sua forma, mas também a origem de Kali. Há três linhas mais significantes que foram traçadas para encontrar sua origem, embora Ela transcenda mesmo essas fontes. Algumas vezes Ela é vista como uma transformação, ou uma forma que se desenvolveu a partir de alguma das divindades dos Vedas citada nos Brahmanas e Upanishads, especialmente Ratridevi, a Deusa da noite profunda, também chamada Maharatri, a Noite Transcendental, e Nirtti, a dançarina cósmica. Alega-se que o aspecto mais sombrio de Kali se desenvolveu a partir de Ratridevi, e sua dança, que ele realiza para destruir, teria se originado na dança cósmica de Nirtti que também pisava sobre tudo o que caía sob seus pés. A Mundaka Upanishad fala sobre as sete línguas de Agni, sendo que uma delas atua no local de cremação e devora os mortos. Dando grande ênfase à associação entre Kali e esta língua de Agni com o local de cremação, alguns eruditos procuraram na língua de Agni a origem da forma de Kali. 

Embora variem em suas versões, os Puranas percebem Kali como um aspecto da Devi – a Deusa, uma divindade que agora está quase completamente fundida com Durga. No entanto, considerando o status da própria Kali como uma Deusa, assim como o culto muito difundido dela, que prevalece entre várias tribos e grupos étnicos espalhados em áreas rurais remotas, Kali parece ser uma divindade antiga e talvez pré-Vêdica.  

Como seu nome sugere, ela parece ser o aspecto feminino de Kala – o tempo – aquele ser invencível, imensurável e infinito que tem sido venerado como Mahakala – o tempo transcendental – representado na tradição indiana metafísica e religiosa por Shiva. Na terminologia religiosa, Mahakala é apenas outro nome de Shiva. Alguns ícones do vale do Indus parecem representar, além de Shiva, uma divindade feminina feroz, que poderia ser Kali uma provavelmente uma forma que a precedeu.

 O Budismo, uma corrente de pensamento que se opôs à percepção dos Vedas na maioria das coisas, introduziu no seu panteão Mahakala e um divindade feminina feroz que se manifesta sob várias formas, como sendo a contraparte feminina de Mahakala. Obviamente, o Budismo deve tê-la introduzido a partir de uma fonte não Vêdica, já que se opunha veementemente aos Vedas. Invocada com grande fervor em muitas ocasiões no Mahabharata, mais especialmente no Bhishma-Parva, um pouco antes do ponto onde o Senhor Krishna apresenta seu sermão do Gita, Kali parce ser uma divindade bem estabelecida durante os dias do épico, ou seja, séculos antes do início da era dos Puranas. Embora invocada como "arya", um termo que indica grande reverência, Arjuna a louva como uma mulher tenebrosa com guirlanda de crânios, com a pele semelhante ao bronze escuro... e com epítetos como Mahakali, Bhadrakali, Chandi, Kapali... características que ainda são relevantes na iconografia de Kali.  

Um grande número de textos do período que vai do século II ao IX, como Kumarasambhava de Kalidasa, Vasavadatta de Subandhu, Kadambari de Banabhatta, Malitimadhava de Bhavabhuti e Yashatilaka de Somadeva, também fazem alusão a Kali, um fato que indica sua grande popularidade em domínios diferentes da religião. Esta Kali transcende de forma essencial Ratridevi, Maharatri e Nritti dos Vedas, ou uma das sete línguas de Agni, ou uma forma divina que tivesse surgido a partir delas. 

 No entanto, não se pode atribuir esta ou aquela origem a Kali. Mesmo se tiver sido uma deusa de origem antiga das tribos primitivas, ela tem uma amplitude e poder muito superior ao que as divindades primitivas benfazejas geralmente tinham. Ela não pode ser tratada como uma mera divindade tribal de origem indígena, a menos que se sacrifique sua absoluta familiaridade e seu status na linha Hindu tradicional. Além disso, não podemos atribuir à tradição sua criação absoluta, pois isso comprometeria seu status de Deusa e ela seria reduzida a algo que não é.  

