segunda-feira, 2 de abril de 2018

Templários



A Tragédia da Ordem dos Cavaleiros do Templo, no Século XIV, despertou nos Povos Latinos, a Verdadeira Consciência da Liberdade.

No início de 1100, Hugo de Paynes e mais oito cavaleiros franceses, abrasados pelo fervor religioso e movidos pelo espírito de aventura tão comum aos nobres que buscavam nas Cruzadas, nos combates aos muçulmanos a glória dos atos de bravura e a consagração da impavidez, abalaram rumo à Palestina levando no peito a cruz de Cristo e na alma um sonho de amor. Eram os Gouvains do Cristianismo, que se constituíam fiadores da fé, disputando as relíquias sagradas que os fanáticos do Crescente retinham e profanavam.

Reinava em Jerusalém Balduíno II que os acolheu e lhes destinou um velho palácio junto ao planalto do Monte Moriah, onde os montões de escombros assinalavam as ruínas de um grande Templo. Seriam as ruínas do GRANDE TEMPLO DE SALOMÃO, o mais famoso santuário do XI século antes de Cristo. Destruído pelos caldeus e reconstruído por Zorobabel, fora ampliado por Herodes em 18 antes de Cristo e, finalmente, arrasado pelas legiões romanas chefiadas por Tito, na tomada de Jerusalém. Os “Pobres Cavaleiros de Cristo” atraídos pela sensação do mistério que pairava sobre as veneradas ruínas, não tardaram para que descobrissem a entrada secreta que conduzia ao labirinto subterrâneo só conhecido pelos iniciados nos mistérios da Cabala.

E entraram. Uma extensa galeria conduziu-os atéuma porta chapeada de ouro por detrás da qual devia estar o maior Segredo da Humanidade. Pararam... Encimando a porta uma inscrição em caracteres hebraicos prevenia os profanos contra os impulsos da ousadia: SE ÉA MERA CURIOSIDADE QUE AQUI TE CONDUZ, DESISTE E VOLTA; SE PERSISTIRES EM CONHECER O MISTÉRIO DA EXISTÊNCIA, FAZ O TEU TESTAMENTO E DESPEDE-SE DO MUNDO DOS VIVOS. Pálidos, os cavaleiros entreolharam-se, e pela primeira vez em suas vidas sentiram medo e desistiram.

Pois não era a mera curiosidade que ali os conduzira?... Os “infiéis do Crescente” eram seres vivos e contra eles a cruz e a espada realizavam prodígios de valentia. Ali dentro, porém, não era a vida que palpitava, e sim os aspectos da Morte. Voltaram. Os reencontros sangrentos com os islamitas tornaram-nos insensíveis ao medo, e num certo dia estimulados pelo desejo de conhecer a Criação que a grande porta de ouro lhes ocultava, entraram novamente a galeria dispostos abaterem-se com a própria morte. Hugo de Paynes, afoito, bateu com o punho da espada e bradou com voz estentórica: – EM NOME DE CRISTO, ABRI!!

E o eco das suas palavras repercutindo pelo emaranhado labirinto respondeu: EM NOME DE CRISTO...enquanto a porta, rangeu os gonzos e escancarou aos olhos vidrados dos cavaleiros um gigantesco recinto ornado de figuras bizarras, delicadas umas e monstruosas outras, tendo ao Nascente um grande trono recamado de sedas e por cima um triângulo equilátero em cujo centro em letras hebraicas marcadas a fogo se lia o TETRAGRAMA YOD. Junto aos degraus do trono e sobre um altar de alabastro, estava a “LEI” cuja cópia, séculos mais tarde, um Cavaleiro Templário em Portugal, devia revelar à hora da morte, no momento preciso em que na Borgonha e na Toscana se descobriam os cofres contendo os documentos secretos que “comprovavam” a heresia dos Templários.

A “Lei Sagrada” era a verdade de Jahveh transmitida ao patriarca Abraão. A par da Verdade divina vinha depois a revelação Teosófica e Teogâmica a KABBALAH. Extasiados diante da majestade severa dos símbolos, os nove cavaleiros, futuros Templários, ajoelharam e elevaram os olhos ao alto. Na sua frente, o grande Triângulo, tendo ao centro a inicial do princípio gerador, espírito animador de todas as coisas e símbolo da regeneração humana, parece convidá-los à reflexão sobre o significado profundo que irradia dos seus ângulos. Ele é o emblema da Força Criadora e da Matéria Cósmica. A Tríade que representa a Alma Solar, a Alma do Mundo e a Vida. É a Unidade Perfeita. Um raio de Luz intensa ilumina então àqueles espíritos obcecados pela ideia da luta, devotados à supressão da vida de seres humanos que não comungam os mesmos princípios religiosos que os levou à Terra Santa. Ali estão representadas as Trinta e Duas Vidas da Sabedoria que a Kabbalah exprime em fórmulas herméticas, e que a Sepher Jetzira propõe ao entendimento humano.

Simbolizando o Absoluto, o Triângulo representa o Infinito, Corpo, Alma e Espírito. Fogo Luz e Vida. Uma nova concepção que pouco a pouco dilui e destrói a teoria exclusivista da discriminação das divindades se apossa daqueles espíritos até então mergulhados em ódios religiosos e os conclama à Tolerância, ao Amor e a Fratenidade entre todos os seres humanos. A Teosofia da Kabbalah exposta sobre o Altar de alabastro onde os iniciados prestavam juramento dá aos Pobres Cavaleiros de Cristo a chave interpretativa das figuras que adornam as paredes do Templo. Na mudez estática daqueles símbolos há uma alma que palpita e convida ao recolhimento.

Abalados na sua crença de um Deus feroz e sanguinário, os futuros Templários entreolham-se e perguntam-se: SE TODOS OS SERES HUMANOS PROVÊM DE DEUS QUE OS FEZ À SUA IMAGEM E SEMELHANÇA, COMO COMPREENDER QUE OS HOMENS SE MATEM MUTUAMENTE EM NOME DE VÁRIOS DEUSES? COM QUEM ESTÁ A VERDADE? Entre as figuras mais bizarras que adornavam o majestoso Templo, uma em especial chamara a atenção de Hugo de Paynes e de seus oito companheiros. Na testa ampla, um facho luminoso parecia irradiar inteligência; e no peito uma cruz sangrando acariciava no cruzamento dos braços uma Rosa, encantadora. A cruz era o símbolo da imortalidade; a rosa o símbolo do princípio feminino.

A reunião dos dois símbolos era a ideia da Criação. E foi essa figura monstruosa, e atraente que os nove cavaleiros elegeram para emblema de suas futuras cruzadas. Quando em 1128 se apresentou ante o Concílio de Troyes, Hugo de Paynes, primeiro Grão-Mestre da Ordem dos Cavaleiros do Templo, já a concepção dos Templários acerca da ideia de Deus não era muito católica. A divisa inscrita no estandarte negro da Ordem “Non nobis, Domine, sed nomini tuo ad Gloria” não era uma sujeição à Igreja mas uma referência a inicial que no centro do Triângulo simbolizava a unidade perfeita: YOD. Cavaleiros francos, normandos, germânicos, portugueses e italianos acudiram a engrossar as fileiras da Ordem que dentro em pouco se convertia na mais poderosa Ordem do século XII.

Mas a Ordem tornara-se tão opulenta de riquezas, tão influente nos domínios da cristandade que o Rei de França Felipe o Belo decretou ao Papa para expedir uma Bula confiscando todas suas riquezas e enviar seus Cavaleiros para as “Santas” fogueiras da Inquisição. Felipe estava atento. E não o preocupava as interpretações heréticas, o gnosticismo. Não foram, portanto, a mistagogia que geraram a cólera do Rei de França e deram causa ao monstruoso processo contra os Templários. Foi a rapacidade de um monarca falido para quem a religião era um meio e a riqueza um fim. Malograda a posse da Palestina pelos Cruzados, pelo retraimento da Europa Cristã e pela supremacia dos turcos muçulmanos, os Templários regressam ao Ocidente aureolados pela glória obtidas nas batalhas de Ascalão, Tiberíade e Mansorah. Essas batalhas, se não consolidaram o domínio dos Cristãos na Terra Santa, provocaram, contudo, a admiração das aguerridas hostes do Islam (muçulmanos), influindo sobre a moral dos Mouros que ocupavam parte da Espanha.

Iniciam entre os Templários o culto de um gnosticismo eclético que admite e harmoniza os princípios de várias religiões, conciliando o politeísmo em sua essência com os mistérios mais profundos do cristianismo. São instituídas regras iniciática que se estendem por sete graus, que vieram a ser adotados pela Franco Maçonaria Universal (três elementares, três filosóficos e um cabalístico), denominados “Adepto”, “Companheiro”, “Mestre Perfeito”, “Cavaleiro da Cruz”, “Intendente da Caverna Sagrada”, “Cavaleiro do Oriente”e “Grande Pontífice da Montanha Sagrada”. A Caverna Sagrada era o lugar Santo onde se reuniam os cavaleiros iniciados. Tinha a forma de um quadrilátero (quadrado) perfeito. O ORIENTE representava a Primavera, o Ar, Infância e a Madrugada. O MEIO DIA (Sul), o Estio, o Fogo e a Idade adulta. O OCIDENTE, o Outono, a Água, o Anoitecer. O NORTE, a Terra, o Inverno, a Noite. Eram as quatro fases da existência.

O Fogo no MEIO DIA simbolizava a verdadeira iniciação, a regeneração, a renovação, a chama que consumia todas as misérias humanas e das cinzas, purificadas, retirava uma nova matéria isenta de impurezas e imperfeições. No ORIENTE, o Ar da Madrugada vivificando a nova matéria, dava-lhe o clima da Primavera em que a Natureza desabrochava em florações luxuriantes, magníficas acariciando a Infância. Vinha depois o OUTONO, o Anoitecer, o amortecer da vida, a que a Água no OCIDENTE alimentava os últimos vestígios desta existência. O NORTE, marca o ocaso da Vida.

A Terra varrida pelas tempestades e cobertas pela neve que desolam e que matam, é o Inverno que imobiliza, que entorpece e que conduz à Noite caliginosa e fria a que não resiste a debilidade física, a que sucumbe a fragilidade humana. E é no contraste entre o Norte e o Meio Dia que os Templários baseiam o seu esoterismo, alertando os iniciados da existência de uma segunda vida. Nada se perde: Tudo se Transforma. ...Vai ser iniciado um “Cavaleiro da Cruz”. O Grande Pontífice da Montanha Sagrada empunha a Espada da Sabedoria, e toma lugar no Oriente.

Ao centro do Templo, um pedestal que se eleva por três degraus, está a grande estátua de Baphomet, símbolo da reunião de todas as forças e de todos os princípios (Masculino e Feminino, A Luz e as Trevas, etc...) como no Livro da Criação, a Sepher-Jetzira Livro mor da Cabala. No peito amplo da estranha e colossal figura, a Cruz, sangrando, imprime à Rosa Branca um róseo alaranjado que pouco a pouco toma a cor de sangue. É a vida que brota da união dos princípios opostos. Por cima da Cruz, a letra “G”. O iniciado, Mestre Perfeito, já conhece muito bem o significado dessa letra que na mudez relativa desafia a quea interpretação na sua nova posição, junto ao Tríplice Falus, na sua junção com a Rosa-Cruz mística.