Seja qual for sua origem, talvez indígena, Kali surge na tradição com uma reverência e impulso muito maior do que se atribui aos demais deuses. Ela não é um mero epíteto ou aspecto de outra Deusa. Ela foi concebida como o poder (Shakti) do Tempo (Kala). Como Kala, Ela permeia todas as coisas, manifestas ou ocultas. Os Puranas percebem Kali como a cólera personificada de Durga – a incorporação da fúria – mas de qualquer forma Ela é sua verdadeira Shakti. Mesmo furiosa, Durga invoca Kali para realizar o que ela própria não consegue fazer. Depois que Durga separa Kali de si própria e Kali emerge com sua própria forma – um ser independente – Ela reina suprema em todo o panteão Hindu, com relação ao seu poder de destruir e vencer os inimigos. 

Kali não é meramente o poder de Durga, ela também foi concebida como o aspecto dinâmico do Senhor Shiva. Em uma relação deliciosa, o "a" de Shava e Kala nega o que é realizado pelo "i", o componente principal de Shiva e Kali. Shava é o corpo sem vida, aquilo que sobra no universo manifesto quando o Poder do Tempo o toma sob seu controle, e Kala é o que se revela apenas no aspecto manifesto do universo, e assim ambos são limitados. Quando o "i", simbólico da energia feminina, que se manifesta como Kali, se une a eles e transforma Shava em Shiva e Kala em Kali, ambos emergem como ilimitados, atemporais. Este universo está contido em Shiva, e assim, nele ocorre a transição do que é temporal para o atemporal. Kali, que é o Poder do Tempo, não sofre essa transição.

KALI NOS PURANAS

Ocorrem alusões a Kali em alguns Puranas antigos. No entanto, a visão mais elaborada a respeito de sua origem, aparência, personalidade, poder e feitos aparece no Devi Mahatmya, do século V ou VI, uma parte do Markandeya Purana.  

O Devi Mahatmya contém uma meditação (dhyana) independente sobre Mahakali, e usa os nomes de Kali como Bhadrakali, Kalika, Chandika, ... como epítetos da Devi, em suas diferentes partes. Há, no entanto, dois episódios que expõem de forma mais completa sua origem, papel e outras coisas. Um deles está relacionado com Chanda e Munda, os ferozes demônios que ela mata, e outro, a Rakta-bija.  

Os deuses haviam sido derrotados e atirados para fora de sua moradia divina (devaloka) pelos demônios Shumbha e Nishumbha, generais de Mahisha. Os Devas louvaram a Devi e a invocaram para que viesse em seu socorro e libertasse sua morada dos terríveis demônios. Devi, que estava se banhando no rio Ganga sob a forma de Parvati, ouviu o louvor dos deuses e se perguntou a quem eles estavam louvando. Quando ela perguntou isso, brotou dela própria uma forma feminina – uma beleza encantadora que tinha um brilho único, envolta em juventude, ricamente adornada por jóias e com roupas brilhantes. Ela respondeu que era a ela que eles louvavam. Então ela foi para a região que estava infestada pelo exército de Shumbha e se assentou sozinha sob uma árvore. Ouvindo um mensageiro falar sobre sua aparência, Shumbha desejou intensamente se casar com ela e lhe mandou sua proposta. No entanto, a jovem divina enviou de volta seu mensageiro dizendo que ela somente se casaria com alguém que a vencesse em uma batalha.