“A Catequese Cristã é apenas, como o leite materno, uma primeira alimentação da Alma; o sólido banquete é a Contemplação dos Iniciados, carne e sangue do Verbo, a compreensão do Poder e da Quintessência divina”. “O Gnóstico é a Verdadeira Iniciação; e a Gnose é a firme compreensão da Verdade Universal que, por meio de razões invariáveis nos leva ao conhecimento da Causa...” “Não é a Fé, mas sim a Fé unida as Ciências, a que sabe discernir a verdadeira da falsa doutrina. Fiéis são os que apenas literalmente creem nas escrituras. Gnósticos, são os que, aprofundando-lhes o sentido interior, conhecem a verdade inteira”.

“Só o Gnóstico é por essência, piedoso”. “O homem não adquire a verdadeira sabedoria senão quando escuta os conselhos duma voz profética que lhe revela a maneira porque foi, é, e será tudo quanto existe”. O Gnosticismo dos Templários é uma nova mística que ilumina os Evangelhos e os interpreta à Luz da Razão Humana. O Mestre Perfeito entra de olhos vendados, até chegar ao pedestal de Baphomet. Ajoelha e faz sua prece: “Grande Arquiteto do Universo Infinito, que lês em nossos corações, que conheces os nossos pensamentos mais íntimos, que nos dá o livre arbítrio para que escolhamos entre a estrada da Luz e das Trevas.”

“Recebe a minha prece e ilumina a minha alma para que não caia no erro, para que não desagrade à vossa soberana vontade” “Guiai-me pelo caminho da Virtude e fazei de mim um ser útil à Humanidade”. Acabada a prece, o candidato levanta-se e aguarda as provas rituais que hão de conduzi-lo a meta da Verdade. ...O GRANDE PONTÍFICE TEMPLÁRIO interroga o candidato a “Cavaleiro da Cruz” em tom afetivo e paternal: “Meu Irmão, a nossa Ordem nasceu e cresceu para corrigir toda espécie de imperfeição humana”.

“A nossa consciência é que é o juiz das nossas ações. A ignorância é o verdadeiro pecado. O inferno é uma hipótese, o céu uma esperança”. “Chegou o momento de trocarmos as armas homicidas pelos instrumentos da Paz entre os Homens. A missão do Cavaleiro da Cruz é amar ao próximo como a si mesmo. As guerras de religião são monstruosidades causadas pela ignorância, geradas pelo fanatismo. As energias ativas devemos orientá-las no sentido do Amor e da Beleza; mas não se edifica uma obra de linhas esbeltas sem um sentimento estético apolíneo que só se adquire pelo estudo que conduz ao aperfeiçoamento moral e espiritual”. “O homem precisa Crer em algo. Os primitivos cultuavam os Manes. Os Manes eramas almas humanas desprendidas pela morte da matéria e que continuavam em uma nova vida”. “Onde iriam os primitivos beber a ideia da alma? Respondei-me, se sois um Mestre Perfeito Templário”.

“- Nos fenômenos psíquicos que propiciam aparições, nas ilações tiradas dos sonhos, e na percepção”. “-Acreditais que os mortos se podem manifestar aos vivos?” “- Sim. Acredito que a Alma liberta do invólucro físico sobe a um plano superior, se sublima, e volve ao mundo para rever os que lhe são simpáticos, segundo a lei das afinidades”. “- Acreditais na ressurreição física de Cristo?” “- Não.” “- Acreditais na Metempsicose (Lei de Transmigração das Almas)?” “- Sim. A semelhança das ações, dos sentimentos, dos gestos e das atitudes que podemos observar em determinados seres não resultam apenas da educação mas da transmigração das almas. Essa transmigração não se opera em razão hereditária”. “- Acreditai que a morte legal absolve o assassino? Que o Soldado não é responsável pelo sangue que derrama”? “- Não acredito”.

” – Atentai agora nas palavras do Cavaleiro do Ocidente que vos dirá os sentidos que imprimimos no ao Grau de Cavaleiro da Cruz”. “A Ordem do Templo criou uma doutrina e adquiriu uma noção da moral humana que nem sempre se harmoniza com as concepções teológicas cristãs apresentadas como verdades indiscutíveis. Por isso nos encontramos aqui, em caráter secreto, para nos concentrarmos nos estudos transcendentes por meio do qual chegaremos à Verdadeira Harmonia”. “As boas obras dependem das boas inclinações da vontade que nos pode conduzir à realização das boas ações. A intuição é que leva os homens a empreender as boas ações. Quando o Grande Pontífice vos falou do culto dos primitivos, ele definiu a existência de uma intuição comum a todos os seres humanos”.

“Assim como por detrás das crenças dos Atlantes havia a intuição que indicava a existência de um Ser Supremo, o Grande Arquiteto responsável pela construção do Universo, também existia nesses povos um sentimento inato do Bem e do Belo, e um instinto de justiça que era a base de sua Moral”. “A Ciência nos deu meios de podermos aperfeiçoar a Moral dos antigos, mas a inteligência nos diz que além da Ciência existe a Harmonia Divina”. “Das ações humanas, segundo Platão, deverá o homem passar à Sabedoria para lhe contemplar a Beleza; e, lançado nesse oceano, procriará com uma inesgotável fecundidade as melhores ideias filosóficas, até que forte e firme seu espírito, por esta sublime contemplação, não percebe mais do que uma ciência: a do Belo”. Estavam findas as provas de iniciação.

O iniciado dirigia-se então para o Altar dos Holocaustos, onde o Sacrificador lhe imprime a Fogo, sobre o coração, o emblema dos Cavaleiro do Templo. ...Foi nessa intervenção indébita de Roma que influiu poderosamente para que a “Divina Comédia” de Dante Alighieri fosse o que realmente é- uma alegoria metafísico-esotérica onde se retratam as provas iniciática dos Templários em relação à imortalidade. Na DIVINA COMÉDIA cada Céu representa um Grau de iniciação Templário. Em contraste com o Inferno, que significa o mundo profano, o verdadeiro Purgatório onde devem lapidar-se as imperfeições humanas, vem o Último Céu a que só ascendem os espíritos não maculados pela maldade, isentos de paixões mesquinhas, dedicados à obra do Amor, da Beleza e da Bondade. É lá o zênite da Inteligência e do Amor. A doutrina Iniciática da Ordem do Templo compreende a síntese de todas as tradições iniciática, gnósticas, pitagóricas, árabes, hindus, cabires, onde perpassam, numa visão Cosmorâmica todos os símbolos dos Grandes e Pequenos mistérios e das Ciências Herméticas: A Cruz e a Rosa, o Ovo e a Águia, as Artes e as Ciências, sobretudo a Cruz, que para os Templários, assim como para os Maçons seus “sucessores ou continuadores”, era o símbolo da redenção humana.

Dante Alighieri e sua Grande Obra: A Divina Comédia, foi o cronista literário da Ordem dos Cavaleiros do Templo. Os Templários receberam da Ordem do Santo Graal o esquema iniciático e a base esotérica que serviu de base para seu sistema gnóstico. Pois o que era a Cavalaria Oculta de Santo Graal senão um sistema legitimamente Maçônico ainda mal definido, mas já adaptado aos princípios da Universalização da Fraternidade Humana? O Santo Graal significava a taça de que serviu Jesus Cristo na ceia com os discípulos, e na qual José de Arimathéa teria aparado o sangue que jorrava da ferida de Cristo produzida pela lança do centurião romano. Era a Taça Sagrada que figurava em todas as cerimônias iniciática das antigas Ordens de Cavaleiros que possuíam graus e símbolos misteriosos, e que a Maçonaria moderna incorporou em seus ritos, por ser fatal aos perjuros.

Os Templários adotavam-na na iniciação dos Adeptos e dos Cavaleiros do Oriente, mas ela já aparece nas lendas do Rei Arthur, nos romances dos Cavaleiros da Távola Redonda, que eram de origem céltica, e que a própria Igreja Católica a introduziu no ritual do cálice que serve no sacrifício da missa. No Grau de Cavaleiro do Oriente, os Templários figuram um herói: Titurel, Cavaleiro da Távola Redonda, que desejando construir um Templo onde depositar o Cálice Sagrado, encarregara da construção o profeta Merlin, que idealizou um labirinto composto de doze salas ligadas por um sistema de corredores que se cruzavam erecruzavam, como no labirinto de Creta onde o Rei Minos escondia o Minotauro (Mitologia Grega). O Postulante Templário tinha de entrar em todas as salas, uma só vez, para receber a palavra de passe, e só no fim dessa viagem podia ascender ao grau que buscava. Mas se em Creta, Theseu tivera o fio de ouro de Ariadne, para chegar ao Minotauro, no Templo dos Cavaleiros do Oriente, o candidato apenas podia se orientar por uma chave criptográfica composta de oitenta e uma combinações (9×9) o que demandava muito esforço de raciocínio e profundos conhecimentos em matemática.

A Ciência dos Números tinha para os Templários um significado profundo. Os Grandes Iniciados, com os Filósofos do Oriente, descobriram os mais íntimos segredos da natureza por meio dos números, que consideravam agradáveis aos Deuses. Mas tinha grande aversão aos números pares. O Grande Alquimista Paracelso dizia que os números continham a razão de todas as coisas. Eles estavam na voz, na Alma, na razão, nas proporções e nas coisas divinas. A Ordem dos Cavaleiros do Templo, cultuava a Ciência dos Números no Grau de Cavaleiro do Oriente, ensinando que a Filosofia Hermética contava com três mundos: o elementar, o celeste e o intelectual. Que no Universo havia o espaço, a matéria e o movimento. Que a medida do tempo era o passado, o presente e o futuro; e que a natureza dispunha de três reinos: animal, vegetal e mineral; que o homem dispunha de três poderes harmônicos: o gênio, a memória e a vontade. Que o Universo operava sobre a eternidade e a imensidade movida pela onipotência. A sua concepção em relação à Deus, o Grande Arquiteto do Universo, era Sabedoria, Força e Beleza. A Maçonaria criou uma expressão própria para os Altos Graus: Sabedoria, Estabilidade e Poder.

Tudo isto provinha do Santo Graal, a que os Templários juntavam que, em política, a grandeza e a duração e a prosperidade das nações se baseavam em três pontos primordiais: Justiça dos Governos, Sabedoria das Leis e Pureza dos Costumes. Era nisso que consistia a arte de governar os povos. As oitenta e uma combinações que levavam o candidato ao Templo de Cavaleiro do Oriente tinha por base o sagrado número Três, sagrado em todas as corporações de caráter iniciático. O Triângulo encontrado no Templo de Salomão era uma figura geométrica constituída pela junção de Três linhas e a letra YOD no centro significava a sua origem divina. Todas as grandes religiões também têm como número sagrado o Três.

A Católica, exprimindo-o nas pessoas da Santíssima Trindade (Pai, Filho e Espírito Santo) nos dias que Cristo passou no sepulcro, nos Reis Magos, e nas vezes queSão Pedro negou o mestre. Nos Grandes Mistérios Egípcios, temos a Grande Trindade formada por Ísis, Osíris e Hórus. Entre os Hindus temos a Trimurti, constituída de Brahama, Shiva e Vishnu personificando a Criação, a Conservação e a Destruição. Em todas elas, como no racionalismo, nós encontramos como elementos vitais a Terra, a Água e o Sol. Foi, portanto, baseada nas grandes Religiões e no Gnosticismo dos Templários, que por sua vez se inspirou no da Cavalaria Oculta do Santo Graal, que a Maçonaria adotou como símbolo numerológico de vários graus o número três, que se vai se multiplicando na vida maçônica dos iniciados até a conquista da Sabedoria, da Força e da Beleza. ...Os Graus na Ordem do Templo eram Sete, como o é na Maçonaria Moderna Universal. Este número era também, junto com o Três, extremamente sagrado para os antigos. Era considerado o Número dos Números.