 Pensando que uma jovem sem armas nas mãos não era um desafio significativo, Shumbha mandou um pequeno contingente para lutar com ela e capturá-la. A Deusa o derrotou e destruiu, e também um após outro, todos os contingentes que vieram depois. Finalmente, com um enorme exército de demônios comandados pelos generais Chanda e Munda, os próprios Shumbha e Nishumbha vieram lutar contra a Deusa. Vendo Chanda e Munda avançando contra ela, a Deusa se incendiou de fúria. Como o Devi Mahatmya descreve, 
"Das sobrancelhas de sua testa brotou imediatamente Kali, com sua face assustadora, carregando espada e laço. Ela portava um estranho bastão coroado por um crânio e tinha uma guirlanda de cabeças humanas, estava envolta em uma pele de tigre, e parecia horrorosa com sua pele macilenta, sua boca escancarada, aterrorizando com sua língua para fora, com olhos afundados e vermelhos, e uma boca que enchia os quatro cantos com rugidos." 

 A Deusa pediu a Kali que destruísse o exército dos demônios, em particular Chanda e Munda. Kali infligiu grande destruição à sua volta, dançou sobre os cadáveres, matou Chanda e Munda e como troféus de guerra trouxe à Deusa suas cabeças decepadas. A Deusa atribuiu a Kali o epíteto de Chamunda – destruidora de Chanda e Munda. As mortes de Chanda e Munda enfureceram fortemente Shumbha e Nishumbha e eles, com os demônios sob seu comando, incluindo Rakta-bija e outros de seu clã, atacaram a Deusa e a cercaram, juntamente com Kali, por todos os lados. Para enfrentar seu imenso número, a Deusa invocou as Sete Mães (Sapta Matrikas) Brahmani, Maheshvari, Kumari, Vaishnavi, Varahi, Narsimhi e Aindri, os poderes de todos os grandes Devas, Brahma, Shiva, Skanda, Vishnu e Indra. 

Seguiu-se uma batalha feroz, porém o que mais perturbou a Deusa foi a multiplicação de Rakta-bija, pois este tinha um dom pelo qual surgia um novo demônio Rakta-bija de todos os lugares onde caísse uma gota de seu sangue. Finalmente, a Deusa chamou Kali para beber o sangue de Rakta-bija antes que caísse sobre o solo. Com uma boca escancarada, devorando multidões de demônios, e com uma língua que se estendia em todas as direções e que se movia mais depressa do que o demônio, Kali consumiu cada gota de sangue que saía das feridas de Rakta-bija.  
Kali é venerada como a Deusa que garante sucesso na guerra e elimina os inimigos – não apenas no Devi Mahatmya, mas em quase todos os Puranas, particularmente no Agni Purana e no Garuda Purana. 

O Skanda Purana associa a origem de Kali a Parvati. Inicialmente, Parvati tinha uma aparência escura, e por isso Shiva costumava caçoar dela de vez em quando. Um dia, depois de ser chamada duas vezes de Kali (a Negra), Parvati abandonou Shiva e disse que não retornaria a menos que se livrasse de sua aparência escura. Depois que Parvati partiu, Shiva se sentiu muito só. Aproveitando sua ausência e a solidão de Shiva, um demônio chamado Adi, que estava procurando uma oportunidade para matá-lo e se vingar da morte de seu pai, disfarçou-se como se fosse Parvati e conseguiu entrar no quarto de Shiva. Depois de algum tempo, Shiva identificou o demônio e o matou. Enquanto isso, por um ascetismo rigoroso (tapas) e com a ajuda de Brahma, Parvati foi capaz de se desfazer de sua camada externa negra, e de dentro emergiu sua forma dourada. Transformada em Gauri (a dourada), ela retornou a Shiva. Os Deuses, procurando uma forma feminina que pudesse matar Mahisha, transformaram com sua luz esta casca negra de Parvati em Kali, e depois que ela realizou o desejo dos Deuses, Parvati a baniu para a região que fica depois da montanha Vindhya, onde ela se tornou conhecida como Katyayani.

  O Linga Purana contém ainda um outro episódio responsável pela origem de Kali. Um demônio chamado Daruka tinha um dom de que apenas uma mulher poderia matá-lo. Quando chegaram relatos de suas atrocidades, Shiva pediu a Parvati que o matasse. Então Parvati entrou no corpo de Shiva, e a partir do veneno que estava contido em sua garganta ela se transformou e reapareceu como Kali. Ela reuniu um exército de Pishachas que comem carne humana e com sua ajuda destruiu Daruka. O Skanda Purana amplia mais essa história. Kali não parou a destruição mesmo depois de matar Daruka. Embriagada pelo consumo do veneno e pelo sangue do demônio, Kali se tornou incontrolável, enlouquecida, e por suas atividades destrutivas colocou em perigo o equilíbrio cósmico. Finalmente, Shiva assumiu uma das formas da própria Kali e sugou dos seios dela todo o veneno. Depois disso, ela se acalmou.

No Sul da Índia prevalece uma tradição semelhante, embora em um contexto diferente. Depois de derrotar Shumbha e Nishumbha, Kali se retirou para uma floresta com sua escolta de companheiros terríveis e começou a aterrorizar a vizinhança e seus habitantes. Um devoto de Shiva foi até ele com o pedido de livrar a floresta do terror de Kali. Quando Kali se recusou a obedecer a Shiva, alegando que estava no seu próprio território, Shiva lhe pediu que competisse com ele dançando. Ela concordou, mas não conseguindo (ou não querendo) atingir o nível de energia de Shiva, Kali foi vencida e saiu.  

A origem de Kali também foi associada a Sati (a primeira esposa de Shiva) e com Sita (esposa do Senhor Rama) – embora não seja uma conexão muito significativa. Em um relato, quando é insultada por seu pai Daksha, Sati se torna furiosa, esfregou seu próprio nariz e daí apareceu Kali. Em outro relato, Rama estava retornando a Ayodhya depois de vencer Ravana. Em seu caminho ele encontrou um monstro que o assustou tanto que o sangue de Rama se congelou de medo. Então Sita se transformou em Kali e o derrotou. 

KALI: APARÊNCIA E PERSONALIDADE

As manifestações de Kali são numerosas. No entanto, sua aparência externa, tanto nos textos quando na arte, assim como sua natureza básica e personalidade geral, não variam muito. Na sua forma usual de cor negra, Kali é uma divindade terrível que inspira temor, que assusta a todos por sua aparência. Ela está sempre nua, embora algumas partes de seu corpo sejam cobertas por seus ornamentos. Uma figura macilenta, com longo cabelo desgrenhado e uma face repulsiva, Kali já foi concebida com qualquer número de braços, de dois até dezoito, e algumas vezes até mais de vinte, embora sua forma mais usual tenha quatro braços. Eles são interpretados como simbolizando sua capacidade de agir e dirigir as quatro direções do espaço, ou seja, todo o cosmos.  

Ela tem longas presas afiadas, e longas e feias unhas, um terceiro olho na testa que emite fogo, uma língua esticada e uma boca suja de sangue que, quando se expande, não apenas engole multidões de demônios, mas que abrange desde as profundezas do oceano com sua parte inferior até o fim dos céus, com a superior. Quando precisa lamber o sangue que cai do corpo de um demônio que foge, ela estica sua língua tanto quanto seja necessário e a gira mais depressa do que o vento, para qualquer direção em que o sangue caia. 

Na sua iconografia mais usual, Kali carrega em uma de suas quatro mãos uma espada desnuda – seu instrumento para vencer os inimigos e comandar os males; em outra, a cabeça cortada de um demônio, e as outras duas mostram gestos que indicam ausência de medo e benevolência (abhaya e varada). Algumas vezes, a cabeça decepada é substituída por uma cuia feita de crânio, cheia de sangue.  

Abhaya é a essência de todo o ser de Kali. Abhaya é uma das suas disposições mentais permanentes, é sua garantia contra todos os temores que, incorporados nela, se tornam inoperantes ou que apenas agem sob o seu comando. Indicando seu poder ilimitado de destruição, o aspecto assustador de Kali é seu poder para dispersar o mal e o perverso, e com isso se assegura novamente a ausência de medo.  