Ele representava os Sete Gênios que assistiam o Grande Mitra, Deus dos Persas, e figurava igualmente os Sete pilotos de Osíris. Os Egípcios o consideravam o símbolo da Vida. Haviam Sete Planetas e são Sete as fases da Lua. Sete foram os casais encerrados na arca de Noé, que parou sete meses depois do dilúvio, e a pomba enviada por Noé só recolheu depois de sete dias de ausência.

Foram sete as pragas que assolaram o Egito e o povo hebraico chorou sete sias a morte de Jacob, a quem Esaú saudara por sete vezes. A Igreja Católica reconhece Sete pecados capitais e instituiu os sete sacramentos. Para os muçulmanos existem sete céus. Deus descansou ao sétimo dia da criação. Sete eram as Ciências que os Templários transmitiam nos sete graus iniciático: A Gramática, a Retórica, a Lógica, a Aritmética, a Geometria , a Música e a Astronomia. Sete eram também os Sábios da Grécia. Apollo nasceu no dia sete do mês sete e sete era seu número sagrado. ... Harmonizando todas as Doutrinas, os Templários fugiam ao sentido fúnebre e superficial do catolicismo para se refugiarem em outros mistérios que entoavam Hinos à Vida. O argumento para a iniciação dos Intendentes da Caverna Sagrada foram buscá-lo à velha Frígia, Grécia, aos Mistérios dos Sabázios. Para os Gregos, Demeter (ou Ceres para os romanos) deu à luz a Perséfone, a quem Zeus (ou Júpiter) viola, e para isso se transforma em serpente. O Deus, atravessando o seio éa fórmula usada nos mistérios dos Sabázios: assim se chama a serpente que escorrega entre os vestígios dos iniciados como para lembrar a impudicícia de Zeus.

Perséfone dá a Luz a um filho com face de touro. O culto dos Sabázios que servia de tema às iniciações Templárias de Quinto Grau, impressionara o gênio grego mas era um intruso em sua religião, e contra ele se levantaram Aristóphanes ePlutarco. Era um Culto Orgíaco, mas não era disso que se queixavam os gregos, que também tinham o culto de Cybele e arvoravam em divindades as suas formosas hetairas (prostitutas sagradas do Templo) como o demonstra no túmulo da hetaira Tryphera: “Aqui jaz o corpo delicado de Tryphera, pequena borboleta, flor das voluptuosas hetairas, que brilhava no santuário de Cybele, e nas suas festas ruidosas, suas falas e gestos eram cheios de encantos” A iniciação dos Intendentes da Caverna Sagrada realizava-se no mês de Maio, o mês das flores, com o Templo dedicado à natureza, porque o Quinto Grau de Iniciação Templária era um hino à renovação periódica da vida, dentro do Princípio Alquímico que admitia a Transmutação das substâncias e a renovação das células por um sistema circular periódico, vivificante, em que tudo volta ao ponto de partida, OUROBOROS. O Grande Pontífice da Montanha Sagrada encarnava o papel do Sabázio, o Deus Frígio que figurava as forças da natureza e as movia no sentido da renovação e da regeneração humana.

A seus pés, de aspecto ameaçador estava a Serpente Sagrada, símbolo da regeneração e renovação pela mudança periódica de pele. À esquerda, coroada de flores e folhas verdes, cabelos soltos saindo de um emblema de estrelas, tendo ao peito nu, uma trança de papoulas, símbolo da fecundidade, nas orelhas brincos de três rubis e no braço esquerdo arqueado, o crivo místico das festividades de Elêusis, que três serpentes aladas acariciavam, a Grande Estátua de Deméter, personificação da Terra, e das forças produtoras da natureza. À direita, envergando uma cumprida túnica, severa e majestosa, Hera(ou Juno) a imponente Deusa do Olimpo, Esposa de Zeus, estende aos postulantes a taça do vinho celeste que contém em si o espírito da força indomável dosado com a reflexão e com a temperança. As provas, neste Grau, dirigiam-se no sentido da imortalidade da alma, e também no rejuvenescimento físico.

Deméter estendia a sua graça sobre o gênero humano para que os iniciados compreendessem que as forças da natureza reuniam a própria essência da Divindade. Eram elas que impulsionavam a vida, que renovavam as substâncias nos ciclos mais críticos e que podiam levar o homem à Imortalidade. Hera velava do Olimpo e Sabázio conduzia o fogo sagrado. Apenas os profundamente convictos, isentos de dúvidas e fortes em sua crença de que acima da natureza só existia a própria natureza evoluída é que recebiam a consagração da investidura do Grau. “A natureza mortal procura o quanto pode para se tornar imortal.

Não há, porém, outro processo senão o do renascimento que substitui um novo indivíduo a um indivíduo acabado”. “Com efeito, apesar de dizer do homem quevive do nascimento até a morte, e que é o mesmo durante a vida, a verdade é que não o é, nem se conserva no mesmo estado, nem o compõe a mesma matéria”. “Morre e nasce sem cessar, nos cabelos, na carne, nos ossos, no sangue, numa palavra: em todo seu corpo e ainda em sua alma”. “Hábitos, opiniões, costumes, desejos, prazeres, jamais se conservam os mesmos. Nascem e morrem continuamente”. “Assim se conservam os seres mortais. Não são constantemente os mesmos, como os seres divinos e imortais. E aquele que acaba, deixa em seu lugar um outro semelhante”. “Todos os mortais participam da imortalidade, no corpo e em tudo o mais.

quarta-feira, 28 de março de 2018

Aleister Crowley e Fernando Pessoa


Dez Coisas Que Desconhecem Sobre Aleister Crowley e Fernando Pessoa

1 - Mussolini expulsou Aleister Crowley de Itália, porque suspeitou que ele fosse um agente comunista

Em Março de 1920, mais encantado pela ideia de concretizar um sonho literário do que tornar-se guru de uma seita religiosa, Aleister Crowley, acompanhado pela companheira Leah Hirsig e por um punhado de amigos, ocupou uma propriedade campesina na comuna italiana de Cefalù, na província de Palermo, na Sicília, e estabeleceu nesse lugar a sua "Abadia de Thelema": espécie de retiro mágico-filosófico, inspirado na Abbaye de Thélème descrita por François Rabelais no Capítulo LVII do livro Gargantua (1534). Apesar de Aleister Crowley sempre se ter sentido atraído pela Itália, em virtude de muitos dos seus ídolos literários terem viajado para esse país, a mudança para Cefalù ocorreu numa etapa da sua vida em que ele quis emular o exemplo do pintor Paul Gauguin que, aos quarenta e três anos de idade, abandonou o emprego, a mulher e os filhos para ir pintar para a ilha do Taiti, na Polinésia Francesa. Quando se mudou para Cefalù, Crowley contava com quarenta e quatro anos de idade (só faria quarenta e cinco em Outubro) e identificava-se totalmente com o percurso de Gauguin, que até transformou em Santo no rito da sua Missa Gnóstica. Nessa ilha, à semelhança de Gauguin no Taiti - que baptizara a sua cabana, decorada com telas de cores vivas, com o nome de "Casa dos Prazeres Carnais" -, Crowley baptizou de "Cela das Putas" o aposento principal da "Abadia de Thelema" e decorou-o com pinturas murais de cores garridas. Por três anos, a rotina de Crowley e seu entourage em Cefalù foi paradisíaca, feita de passeios ao ar livre, mergulhos na praia, sessões de leitura e de meditação. Confundindo os "discípulos" que esperavam um guru tradicional, Aleister Crowley pediu-lhes que mantivessem um diário onde apontassem as suas experiências pessoais de forma a que, individualmente, construíssem o seu próprio percurso "mágico", porque a disciplina de Thelema, por ele criada, arrogava que cada indivíduo tinha um papel particular a desempenhar no mundo e que se cada um o realizasse em pleno nunca entraria em rota de colisão com ninguém: é isso que expressa o mote «Do What Thou Wilt» (também retirado da obra de Rabelais), mais a sentença «Every Man and Every Woman is a Star», redigida no inaugural The Book of the Law, que tem sido muitíssimo mal-interpretada como sendo um convite ao desregramento e egoísmo mais elementares e mesquinhos. Um desses discípulos gregários, Raoul Loveday, que também era o secretário de Crowley, adoeceu em Janeiro de 1923, depois de ter bebido água de uma bica durante um passeio que deu com a mulher, Betty May, pelas imediações de um convento que ficava perto da "Abadia de Thelema"; Crowley já avisara que era perigoso beber dessa bica e o resultado foi que Loveday morreu poucos dias depois, em Fevereiro, com uma fulminante infecção nos intestinos e no fígado: como não era católico, não o deixaram ser sepultado no cemitério e foi enterrado num terreno perto da "Abadia". A morte de Loveday é apontada em algumas fontes como tendo sido o motivo pelo qual Crowley foi expulso de Itália, mas a verdade foi bem diferente.
Pouco tempo depois, Aleister Crowley (acompanhado por Leah Hirsig e Norman Mudd, o novo secretário) foi chamado ao gabinete do comissário da polícia, em Palermo, que lhe deu uma semana para abandonar o país: a ordem de expulsão fora enviada pelo Ministério da Administração Interna e tinha como base a argumentação de que o deboche e a perversão sexual na "Abadia de Thelema" tinham de acabar imediatamente - uma desculpa totalmente esfarrapada, porque somente Crowley teve ordem de expulsão, o que deixaria os seus seguidores à vontade para continuarem com as supostas orgias. Os habitantes de Cefalù chegaram a escrever uma petição para que o Signore Crowley não fosse mandado embora, porque ele e os amigos eram boa gente e, sobretudo, bons para a economia local, posto que gastavam muito dinheiro, mas a iniciativa caiu em ouvidos moucos. A verdade sobre a expulsão de Crowley, como pode constatar-se pela leitura da sua pasta no Arquivo Central do Estado, em Roma - um ficheiro cheio de documentação espectacular sobre maçonaria e comunismo -, é que ele era suspeito de manter relações secretas e subversivas com Giovanni Antonio Colunna, político siciliano anti-fascista que Mussolini também expulsou - Colunna era amigo do cônsul inglês em Palermo, que era maçon - e ainda com um activista sérvio chamado Dimitrije Mitrinović, criador do movimento revolucionário New Europe que advogava uma utopia colectivista e anti-clerical.
As "ligações" entre Crowley e o comunismo, com efeito, não eram novas: quando foi editado em livro, The Book of the Law foi interpretado como sendo propaganda comunista, porque instigava à revolução violenta contra o estado das coisas e defendia que da revolução nasceria uma nova era. O próprio Crowley não ajudou ao esclarecimento, afirmando diversas vezes que The Book of the Law era, de facto, «um livro revolucionário» e que, em breve, a velha ordem seria substítuida por uma nova. Num período fortemente politizado, ninguém percebeu a linguagem alegórica de Crowley, que nunca teve a política em mente, e julgaram que se tratava de propaganda comunista disfarçada.
Acabou dessa forma o sonho da "Abadia de Thelema". Proibido de pôr os pés na Itália, Crowley escreveu vários poemas anti-Mussolini; contudo, inversamente às suspeitas deste, ele nunca foi comunista, nem sequer socialista. Mas, apesar disso, também desprezou fortemente os fascistas: antes de ser expulso de Itália já se referia a eles nos seus escritos como os «banditi».

2 - Inversamente à imagem que foi popularizada, Aleister Crowley nunca foi satanista

Aleister Crowley foi um magneto de controvérsia e a imprensa criou-lhe uma imagem exagerada de indivíduo perigoso e perverso. O jornal inglês John Bull, em especial, criou em 1923, na sequência dos "escândalos" perpetrados na "Abadia de Thelema", a mais colorida sequência de epítetos que Crowley teve: «Wizard of Wickedness» (17 de Março), «Wickedest Man in the World» (24 de Março), «King of Depravity» (11 de Abril) e «The Man we'd Like to Hang» (19 Maio). Quando Betty May abandonou a "Abadia", depois da morte do marido, vendeu ao jornal inglês The Sunday Express, por uma boa quantia de dinheiro, um relato difamatório e delirante, em primeira mão, sobre o sacrifício de um gato num ritual satânico na "Abadia", revelando que o marido tinha morrido por beber o sangue desse gato - mais tarde, arrependida, escreveu várias vezes a Crowley, pedindo-lhe desculpas, mas o mal já estava feito. A verdade é que Crowley nunca foi satânico, nem satanista, pese o facto de muitas correntes que professam estas orientações se dizerem inspiradas na sua figura - na realidade, inspiradas pela imagem "cartoonesca" de Crowley, criada pela imprensa.
No sistema mágico e filosófico de Crowley (Thelema) abundam as referências anti-cristãs e anti-clericais, mas Satanás nem sequer está representado de forma simbólica, quanto mais de maneira preponderante. A disciplina de Thelema faz-se de referências que extravasam completamente o espectro das fontes judaico-cristãs e nem de longe forma um corpo antagónico ao cristianismo por via inversa, como o satanismo teísta cifra. É preciso considerar que Aleister Crowley foi um caso paradigmático no ocultismo ocidental do século XX, em virtude da sua educação clássica e percurso de vida muitíssimo viajado: ele recuperou de fontes díspares ocidentais e orientais - a astrologia, a cabala, a magia enoquiana, os mitos egípcios, a alquimia, o I Ching, o budismo, o taoísmo, o yoga - aquilo que mais lhe interessou para criar uma nova filosofia "mágica", mas iniciática, que, pode dizer-se, começa com a escrita de The Book of the Law, mas foi sendo desenvolvida e modificada quase até ao final da sua vida, como se percebe pela publicação póstuma de Magick Without Tears, um livro muito mais luminoso e positivo que The Book of the Law. Às vezes, até se tem a impressão de que Crowley, na tónica que coloca no rigor científico - no método da experimentação empírica e da repetição de resultados -, numa abordagem racional e pragmática às práticas mágicas, se aproxima mais de um ponto de vista ateu ou agnóstico do que de um ponto de vista crente no sobrenatural. De facto, ele escreveu, diversas vezes, que se se fizer determinada acção (mágica) ocorrerá um determinado resultado (mágico), mas que esses fenómenos mágicos são fenómenos naturais: apenas ainda não se encontram explicados pela ciência. Afirma-o, entre outros textos, no Liber DCCCLX:
«I further take this opportunity of asserting my Atheism. I believe that all these phenomena are as explicable as the formation of hoar-frost or of glacier tables. I believe "Attainment" to be a simple supreme sane state of the human brain. I do not believe in miracles; I do not think that God could cause a monkey, clergyman, or rationalist to attain. I am taking all this trouble of the Record principally in hope that it will show exactly what mental and physical conditions precede, accompany, and follow "attainment" so that others may reproduce, through those conditions, that Result. I believe in the Law of Cause and Effect.» [Sublinhado meu.]
De qualquer das formas, na visão de Crowley, a magia não deve servir para alcançar objectivos imediatos, mas servir de caminho, de via iniciática, para alcançar-se um grau, um horizonte, mais elevado, mais nobre, que é o da transformação espiritual do indivíduo; transformação a que ele chamou, a dada altura, de «conversação com o Sagrado Anjo da Guarda»: um elemento mais evoluído que a carne e que está presente em todos os indivíduos. Ao longo da vida, Crowley foi desconstruindo o significado de «Sagrado Anjo da Guarda» e acabou por identificar o seu com a inteligência preternatural que lhe ditara o The Book of the Law, no Cairo, em 1904: a misteriosa presença que baptizou de Aiwass e que, para ele, não era nenhum espírito, mas uma inteligência extra-dimensional, à semelhança dos Chefes Secretos da Ordem Hermética da Aurora Dourada ou os Mahatmas da Teosofia de via blavatskyana.
O facto de Aleister Crowley se ter intitulado "Besta 666" nada tem a ver com adoração pelo Diabo, porque ele bem sabia que o número 666 nada tem a ver com Satanás ou com satanismo, mas que significa, na cabala, "Espírito do Sol". No livro bíblico Apocalipse (nome que apenas significa «revelação do que está oculto»), é referido que «o número da Besta é o número de um homem e esse número é 666», porque, de facto, esse é mesmo o número do Homem, já que este foi criado por Deus no Sexto Dia da Criação, como pode ler-se no Génesis. As interpretações erróneas que colam este número ao satanismo são completamente espúrias e nada têm a ver com o significado original dessa referência. A prova de que Crowley sabia muito bem destas relações autênticas (ao contrário dos seus epígonos contemporâneos) é que numa sessão de um processo judicial que moveu contra Nina Hamnett por difamação, respondeu desta maneira ao procurador que lhe perguntou qual era o significado do nome"Besta 666": «Significa apenas Luz do Sol. Pode chamar-me Pequeno Raio de Sol».

3 - Aleister Crowley foi fortemente anti-clerical, mas a sua ideia do nascimento do Novo Éon está impregnada de Joaquinismo

No início do século XIII, já a reforma de Císter ia a meio-gás, o movimento milenarista medieval reforça-se inesperadamente com o desenvolvimento do Joaquinismo: corrente criada em volta das ideias do frade cisterciense calabrês Joaquim de Fiore, falecido em 1202 (a Calábria é a biqueira da "bota" italiana e nessa altura fazia parte do reino da Sicília). Em essência, o modelo milenarista joaquimita consiste numa visão macro-histórica das origens e destino da humanidade, formada por Três Idades, à semelhança da Santíssima Trindade: a pretérita Idade do Pai (os eventos narrados no Antigo Testamento), a presente Idade do Filho (os eventos narrados no Novo Testamento e a Era da Igreja) e a vindoura Idade do Espírito Santo (um período emergente de profunda contemplação espiritual, perfeição e paz). Joaquim de Fiore criou esta doutrina através do estudo do livro Apocalipse e calculou que a Idade do Espírito Santo despontaria em 1260. Três anos depois dessa data, no Sínodo de Arles, o Papa Alexandre IV condenou o Joaquinismo como sendo uma perigosa heresia. Por que é que uma Idade do Espírito Santo, plena de profunda contemplação, perfeição e paz, consistia numa perigosa heresia? Embora a profunda contemplação, a perfeição e a paz joaquimitas fossem conceitos com os quais, em princípio, a Igreja não teria grandes dificuldades em lidar, Joaquim de Fiore também profetizou que a Idade do Espírito Santo traria o desmantelamento definitivo de todas as estruturas eclesiásticas - e isso é que a Igreja não podia tolerar; daí a condenação tout court do Joaquinismo (na verdade, o Papa Inocêncio III já o tinha condenado, mas apenas em parte, em 1215, no IV Concílio de Latrão). Independentemente disso, o Joaquinismo fez furor entre os franciscanos, que sempre foram, de certa forma, bastante anti-institucionais e, ao longo dos séculos vindouros, o milenarismo joaquimita provou ser um poderoso algoritmo, capaz de adaptar-se e dar sentido a um florilégio estonteante de ideias milenaristas de várias proveniências. Entre elas, o milenarismo crowleyano.
Não reste dúvidas que a narrativa apocalíptica de The Book of the Law (até este título é o mesmo nome que os judeus dão ao Pentateuco) é, em essência, uma nova versão do velho ideal milenarista, apocalíptico - em maior espessura, do milenarismo de recorte joaquimita. Na visão milenarista de Aleister Crowley, desenvolvida em The Book of the Law, pedra basilar do edifício de Thelema, as Três Idades são as seguintes: a Idade da Mãe (uma idade que simboliza uma hipotética madrugada histórica matriarcal, cujo narradora é Nuit, a deusa egípcia da Noite), a Idade do Pai (a idade das religiões patriarcais e monoteístas, cujo narrador é Hadit, noivo de Nuit) e a Idade do Filho (o Novo Éon, o início de uma nova idade cósmica, narrada por Ra-Hoor-Khuit, jovem deus rebelde e vingativo, identificado com Harpocrates: o deus grego do silêncio, baseado nas representações infantes do deus egípcio Hórus, o Sol recém-nascido). Assim, pode também dizer-se que Nuit é identificada com Ísis e Hadit com Osíris. Neste modelo milenarista contemporâneo, sincrético, a energia iconoclasta e indomável da juventude, representada pela Idade do Filho, combate com violência o poder institucional e autoritário, mas decadente, moribundo, da Idade do Pai. É, de facto, uma narrativa "revolucionária" que instiga uma mudança violenta contra o estado das coisas - daí, na altura, ter sido entendida como propaganda radical de esquerda. Para Crowley, o advento do Novo Éon, do qual ele se apresentou como profeta, na mesma linha dos profetas veterotestamentários e de Cristo, seria uma ruptura violenta acompanhada de terramotos e guerras. Quando os efeitos catastróficos se dissipassem, instalar-se-ia, como esperado e costumeiro nas ideias milenaristas, a iluminação (thelemita) num período solar de progressão espiritual.

4 - Aleister Crowley "democratizou" as práticas mágicas

No ínicio do século XX, Aleister Crowley quebrou laços com a Ordem Hermética da Aurora Dourada, na qual tinha sido iniciado poucos anos antes. Ele entrou para essa ordem numa altura em que ela estava a ser dividida internamente por culpa de um conflito pela liderança e essa conjuntura atribulada não foi de maneira nenhuma conveniente à sua integração. À parte disso, Crowley hostilizou-se rapidamente, a um nível pessoal, com alguns membros ilustres; entre os quais o poeta William Butler Yeats e o ocultista Arthur Edward Waite, co-criador do baralho de Tarot de Rider-Waite e tradutor para inglês das obras de Eliphas Levi. Em determinado momento, Crowley pôs-se do lado do líder da ordem, Samuel Liddell MacGregor Mathers, na batalha intestina pelo poder, mas não tardou a hostilizar-se com ele e, a partir daí, a saída da ordem tornou-se inevitável. No término de um período subsequente em que se dedicou ao alpinismo (liderou expedições pioneiras às montanhas Kangchenjunga, nos Himalaias, e Chogo-Ri, entre o Paquistão e a China), a viajar pelo Oriente, pelo Egipto e pelo México (onde também fez alpinismo), Crowley voltou a Londres e, a partir de 1907, com a colaboração dos amigos George Cecil Jones (outro dissidente da Ordem Hermética da Aurora Dourada) e John Frederick Charles Fuller, começou a desenvolver a sua própria fraternidade mágica/iniciática: a thelémica Argenteum Astrum (ou, simplesmente, A∴A∴), cujo lema era «The Method of Science, the Aim of Religion». Em pouco tempo, foi criado o órgão oficial de divulgação da ordem, intitulado The Equinox: uma revista corpulenta, bianual, repleta de artigos e ensaios sobre temas esotéricos. O primeiro número foi editado na Primavera de 1909 (o segundo número foi publicado, como é evidente, no Outono - daí o nome da revista). Certamente por despeito para com McGregor Mathers, The Equinox publicou bastante material referente à Ordem Hermética da Aurora Dourada, tornando público um vasto conjunto de referências que, até essa data, era coutada exclusiva dessa sociedade secreta. Na verdade, depois da Primeira Grande Guerra, numa estratégia de escapismo, a Europa devastada virou-se para o oculto e para o fantástico na literatura, nas artes e na vida privada. Toda a gente quis namorar com o oculto e a revista The Equinox foi, nesse aspecto, fundamental, porque havia popularizado, uns anos antes, todo um conjunto de temas e matérias-primas que, já embebidos no caldo cultural, foram instrumentalizados e transformados: a magia e as iniciações deixaram de ser algo mais ou menos aristocrático para, bem ou mal, serem adoptadas pelas massas. Após a Segunda Grande Guerra, o mesmo fenómeno escapista de procura pelo oculto, pelo fabuloso e pelo espiritual fortaleceu-se ainda mais e cristalizou, em definitivo, um pouco por todo o lado, durante o período psicadélico dos Anos 60 e o advento da chamada New Age. Sem a publicação seminal de The Equinox e as restantes obras de Crowley é provável que nada disto tivesse acontecido ou, então, que tivesse acontecido mais lentamente, de forma irregular.