O lugar usual de Kali é um campo de batalha, onde estão espalhados por toda parte lagos de sangue, corpos sem cabeça, cabeças decepadas, braços e outras partes cortadas. Quando não está no campo de batalha, Kali vagueia pelos campos de cremação, onde reina o silêncio da morte, exceto quando ele é quebrado pelos ventos que assobiam, pelos resmungos dos chacais e pelo som das asas dos abutres que rasgam os cadáveres. A escuridão abissal desses lugares, ocasionalmente iluminada pelas chamas das piras funerárias, é o que mais convém a Kali. No campo de batalha e em outras situações, ela caminha descalça. Exceto raramente, quando toma emprestado ou pela força o leão de Durga ou o búfalo Nandi de Shiva, Kali não usa um veículo, um animal ou qualquer outra coisa, seja para se deslocar ou para ajudá-la na sua batalha.  

Ela dança para destruir, e sob seus pés que dançam há o cadáver da destruição. De pé ou sentada, ela tem debaixo de si um cadáver esticado com o pênis ereto – não a flor de lótus, que é o assento favorito da maioria das divindades. Ela se coloca sobre a não-existência – o cadáver do universo destruído, mas que apesar disso contém a semente de um novo nascimento. 

Na sua iconografia, enquanto o cadáver representa a não-existência ou o universo destruído, a figura de Kali unida a Shiva ou ao seu cadáver (Shava) simboliza o contínuo processo de criação. O universo manifesto é aquilo que é envolto pelo tempo, mas quando Kali, o Poder do Tempo, destruiu o universo manifesto, esse véu se ergue e o Tempo, assim como Kali, o Poder do Tempo, se torna des-nudo, um fenômeno indicado pela nudez de Kali.  

Por sua natureza, Kali está sempre faminta e nunca é saciada. Ela ri tão alto que todos os três mundos estremecem de terror. Ela dança loucamente, não apenas pisando sobre cadáveres, mas também sobre o cosmos vivo, reduzindo-o à não-existência. Ela espreme, quebra, pisa e queima seus inimigos ou os de seus devotos.  

Kali não apenas é uma divindade de natureza independente, mas é também indomável, ou melhor, ela domina tudo. Ela é poderosa como Shiva, foge às convenções e fica mais à vontade quando reside à margem da sociedade. Seu estilo de vida não tem aspectos de nobreza ou do modo de vida da elite. Ela é consorte ou companheira de Shiva, mas não tem o jeito meigo e humilde de Parvati. Sendo ela própria selvagem e destruidora, ela incita Shiva a um comportamento selvagem, perigoso e destrutivo, ameaçando a estabilidade do cosmos. Eternamente uma guerreira, Kali não perde uma oportunidade para lutar. Ela é um dos guerreiros de Shiva em sua batalha contra Tripura.  

AS FORMAS DE KALI 



Um imenso corpo de mitologia sobre Kali se desenvolveu na tradição popular, mais do que nos textos. Em toda aldeia, mesmo que tenha apenas uma dúzia de cabanas, há um canto no qual se vê uma imagem grosseira de Kali pintada em preto, com a língua vermelha como o sangue. Também se espalham por toda parte as histórias de seus poderes misteriosos, tanto de produzir danos quanto de proteger dos males. Sua presença é mais significativa ainda na arte indiana, onde ela aparece associada a muitos temas hindus importantes. Aquilo que algumas vezes aparece nos textos como meros epítetos de Kali, são formas bem esta-belecidas dela, na arte indiana. Mahakali, Bhadrakali, Dakshina Kali, Guhyakali, Shmashana Kali, Bhairavi, Tripura-Bhairavi, Chamunda... são algumas de suas formas mais populares, tanto nos textos quanto nas artes.  