5 - O maior elo de ligação entre Aleister Crowley e Fernando Pessoa foi a paixão pela pseudonímia

Surpreendentemente, Fernando Pessoa e Aleister Crowley tinham bastantes coisas em comum: ambos foram criaturas moldadas por um rigído sistema educacional britânico, sob o qual era mal visto os rapazes demonstrarem as suas emoções (um sistema que fez Crowley explodir e Pessoa implodir); e ambos partilharam o mesmo sentido de humor truculento, o interesse pelas letras e pelo oculto. Para Fernando Pessoa, a iniciação era «uma admissão à conversação com os anjos» e a poesia o canal que conduzia a essa iniciação; tal como para Aleister Crowley o canal para a conversação com o Sagrado Anjo da Guarda era a magia. Mas a maior afinidade entre eles foi, certamente, a paixão pela pseudonímia: Fernando Pessoa criou dezenas de «heterónimos», personagens literárias com biografias, personalidades e estilos autorais distintos, com as quais assinava a maioria dos seus escritos; e Aleister Crowley criou dezenas de pseudónimos para assinar os artigos e ensaios que publicou em The Equinox e diversas personagens com as quais escrevia sobre si próprio nos seus livros. Já em criança, Fernando Pessoa criava personalidades fictícias para assinar pequenos versos, composições ou, simplesmente, para vestir essas peles em brincadeiras com os irmãos: Chevalier de Pas, Capitão Thibeaut, Quebranto Oessus ou Adolph Moscow são algumas das personagens da infância pessoana. Já em adulto, em Lisboa, Fernando Pessoa iria assumir uma espécie de metempsicose zoomórfica através da figura do Íbis: ave pernalta que na mitologia egípcia é avatar do Deus Toth, o criador da escrita e da magia. Durante algum tempo, quando saía com a família, costumava parar de repente na rua para assumir a postura do Íbis, recolhendo uma perna e encostando o dedo ao nariz, para enorme embaraço de quem o acompanhava - era uma pantomima quasi-ritualística, à guisa de santo-e-senha de sociedade secreta. Aleister Crowley tinha, também, uma brincadeira de rua com a qual espantava os amigos e que consistia em seguir um indivíduo escolhido aleatoriamente e imitar-lhe na perfeição os movimentos; quando atingia essa sincronia, simulava uma queda, de repente, e divertia-se imenso a ver o fulano a desequilibrar-se, em grande confusão, sem perceber que força misteriosa o tinha feito tropeçar. Com todas estas afinidades é espantoso que Fernando Pessoa e Aleister Crowley não tenham ficado mais amigos, aquando do encontro de ambos na Lisboa de 1930. É que apesar das semelhanças, existia uma enorme diferença: Crowley era um homem do mundo, um viajante, um extrovertido; Pessoa era um cidadão do imaginário e só viajava por algumas ruas da Baixa Pombalina. Nem Pessoa seria capaz de acompanhar Crowley, nem Crowley seria capaz de ficar quieto para fazer companhia a Pessoa. Vejam bem como uma única diferença pode escavar um fosso tão grande entre duas almas tão parecidas.

6 - Fernando Pessoa era vaidoso e vendia livros velhos para comprar roupas novas

A imagem de um Fernando Pessoa farroupilha, divulgada em grande medida pela popular biografia escrita pelo seu amigo João Gaspar Simões, é romântica, mas não corresponde à realidade. É verdade que Fernando Pessoa passou muitas vezes por dificuldades económicas e que acumulou dívidas de grandeza considerável, mas, felizmente, nunca se viu numa situação de miséria. De facto, nos períodos de maior aflição financeira, não teve pudores em vender livros já lidos, de modo a reunir algum dinheiro: grande parte gasto na compra de roupas novas e acessórios diversos nas mais requintadas casas de Lisboa, como a Camisaria Pitta. Os depoimentos de familiares e amigos são unânimes em esclarecer que Fernando Pessoa «andava sempre bem arranjado», «sempre de camisa muito bem engomada» e que «gostava de vestir com um certo rigor». Ele foi aquilo que na gíria da altura se chamava um "janota", mas ser um janota não era nada barato e sabe-se que Fernando Pessoa até teve uma conta muito esticada num dos mais conceituados alfaiates da cidade, a casa Lourenço & Santos, Lda. Aliás, é o próprio Fernando Pessoa que nos revela, às tantas - com humor -, a sua vaidade, numa passagem que deixou no diário, na entrada escrita a 30 de Novembro de 1915: «À noite fiquei satisfeito por ouvir duas referências diferentes (do Côrtes-Rodrigues e do Perdigão) ao facto de eu estar bem vestido (Oh! Eu!)». Acrescente-se nesta altura que, em Março de 1935, Fernando Pessoa recebeu a quantia de 5000$00 pelo prémio literário Antero de Quental, atribuído pelo Secretariado de Propaganda Nacional e concedido à sua obra Mensagem, publicada no ano anterior a 1 de Dezembro. Ora, oito meses depois de receber esse dinheiro, Fernando Pessoa viria a falecer no Hospital São Luís dos Franceses, no Bairro Alto (provavelmente de pancreatite). Seria reconfortante pensarmos, nós que somos seus admiradores, que Fernando Pessoa viveu os seus últimos meses num justíssimo desafogo que nunca conhecera, mas o facto de ele ter morrido sem deixar dívidas demonstra que gastou grande parte do prémio a saldá-las.

7 - Fernando Pessoa foi um inventor amador

Uma das actividades mais ignoradas pelo público a que Fernando Pessoa se dedicou foi a de inventar novidades - algumas surpreendentes - que pretendia patentear e comercializar. A maioria desses inventos, como os inventos de Da Vinci, nunca saíu do papel, mas entre eles contam-se, por exemplo, um projecto para um novíssimo tipo de carreto para máquinas de escrever, uma inovadora pasta para guardar documentos, um inédito anuário comercial, o Anuário Sintético, nova versão de umas Páginas-Amarelas, e até interessantes jogos temáticos de mesa, sobre futebol, críquete e, ainda, astrologia. Porém, um dos inventos que mais galvanizou Fernando Pessoa foi uma espécie de "carta-sobrescrito" que, segundo suas palavras, seria «a morte do envelope». Após várias experiências, chegou a um feitio que o satisfez e que descreveu com minúcia para efeito de registo de patente (que, provavelmente, nunca pediu). Consistia numa folha de papel dividida em seis partes: na primeira, escrever-se-ia o endereço do destinatário da carta; na segunda, o do remetente; e as restantes partes destinar-se-iam à escrita da mensagem. Esta "carta-envelope" inventada por Fernando Pessoa prefigura, de modo estupendo, o célebre aérogramme (aerograma) que seria comercializado poucos anos depois. Com um bordo gomado que, dobrado e colado, permite salvaguardar de olhos alheios aquilo que nele for escrito, o aerograma é uma única folha - carta e envelope, em simultâneo - que, como o nome indica, se envia por correio-aéreo. Foi desenvolvido pelos exércitos, durante a Segunda Grande Guerra, mas, em seguida, popularizou-se com êxito pela sociedade civil. Se Fernando Pessoa tivesse patenteado o seu invento da "carta-envelope", seria conhecido hoje, justamente, como poeta e como inventor - como inventor do aerograma, pelo menos. Então e o seu futebol de mesa?... Segundo a versão oficial, o futebol de mesa (os matraquilhos) foi inventado em 1921 pelo inglês Harold Searles Thornton, mas, na verdade, os nobres europeus já jogavam uma espécie de futebol de mesa nos salões dos seus palácios, desde meados do século XVIII (numa das salas do Convento de Mafra pode ver-se uma dessas mesas setecentistas de matraquilhos, com intrigantes figuras esculpidas em madeira), logo não podemos atribuir esta invenção a Fernando Pessoa, como lhe poderíamos facilmente atribuir a do aerograma. Compreendam que um homem, por mais genial que seja, não pode estar sempre à frente do seu tempo.

8 - Foi o slogan criado por Fernando Pessoa para publicitar a Coca-Cola que fez com que esta bebida fosse proibida em Portugal

Em 1925, o empresário Manuel Martins da Hora fundou a Empresa Nacional de Publicidade (a primeira agência de publicidade portuguesa), com a colaboração de Fernando Pessoa (segundo as suas palavras até foi Pessoa «a tratar disso» - calcula-se que se referia à "papelada") e com capital social da parceira norte-americana General Motors, mas o empreendimento com a empresa automobilística não arrancou e, seguidamente, fundando uma nova parceria, Martins da Hora tornou-se o representante português da agência internacional de publicidade John Walter Thompson (JWT), mantendo Fernando Pessoa como colaborador (uma colaboração que durou até Setembro de 1935). Por alturas de 1928, Carlos Eugénio Moitinho de Almeida, que também era patrão de Fernando Pessoa, tornou-se o agente português da marca Coca-Cola (conta da JWT) e o poeta foi incumbido de criar a propaganda comercial do refrigerante. Para o efeito, inventou o slogan «Primeiro, estranha-se. Depois, entranha-se». Porém, o médico e professor Ricardo Jorge, na altura Director de Saúde de Lisboa, não apreciou a truculência de Fernando Pessoa, que considerou ser uma descrição fidelíssima do modo insidioso como o organismo se viciava em drogas - primeiro estranhava-as, depois ganhava-lhes habituação: em suma, o slogan pessoano expressava«a toxicidade do produto», derivada do infame composto de coca. Por ter-se alarmado com o slogan inventado por Fernando Pessoa, Ricardo Jorge confiscou o produto e mandou-o atirar ao mar, proibindo taxativamente a introdução da Coca-Cola no mercado português. Somente quarenta e nove anos depois, em 1977, é que essa bebida começou a ser comercializada em Portugal - já com o malquisto slogan de Fernando Pessoa completamente esquecido.