Na sua forma de Mahakali, ela é equivalente a Mahakala – o aspecto onipotente de Shiva, que devora o tempo e dissolve tudo. Kali é a transformação feminina de Mahakala. Em sua forma de Mahakali, ela preside à Grande Dissolução que é simbolizada por Shiva sob a forma de Shava. Na arte, Kali invariavelmente o conserva como uma relíquia. Inicialmente, como Mahakali, seu papel estava limitado à destruição do demônio. Nos Puranas, embora ainda representando dissolução, destruição, morte e envelhecimento, ela personifica mais enfaticamente horror, medo, repugnância. Ela ainda mata demônios, mas principalmente quando é convocada, e mantida sob controle. Em sua forma de Chamunda – a destruidora de Chanda e Munda – ela era um matador de demônios feroz, com muitos braços. Ela carregava nas suas mãos muitas armas mortais e em seus olhos uma luz que queimava seus inimigos.  

Sob a forma de Shmashana Kali, mais popular no Tantrismo, Kali freqüenta um terreiro de cremação entre as piras que queimam – o domínio intermediário entre este mundo e o próximo, onde a morte e a dissolução reinam. 

Como Tripura Bhairavi, consorte da morte, Kali é concebida com uma forma que porta um longo colar de corpos humanos, um menor de crânios, uma guirlanda de mãos cortadas, e brincos de cadáveres de crianças. Em volta dela há muitos cadáveres dos quais se alimentam chacais astutos e abutres repulsivos. Tripura Bhairavi às vezes usa uma tanga, mais geralmente está coberta por uma pele de elefante, e tem outros atributos associados a Shiva.  

Dakshina Kali, que é enfeitada por jóias, também usa um longo colar de cabeças cortadas, uma guirlanda de braços muito pequenos cortados, e um par de cadáveres como brincos, mas em vez de ser repulsiva sua aparência expõe membros jovens e macios, com proporções perfeitas. Ela está sobre o corpo de um Shiva deitado, com o pênis ereto, em uma pira queimando no terreiro de cremação, onde aves de rapina pairam e os chacais vagueiam. Em uma de suas mãos, Dakshina Kali tem uma espada, em outra uma cabeça humana, e nas outras duas mostra os gestos de Abhaya e Varada. 

Bhadra Kali, a auspiciosa, que é a forma majestosa, benigna, benevolente e suave de Kali, foi concebida com um número de braços que costuma variar de dois a quatro. Ela geralmente carrega duas tigelas, uma para vinho e a outra para sangue. A forma de Kali que os deuses cultuam invariavelmente, mesmo Shiva, Vishnu e Brahma, é a de Bhadra Kali. Ela se delicia, ela bebe, dança e canta com alegria.  

Guhyakali, que significa literalmente “a Kali secreta”, é o aspecto esotérico de Kali, que é conhecido apenas pelos que conhecem bem a tradição de Kali. Na sua forma que se revela quando se medita nela (dhyana), as serpentes constituem uma parte significativa de seus adornos. Seu colar, o cordão sagrado e o cinto são todos feitos de serpentes, e a serpente Ananta com mil cabeças é seu guarda-sol. Além disso, sua forma assimila outros atributos de Shiva, incluindo um crescente lunar na sua testa. Na representação visual, em vez da ênfase em serpentes, Guhyakali é identificada pelo Kali Yantra, com o qual é invariavelmente representada.

KALI NO YOGA E NO TANTRA 

Kali tem um lugar muito significativo no Yoga e no Tantra, embora no Yoga seu status não seja tão elevado quanto no Tantra. O despertar da Kundalini (Kundalini sadhana), da energia adormecida que é vista como uma serpente negra que faz enrolada e adormecida no corpo interno, é uma prática principal em ambos, mas é a verdadeira base do Yoga. O Yoga percebe Kali como o poder enrolado, Kundalini Shakti. Kali é assim a base do Yoga, embora além dessa equivalência ele não invoque mais Kali.  