9 - O livro Mensagem foi mal recebido pela Esquerda e pela Direita

A publicação do livro de poesia Mensagem, a 1 de Dezembro de 1934, vencedor do prémio Antero de Quental, atribuído pelo Secretariado de Propaganda Nacional, confundiu negativamente os admiradores de Fernando Pessoa e, também, os Situacionistas: estes, por seu lado, não gostaram do "nacionalismo místico" - esquisito - do livro, completamente apartado de substrato e referências políticas, tanto directas como indirectas, achando-o uma fantasia sem pés nem cabeça; e os outros não gostaram que Fernando Pessoa se estreasse em livro com um texto que, a seus olhos, o cunhava como apenas mais um Situacionista (quando morreu, as notícias do óbito nos jornais foram unânimes em descrevê-lo como «grande poeta nacionalista») e, ainda por cima, que era desprovido da inventividade de forma e linguagem já demonstrada nos vários trabalhos assinados com os seus heterónimos. Embora Fernando Pessoa fosse um desconhecido para a generalidade do público e invisível para grande parte da crítica literária, tinha muitos admiradores entre escritores e artistas, que o respeitavam e, em certos casos, o olhavam como um mestre. Este conjunto de seguidores desgostou muitíssimo da obra Mensagem, na qual não reconheceu o vanguardismo tão apreciado na restante obra de Fernando Pessoa. O próprio sentiu-se embaraçado pelas reacções negativas e tentou explicar-se sem grande êxito diante dos amigos: Mensagem não tardou a cair no esquecimento. Todavia, mais tarde, o livro foi recuperado por um público e por uma crítica despoluídos de fantasmas de época e hoje é justamente celebrado, paralelamente a Os Lusíadas de Luís de Camões, às obras de Fernão Lopes, de D. João de Castro e de António Vieira, como sendo o livro que melhor representa, nas suas dimensões históricas e míticas, aquilo que é Portugal - nome que esteve quase para ser o seu título. Obra aparentemente simples, escrita ao longo de duas décadas (começou a ser escrita em 1913), esconde na sua estrutura e ritmos uma enorme complexidade temática e filosófica que demonstra toda a cultura e inteligência pessoanas.

10 - Existe um retrato a óleo de Fernando Pessoa para o qual ele, de facto, posou

Está exposto na Casa Fernando Pessoa, no bairro de Campo de Ourique, em Lisboa. É a imagem de Fernando Pessoa que podem ver reproduzida acima neste artigo: trata-se de um quadro a óleo, pintado em 1912 por Adolfo Rodriguez Castañé: artista do círculo de Almada Negreiros e Stuart de Carvalhais, que trabalhou como decorador e como ilustrador para publicidade. Também fez bandas desenhadas para o Pim-Pam-Pum! (suplemento do jornal O Século), colaborou com o Topa a Tudo e com a revista Seara Nova. Em 1912 e 1913, participou no primeiro e no segundo Salões de Humoristas de Lisboa. Pessoa foi seu amigo: encontraram-se muitas vezes nos cáfés de Lisboa que aquele costumava frequentar e também em casa de Almada Negreiros. Nasceu em Madrid, a 6 Fevereiro de 1887, mas veio aos cinco anos com os pais para Portugal: a mãe era soprano e o pai era arquitecto. Fernando Pessoa foi uma figura bastante caricaturada pelos seus amigos artistas, como Almada Negreiros e Alberto Cutileiro. Outro retrato de Fernando Pessoa feito por Castañé, mas caricatural, foi publicado, também em 1912, na primeira página do jornal República.

sábado, 3 de março de 2018

Alma Egípcia


A Alma Egípcia se refere ao conceito de alma da mitologia egípcia, onde é formada por cinco partes: Ka, Ba, Akh, Sheut e Ren. Durante a vida, achava-se que a alma, incluindo a dos animais e dos deuses, habitava um corpo (chamado de Ha (ḥˁ), que significa carne.

Egípcios entendiam Akh, Ba e Ka como aspectos imortais da alma. Ainda, mesmo que soe paradoxal, que esses conceito só poderiam sobreviver se o corpo do indivíduo fosse apropriadamente conservado. O Ba, por exemplo, não poderia retornar ao corpo se este estivesse podre e irreconhecível e conseqüentemente estaria condenado a perambular eternamente. Por isso a mumificação de cadáveres.

Ren (nome)
O nome da pessoa que lhe foi dado em seu nascimento e viveria enquanto fosse pronunciado, o que explica os esforços para protegê-lo, colocando-o em vários escritos. Por exemplo, parte do Greco-Romano Book of Breathings, um descendente do Livro dos Mortos, era para assegurar a sobrevivência do nome. Um cartucho(corda mágica) era freqüentemente utilizada para cercar o nome e protegê-lo pela eternidade. Reciprocamente, o nome dos inimigos do estado mortos, como Akenaton eram meticulosamente retirados dos monumentos.

Sheut (sombra)
A sombra da pessoa (šwt in Egyptian) estava sempre presente. Uma pessoa não poderia existir sem sua sombra, nem a sobra sem a pessoa. A sombra era representada como uma pequena figura humana pintada inteiramente de preto.

Ka (presença corporal/força vital)
O Ka (k3) era o conceito de "força vital", a diferença entre uma pessoa viva e um morto, a morte ocorria quando o "Ka" deixava o corpo. Entendia-se que o KA era criado por Chnum numa roda de oleiro, ou passada para a criança através do sêmen de seu pai.

Os egípcios também acreditavam que o "Ka" era mantido através de alimentos e bebidas. Por esta razão eram ofertadas comida e bebida aos mortos, contudo era o kau (k3w) dentro dos alimentos (também conhecido como kau) que era consumido e não seu aspecto físico. O ka era freqüentemente representada na iconografia egípcia como uma segunda imagem do indivíduo, os trabalhos pioneiros tentaram traduzir ka como duplo.

Julian Jaynes em seu trabalho teórico "The Origin of Consciousness in the Breakdown of the Bicameral Mind" sugestiona que o "ka" originalmente era uma voz divina alucinada similar a aquela experimentadas na esquizofrenia. De acordo com sua teoria, a maior parte das pessoas não estava inteiramente consciente no início do período antigo, e por isso sua teoria é considerada como "conversa fiada" pela vertente principal.

Ba (alma/personalidade)
O Ba (b3) é em algumas considerações o mais próximo do conceito Ocidental de alma, mas também é tudo que faz um indivíduo único, similar a noção de personalidade(neste sentido´objetos inanimados também poderiam ter Ba, caracteres únicos, e, de fato, as pirâmides do antigo reino eram freqüentemente chamadas do Ba de seu possuidor). Como a alma, o ba é a parte da pessoa que vive após a morte e as vezes é representada como um pássaro com cabeça humana voando para fora da tumba para se unir ao ka na pós-vida.

Como os humanos, divindades também poderiam ter bas, mas no caso dos seres divinos, isto era mormente associado com sua impressão, poder e reputação. Quando um deus intervinha nos assuntos humanos era dito que o bau (plural de ba) estava trabalhando [Borghouts, 1982]. Assim considerado o soberano era encarado como um ba do deus, ou um deus era acreditado como sendo o ba de outro.

Akh
O Akh (significando iluminador), foi um conceito que variou ao longo da história da crença egípcia. Era, ao início, unificação entre Ka e Ba, que se uniam após a morte do corpo físico. Neste sendo era uma espécie de Fantasma. O Akh era então parte do Akh-Akh, a panóplia de Aks de outras pessoas, deuses e animais. Nesse sistema era o aspecto da pessoa que iria unir-se aos deuses no outro mundo sendo imortal e imutável.

Em crenças de períodos mais avançados, considerou-se que o Ka se fundisse ao Akh e o Ba após a morte, em vez de se unir com o Ba para se tornar o Akh. Nesse estágop acreditava-se que o Akh passa algum tempo habitando o outro mundo antes de retornar e ser reencarnado como Ka, ganhando um novo Ba.

A separação do Akh/ unificação do KA e do Ba era criada depois da morte, pela entrega de oferendas apropriadas e conhecimento do feitiço eficaz, mas sempre haveria o risco de morrer novamente. A literatura funerária egípcia (como o Coffin Texts e o Livro dos Mortos) tinha a intenção de auxiliar o morto a "não morrer pela segunda vez" e se tornar um Akh.

Referências
Allen, James Paul. 2001. "Ba". In The Oxford Encyclopedia of Ancient Egypt, edited by Donald Bruce Redford. Vol. 1 of 3 vols. Oxford, New York, and Cairo: Oxford University Press and The American University in Cairo Press. 161–162.
Borghouts, Joris Frans. 1982. "Divine Intervention in Ancient Egypt and Its Manifestation (b3w)". In Gleanings from Deir el-Medîna, edited by Robert Johannes Demarée and Jacobus Johannes Janssen. Egyptologische Uitgaven 1. Leiden: Nederlands Instituut voor het Nabije Oosten. 1–70.
Friedman, Florence Margaret Dunn. 1981. On the Meaning of Akh (3ḫ) in Egyptian Mortuary Texts. Doctoral dissertation; Waltham: Brandeis University, Department of Classical and Oriental Studies.
———. 2001. "Akh". In The Oxford Encyclopedia of Ancient Egypt, edited by Donald Bruce Redford. Vol. 1 of 3 vols. Oxford, New York, and Cairo: Oxford University Press and The American University in Cairo Press. 47–48.
James, Julian. 1976. The Origin of Conciousness in the Breakdown of the Bicameral Mind, Princeton University.
Žabkar, Louis Vico. 1968. A Study of the Ba Concept in Ancient Egyptian Texts. Studies in Ancient Oriental Civilization 34. Chicago: University of Chicago Press

Noite de Pan


A Noite de Pan, ou N.O.X., é um estado místico que representa o estágio da "aniquilação do ego" no processo de consecução espiritual. O alegre e luxurioso Pan é o deus grego da natureza, luxúria, e poder gerador masculino. A palavra grega Pan também pode ser traduzida como Tudo, e desta forma é "um símbolo do Universal, uma personificação da Natureza; Pangenetor, "progenitor de tudo", e Panphage, "devorador de tudo" (Sabazius, 1995). Deste modo, Pan é tanto o doador como o tomador da vida, e sua Noite é aquela hora da morte simbólica onde o adepto experiência a unificação com o Tudo através da destruição arrebatadora de seu próprio ego. Num sentido mais geral, é o estado onde ele transcende todas as limitações e experiência a união com o universo.


Cidade das Pirâmides

No sistema de consecução da A.'.A.'., após o Adepto ter atingido o Conhecimento e Conversação com seu Sagrado Anjo Guardião, ele deve então atravessar o grande Abismo, onde encara Choronzon, que irá tentá-lo a manter-se sob seu eu subjetivo e tornar-se aprisionado em seu mundo de ilusão. Para escapar do Abismo, o adepto abre mão de seu senso mais profundo de identidade terrena, no gesto simbólico de derramar seu sangue na Taça de Babalon. O adepto então torna-se um Bebê no Útero de Babalon impregnado por Pan e seu eu sem vida torna-se como uma pilha de pó, descansando na Cidade das Pirâmides, que repousa sob a Noite de Pan. Essa é a razão para que fosse chamada de Noite - ela representa o Útero sem luz, e também o tempo antes do amanhecer do novo Sol (ou particularmente, o novo Eu). O adepto então aguarda em seu estado sublime até que esteja pronto para o próximo passo, e tornar-se "nascido" novamente da Grande Mãe Babalon, fecundada por Pan.


Nos escritos de Crowley

Aleister Crowley identifica esse processo como de Amor. Ele explica nos Pequenos Ensaios em Direção à Verdade:

As operações realmente mágicas de Amor, são, portanto, os Transes, mais especialmente os de Entendimento; como terá sido bem percebido por esses que fizeram um cuidadoso estudo cabalístico da natureza de Binah. Pois Ela é uniforme como o Amor e como a Morte, o Grande Mar de onde toda Vida surge, e cujo útero negro tudo reabsorve. Ela resume, assim, em si mesma, o duplo processo da Fórmula de Amor sob Vontade; pois não é Pan o Todo-Criador no coração das Maravilhas à Noite, e não é "cabelo das árvores da Eternidade" d'Ela os filamentos de Divindade-que-Tudo-Devora "sob a Noite de Pã"?