O Tantra procura sua realização nas dez Grandes Sabedorias (Mahavidyas). Kali, sendo a principal delas, é a divindade mais significativa do Tantra. O comportamento disruptivo de Kali, sua aparência descuidada, atividades de confronto e envolvimento com morte e impureza, são o que convém mais ao Tantra, especialmente o da mão esquerda (vamachara). A forma de Kali que contém em uma estrutura corporal impura e mesmo pecaminosa a maior santidade espiritual ajuda o seguidor do Tantra a superar a noção convencional de puro e impuro, sagrado e profano, e outros conceitos dualísticos que levam a uma natureza incorreta da realidade. Os textos Yogini Tantra, Kamakhya Tantra e Nirvana Tantra veneram Kali como a divindade suprema, e o Nirvana Tantra percebe Brahma, Vishnu e Shiva como provenientes de Kali, como bolhas brotam do mar.

Para o seguidor do Tantra, a cor negra de Kali é um símbolo de desintegração: como todas as cores desaparecem no preto, assim todos os nomes e formas se misturam nela. A densidade do negro – massivo, compacto e sem mistura – representa a consciência pura. Kali, vestida de espaço (digambari), em sua nudez, livre de toda cobertura ilusória, define para o seguidor do Tantra a caminhada do irreal para o real. Em Kali com seios repletos, que simbolizam sua maternidade incessante, o seguidor do Tantra descobre seu poder de preservar. Seu cabelo desgrenhado (elokeshi) representa a cortina da morte que cerca a vida com mistério. Em sua guirlanda de cinqüenta e duas cabeças humanas, cada uma representando uma das cinqüenta e duas letras do alfabeto sânscrito, o seguidor do Tantra percebe um tesouro de poder e conhecimento. O cinto de mãos, o principal instrumento de trabalho, revela seu poder com o qual o cosmos atua, e em seus três olhos, sua atividade tríplice – criação, preservação e destruição. Tanto Kali quanto Tantra são uma síntese da unidade do dualismo aparente. Assim como na sua imagem aterrorizante, o aspecto negativo de seu ser (e, portanto, do cosmos), é a força vital criadora, a fonte da criação, da mesma forma no caminho do Tantra a viagem começa a partir daquilo que é material, até o ápice – o supremo.

PARA APROFUNDAMENTO:
1. Mahabharata, Gita Press Gorakhpur  
2. Shrimad Devi Bhagavata, Chaukhambha Sanskrit Pratishthan, Delhi  
3. Devimahatmyam, tr. By Devadatta Kali, Delhi  
4. Dahejia, Vidya : Devi, The Great Goddess, Washington D.C.  
5. Menzies, Jackie : Goddess, Divine Energy, Art Gallery, NSW  
6. Kinsley, David : Hindu Goddesses, Delhi  
7. Kinsley, David : The Ten Mahavidyas : Tantric Vision of Divine Feminine, Delhi  
8. Hawley, J. S. & Wulff, Monna Marie (ed) : Devi, Goddesses of India, Delhi  
9. Hawley, John S. & Donna M. Wolfe (ed) : Devi : Goddesses of India, Delhi  
10. Rosen, Steven J. (ed) : Vaishnavi, Delhi  
11. Mitchell, A. G.: Hindu Gods and Goddesses, London  
12. Mookarjee, Ajit & Khanna, Madhu: The Tantrika Way, Boston  
13. Kanwar Lal : Kanya and the Yogi, Delhi  
14. Upadhyaya, Padma : Female Images in Museums of Uttar Pradesh and Their Social Background, Delhi  

FONTE:

O original deste artigo, em inglês (Kali: The Most Powerful Cosmic Female. Article of the Month – February 2009), foi escrito pelo Prof. P. C. Jain e pelo Dr. Daljeet e está disponível no site Exotic India, que gentilmente nos autorizou a traduzir e publicar na Internet esta tradução para o português.