É também descrito no texto místico Liber VII:

Ascende na flama da pira, Ó minha alma! Teu Deus é como o frio vazio do mais extremo céu, no qual tu irradias tua pequena luz.
Quando Tu me conheceres, Ó Deus vazio, minha chama expirará completamente em Teu grande N.O.X.
—Liber Liberi vel Lapdis Lazuli, II:39-40

Finalmente, Crowley escreve da Noite de Pan no seu Livros das Mentiras, no capítulo "Sabbath do Bode":

O! o coração de N.O.X., a Noite de Pan
PAN: Dualidade: Energia: Morte.
Morte: Geração: os mantenedores de O!
Gerar é morrer; morrer é gerar.
Lança a Semente no Campo da Noite.
Vida e Morte são dois nomes de A.
Mata a ti mesmo.
Nada disto basta por si só.

Em seu comentário sobre esse escrito, Crowley explica:

É explicado que esta tríade vive na Noite, a Noite de Pan, a qual é misticamente chamada N.O.X., e este O é identificado com o O nesta palavra. N é o símbolo da Morte no Tarô; e o X, ou Cruz, é o signo do Phallus. NOX soma 210, que simboliza a redução da dualidade à unidade e, portanto, à negatividade; conseqüentemente é um hieróglifo da Grande Obra.
A palavra Pan é então explicada, {Pi}, a letra de Marte, é um hieróglifo de dois pilares, e portanto sugere dualidade; A, por seu formato, é o pentagrama, energia; e N, pela sua atribuição com o Tarô, é morte. NOX é mais bem explicada posteriormente, e é mostrado que a Trindade final, O!, é mantida ou alimentada pelo processo de morte e geração, os quais são as leis do universo... Isto então é assegurado que a letra A final tem dois nomes ou fases, Vida e Morte.

Referências
Thelemapedia - Retirado em 14/09/2007 e.v.
Sabazius. (1995). Pan. Retrieved on Sept. 27, 2004.
Crowley, Aleister. (1979). The Confessions of Aleister Crowley. London;Boston : Routledge & Kegan Paul.
___. (1998). The Vision & the Voice : the Equinox, IV(2). York Beach, Me. : Samuel Weiser.
___. (1995). The Book of Lies. York Beach, Me. : S. Weiser

Sagrado Anjo Guardião


O Sagrado Anjo Guardião é a representação da sua mais verdadeira natureza divina. O termo é equivalente com o Gênio da Golden Dawn, o Augoeides de Iamblichus, o Atman do Hinduísmo e o Daemon do gnósticos.

No sistema de Magia, a simples e mais importante meta é conectar conscienciosamente com seu SAG, um processo chamado "Conhecimento e Conversação". Fazendo assim, o magista torna-se completamente consciente de sua própria Verdadeira Vontade. Para Aleister Crowley, esse evento era o mais importante e único para qualquer andepto:

Nunca se deve esquecer, por um momento sequer, que o trabalho central e essencial do Magista é a consecução do Conhecimento e Conversação do Sagrado Anjo Guardião. Uma vez que ele tenha alcançado isto ele tem, é claro, que deixar-se completamente nas mãos do Anjo a quem invariavelmente e inevitavelmente pode ser confiada a condução ao grande passo - o cruzamento do Abismo e a consecução do grau de Mestre do Templo. (Magick Without Tears, Ch.83)

A Sagrada Magia de Abramelin, o Mago

Crowley tomou conhecimento de um livro entitulado The Sacred Magic of Abramelin the Mage de George Cecil Jones, um membro da Golden Dawn.

"O aspirante tem que ter uma casa protegida de observação e intromissão. Nesta casa deve haver um oratório com uma janela para o Leste, e uma porta para o Norte que abre em um terraço ao término de qual deve ser uma loja. Ele tem que ter um Robe, Coroa, Vara, Altar, Incenso, Óleo de Unção e um Lamen Prateado. O terraço e a loja devem ser comberta com areia de qualidade. Ele se retira gradualmente do intercurso humano para se devotar cada vez mais à oração no espaço de quatro meses. Ele então tem que se ocupar de dois meses em oração quase contínua, enquanto vai falando o menos possível com qualquer pessoa. Ao término deste período ele invoca um ser descrito como o Sagradado Anjo Guardião que aparece a ele (ou a uma criança usada por ele), e que escreverá em orvalho no Lamen que está no Altar. O Oratório não está cheio com Divine Perfume que o aspirante está acendendo."
"Depois de um período de comunhão com o Anjo, ele cita os Quatro Grandes Príncipes do Mundo de Demoníaco, e os força a jurar obediência."
"No dia seguinte ele chama a sua frente e subjuga os Oito Sub-Príncipes; e no dia seguinte, os demais Espíritos que servem a estes. Este Demônios inferiores, dos quais quatro agem como espíritos familiares, então operam uma coleção de talismãs para vários propósitos. esse é um breve relato da Operação descrita no livro."

Esse livro claramente teve um poderoso impacto em Corwley, que adotou seus conceitos gerais e aplicou-os em seus próprio sistema desenvolvido na A.'.A.'.. Além do mais, ele tentou de verdade o processo completo como descrito no livro do qual resultou na sua aquisição de Boleskine House e na Operação de Abramelin.

Outros nomes

Todas as culturas em toda parte do mundo o conhecem. Todas, as suas maneiras ,o buscam. Existem tantas definições para Ele quanto existem mentes no planeta.

Adonai, Adi - Buddha, Al-Haqq, Allah, Asar Un-nefer, Atman, Augoedies, Chrestos, Cristo, Gênio, Grande Mestre, Ishvara, Jechidah, Kia, Logos, Ori, Sagrado Anjo Guardião, Self, Sol, Vishnu... Deus.


Opiniões sobre SAG

Karl Gemer
Segue-se aqui uma carta de Karl Germer, 8º=3° A.·. A.·. afim de ilustrar o assunto, enviada a outra iniciada da Ordem, Jane Wolf em Janeiro de 1951:

"Com base em minha experiência estou certo que atingi Tiphareth em Janeiro de 1927. E foi uma grande experiência... porém, os anos que se seguiram, revelaram algumas surpresas - que eu chamarei ' manifestações' - Eu nunca obtive essas mensagens do Sagrado Anjo Guardião. Foi somente em 1946, talvez 45, que eu fui tomado pela mão e forçado, contra a minha vontade, a agir de determinadas maneiras que, posteriormente, provaram-se extremamente benéficas para mim. Isso levou-me a trocar correspondências com Aleister Crowley num assunto que ultrapassava minha compreensão.
O erro que todos nós parecemos cometer quando ouvimos falar desse S.A.G. e outras histórias sobre esse assunto, eu acho, é esperar algo do tipo ouvir vozes ou ter a visão de outro companheiro, ou de sua Majestade o S.A.G. como algo semelhante ao que ocorre neste plano. Logo após minha experiência em 1927, quando meu S.A.G. avisou-me que eu não tinha noção do que ele estava falando à minha alma, eu fui informado que, para entender Sua linguagem, teria que haver uma adaptação à este plano. Em outras palavras, um não tem que atravessar planos existenciais para comunicar-se com o outro. Eu não segui esse conselho - por teimosia, auxiliada, provavelmente, por uma típica natureza terrestre.
Aleister Crowley deu-me alguns exemplos práticos das intervenções do S.A.G. Uma em 1946, quando a agulha de sua seringa quebrou e estava sozinho em Netherwood, quando um homem chegou, no meio de uma tempestade de neve, sem causa aparente, em sua casa a uma milha ou duas de distância e encontrou-o prostrado ; então telefonou a um médico que logo chegou e o salvou. Se atrasa-se vinte e cinco minutos, estaria morto. Esses são casos especiais. O que nós temos que aprender, é ouvir a sua voz nas coisas mais comuns das nossas vidas.
...Uma vez que você trabalha o universo em altos planos, as ações e poderes do S.A.G. manifestam-se em outros naturalmente.
...Práticas intensas e invocações capacitam a alma a reagir e compreender a linguagem do S.A.G. mais limpa e claramente.
Isso deveria, talvez, ser adicionado aos comentários anteriores. Estou certo de que as realizações totalmente conscientes de Aleister Crowley revelaram aos poucos esse problema. Seus diários mostram que seu S.A.G. freqüentemente comunicava-se mais claramente através de mulheres como Ouarda a Vidente (Rose Kelly), Mary d'Este... e por outros meios. Ele insistia em interrogar o mensageiro com toda força analítica de sua brilhante mente, tanto que, as pessoas que tentavam convencê-lo de certas coisas muito importantes, não ficavam á vontade e partiam.
Todos nós devemos nos fortalecer nesse conceito, não sucumbindo ao desespero, mas aprender como melhorar nossa condição.
Se você soubesse como 666 procurou, muitas vezes às cegas, pela luz e não só ele, todos nós! O melhor que podemos fazer é pegar um único raio de luz entre os bilhões e trilhões que nos são enviados pelo Sol, generosamente, sem discriminação. Nós podemos pegar um em particular que mais se ajusta a nossa natureza, como um indivíduo. O raio que pegamos é diferente do seguinte. O de Van Gogh foi diferente do de Gauguin e assim por diante. Não desista! Você não deve sentir-se inferior a ninguém! Tem o amor de todos, respeito e admiração! Você está insatisfeita consigo mesma! É o tipo de sensação que precede um nascimento. Pergunte a qualquer artista, estadista ou até a um empresário quando uma grande decisão está para ser tomada... estou sendo cuidadoso em responder suas dúvidas e incertezas. A razão disso, é que eu mesmo tive meditando nesse problema por mais de vinte anos. Eu perguntava a Aleister Crowley várias vezes, porém, eu não entendia suas respostas; você deve compreender o assunto intensamente; cada um deve ' buscar no horror das florestas' por si só; a solução chega ao fim de todas as aspirações, ou das lutas travadas... "

Marcelo Motta
Em seu livro Ataque e Defesa Astral, Marcelo Motta explica:


"É fato que uma das formas do "Conhecimento e Conversação do Sagrado Anjo Guardião" ocorre no plano relacionado ao Corpo de Desejos, e que uma forma simbólica do "Anjo" pode então aparecer ao aspirante. Mas, como está escrito: "Conhece-los pelos seus frutos" a validade de qualquer experiência mística ou mágica está no efeito evolutivo que produz na personalidade da pessoa que obtém a experiência.
Pouco importa, do ponto de vista da humanidade (ou do ponto de vista do Universo), se o nosso arroubo espiritual foi lindo ou gostoso. O que importa é se foi ecológico. Os iniciados definem o avanço espiritual do ser humano como maior eficiência na promoção da harmonia universal.
Se o arroubo não traz benefícios ao universo em que você vive, a fórmula que o compõe não é a Amor, que pressupõe interação e comunicação, e sim, o Ódio, que pressupõe separação.
Visões ‘místicas’ ou mágicas de ‘santos ou santas’ ocorrem constantemente em todos os sistemas religiosos. Na nomenclatura dos iogues, tais visões são formas de Dhyana, que é a experiência mística que antecede Samadhi, a qual é a verdadeira experiência mística que o iogue aspira. Em Samadhi há perfeita identidade entre você e a experiência; portanto a manifestação de forma, ou de uma Entidade separada de você mesmo, é impossível. Como diz o Bagh-i-Muattar: ‘Alá é o ateísta, Ele não adora Alá’.
Os cristãos que experimentam visões de ‘Jesus Cristo’ ou da ‘Virgem Maria’, por exemplo, estão experimentando projeções do plano astral da intensidade de seu próprio desejo. Se ele se apega a tais visões, corre grande perigo de ser obcecado por entidade de uma baixa natureza. As incríveis perseguições religiosas dos cristãos uns contra os outros e contra membros de outros cultos, as espantosas crueldades da Inquisição romana e protestante, tiveram sua origem no apego por parte de crentes a visões deste tipo.
(...) Que se pode fazer num caso deste? Como podemos convencer uma alma simples de que o Jesus Cristo dos Evangelhos é apenas um símbolo do Adepto, ou de que a Virgem Universal é demasiado sublime para ser concentrada em uma simples forma humana. Principalmente quando sabemos que tanto o Cristo quanto a Virgem são arquétipos que existem em uma forma ou em outra, em todo e cada subconsciente humano.
Ainda como diz o Livro da Lei: ‘ Não sejas animal; refina teu êxtase!’
O iniciado só passa além da Visão do Anjo a uma verdadeira comunhão com ele quando percebe que é justamente a Visão que o separa d`Ele.
Qual iogue que alcançará Samadhi enquanto se sentir satisfeito com Dhyana.
É necessário tomar o máximo cuidado com visões astrais. O plano astral é infinitamente plástico: a substância que o compõe está sempre pronta assumir as formas do nosso desejo ou do nosso medo. Por este motivo, o Astral (como tudo mais neste mundo) é uma faca de dois gumes."

Sagrados Livros de Thelema


Os Sagrados Livros de Thelema são as obras de Aleister Crowley que o mesmo declara não serem de sua autoria, e que foram apenas redigidas por ele como escriba de uma inteligência superior; portanto, são considerados trabalhos inspirados.

O principal desses livros é o Livro da Lei, o único a ser transmitido a ele ditado por voz. Sobre todos os outros Crowley escreve no Confessions:

"O espírito veio em mim e eu escrevi vários livros de uma forma que dificilmente saberia como descrever. Eles não foram tomados de ditado, como o Livro da Lei, nem forem eles minha composição. Nem mesmo posso chamá-los de escrita automática. Só posso dizer que estava totalmente consciente no momento em que escrevia... Não posso duvidar que esses livros são trabalho de uma inteligência independente da minha."

Os Livros

Liber AL vel Legis é o texto fundamental para Thelema. É o único Livro Sagrado que Aleister Crowley declarou não ter parte na autoria. Sua primazia é indicada no capítulo III, verso 47:

This book shall be translated into all tongues: but always with the original in the writing of the Beast; for in the chance shape of the letters and their position to one another: in these are mysteries that no Beast shall divine.
[Este livro será traduzido em todas as línguas: mas sempre com o original na escrita da Besta; pois o casual formato das letras e suas posições com relação umas às outras: nestes existem mistérios que nenhuma Besta advinhará.]
Os textos remanescentes foram escritos entre os anos 1907 e 1911. Se acordo com Crowley, eles não foram muito bem "escritos" por ele, mas "através" dele e, portanto, são referidos como trabalhos inspirados.

História da Publicação

Alguns desses textos foram originalment epublicados por Crowley em 1909 sob o título de "ΘΕΛΗΜΑ". Em 1983 esses textos originais, junto com outros textos adicionais, foram publicados sob o novo título "The Holy Books of Thelema" pela Ordo Templi Orientis

Conteúdo Original do "ΘΕΛΗΜΑ"

Volume I

Liber LXI vel Causæ— Explica a verdadeira história e origem do movimento presente. Esse texto sendo de Classe D, não é tecnicamente um "Livro Sagrado", mas foi incluído no "ΘΕΛΗΜΑ" como uma Introdução, e por isso que está listado aqui.
Liber LXV: Liber Cordis Cincti Serpente — Um relato das relações do aspirante e seu Sagrado Anjo Guardião.
Volume II
Liber VII: Liber Liberi vel Lapidis Lazuli]— Estas são as Palavras de Nascimento de um Mestre do Templo. Seus 7 Capítulos referem-se aos 7 Planetas na seguinte ordem: Marte, Saturno, Júpiter, Sol, Mercúrio, Lua, Vênus.
Volume III
Liber XXVII: Sendo um livro de Trigramas das Mutações do Tao com o Yin e Yang. Um relato do processo Cósmico.
Liber CCXX, Liber AL vel Legis, O Livro de Lei — Dentro do canon da Sagrada Escritura Thelêmica, o principal é o Livro da Lei. É esperado que todo Thelemita interprete o livro por si mesmo, baseados nos comentários e outros escritos de Therion; mas são avisados de não promoverem suas interpretações a outros.
Liber DCCCXIII: Ararita — Um relato do Hexagrama e o método de reduzí-lo à Unidade e Além. Esse livro descreve em linguagem mágica um processo muito secreto da Iniciação.
Textos adicionas incluídos no Sagrados Livros de Thelema
Liber I: Liber B vel Magi— Um relato do grau de Magus, o maior grau que se é possível manifestar, de alguma forma, nesse plano.
Liber X: Liber Porta Lucis— Uma relato do envio de Mestre Therion pela A.'.A.'. e uma explicação da sua missão.
Liber LXVI: Liber Stellae Rubeae— Magia Sexual velada em simbolismo.
Liber XC: Liber Tzaddi vel Hamus Hermeticus — Um relato da Iniciação, e uma indicação a respeito daquelas que são apropriados ao mesmo.
Liber CLVI: Liber Cheth vel Vallum Abiegni — Magia Sexual velada em simbolismo.
Liber CCXXXI: Liber Arcanorum — Um relato do processo cósmico tal como é indicado pelos Trunfos do Tarot. A seqüência dos 22 Trunfos é explicada como uma fórmula da Iniciação.
Liber CCCLXX: Liber A'ash vel Capricorni Pneumatici — Analisa a natureza da força mágica criativa no homem, explica como despertá-la, como usá-la e indica os objetivos gerais, bem como os particulares a serem ganhados desse modo. Magia Sexual velada em simbolismo.
Liber CD: Liber Tau vel Kabbalae Trium Literarum — Uma interpretação gráfica do Tarot no plano de Iniciação.

Livros listados por classe

Classe A

Liber I: Liber B Vel Magi Sub Figurâ 1
Liber VII: Liber Liberi Vel Lapidus Lazuli, Adumbratio Kabbalæ Ægyptiorum Sub Figurâ VII
Liber X: Liber Porta Lucis Sub Figureâ X
Liber XXVII: Liber Trigrammaton Sub Figurâ XXVII
Liber LXV: Liber Cordis Cincti Serpente Sub Figurâ XXVII
Liber LXVI: Liber Stellæ Rubeæ Sub Figurâ LXVI
Liber XC: Liber Tzaddi Vel Hamus Hermeticus Sub Figurâ XC
Liber CLVI: Liber Cheth Vel Vallum Abiegni Sub Figurâ XC
Liber CCXX: Liber Al Vel Legis Sub Figurâ CCXX
Liber XXXI: Liber Al(Liber Legis), The Book of the Law
Liber CCXXXI: Liber Arcanorum ιων ATU ν TAHUTI Quas Vidit Asar In Amennti Sub Figurâ CCXXXI Liber Carcerorum ιων Qliphoth cum suis Geniis
Liber CCCLXX: Liber A'ash Vel Capricoroni Pneumatici Sub Figuræ CCCLXX
Liber CD: Libe Tau Vel Kabbalæ Trium Literarum Sub Figuræ CD
Liber DCCCXII: Vel Ararita Sub Figuræ DLXX

Classe A-B

Liber CCCCXVIII: Liber XXX Ærum Vel Saeculi, Sendo a Visão e a Voz dos Anjos dos trinta Aethyrs.
Liber CDXV: Opus Lutetianum (Trabalho de Paris)

Classe A-B

Liber DCCCCLXII: ΘΗΣΑΥΡΟΥ ΗΙΔΩΛΩΝ

Classe D

Liber LXI: Liber Causae

Notas sobre a Lista

Liber I originalmente era uma Classe B, mas foi mudados para Classe A em 1913.

Liber LXI was originally Class A, then changed to Class B, then changed to Class D.

Liber CCXX and Liber XXXI are essentially the same. The latter is the handwritten original, CCXX was transcribed from the original and was given the number 220 because it is composed of 220 verses.

Liber CCCCXVIII has instructions in Aethyr 8 and 18 which are to be regarded as Class D. As it is a diary, it more properly belongs in Class B, except for the parts that the Angels dictated. Parts which are not consistently and clearly demarcated.

Liber DCXV, more commonly known as The Paris Working is a magical diary. The Class A material is so intertwined that segregating them apart is extremely difficult.

Liber DCCCCLXIII is Class A for the introduction only. The rest of the text is Class B.

The Stèle of Revealing is not part of the Holy Books, despite it being a part of the Gnostic Mass (Liber XV) that is performed by Thelemites as part of their sacred rituals.

The Comment of Ankh F N Khonsu is sometimes considered to be part of Liber Al vel Legis. At other times, it is considered to be a different document. In either instance, it has been understood by some to mean that no discussion of any of the Holy Books may take place. The purpose of this comment is allow others to interpret Liber Al vel Legis for themselves; in other words, no one is to preach its contents or tell you their understanding of it is the one true understanding.

Verdadeira Vontade


Origens do termo

A frase Verdadeira Vontade não aparece no Livro da Lei. Não obstante, os vários comentários de Crowley no Livro habitualmente postulam que cada indivíduo tem uma Verdadeiro Vontade única e incomensurável que determina seu próprio curso na vida. Esta "invenção" de Crowley parece ser uma tentativa para explicar como algumas ações podem estar erradas (ou "falsas") quando "Não há lei além de Faze o que tu queres". (CCXX III:60) Ações que estão em conformidade com a Verdadeira Vontade são consideradas estarem corretas, enquanto ações intencionais que que divergem da Verdadeiro Vontade podem estar, não obstante, erradas.

Em geral, é suposto pelos Thelemitas contemporâneos que ninguém pode conhecer a Verdadeira Vontade de outro, mas no ensaio de Crowley "A Conferência Secreta" (escrito sob o pseudônimo de Gerald Aumont, e prefaciado no The Heart of the Master), ele sugere que uma técnica possa (realmente, deva) ser construída, pela qual a Verdadeira Vontade de um filho pode ser descoberta no nascimento, ou quanto antes possível em vida, para permitir a correta ordenação da sociedade. Especula-se que Crowley tenha um método astrológico em mente, embora subseqüentes desenvolvimentos históricos nos levam a considerar técnicas que envolvem genôma como o melhor candidato para a técnica hipotética.

No tratado de ética de Crowley, o "Dever", ele identificou a Verdadeira Vontade com a Natureza do indivíduo. Essa Natureza capitalizada pode ser comparada com a "Natureza Perfeita" dos primeiros systemas Gnósticos, que era um outro termo para daemonos pessoal ou augoeides, geralmente referenciado por Crowley como o Sagrado Anjo Guardião. (Para o uso do termo "Perfeita Naturaza", veja o "Man of Light in Iranian Sufism" de Corbin.)

"A Mensagem de Mestre Therion", (Liber II) é um documento seminal que tenta delinear a doutrina da Verdadeira Vontade. Através de referência ao "Liber Thisharb", Liber II insinua uma teoria de metempsicose, por meio da qual a Verdadeira Vontade individual é resultante das encarnações anteriores de uma pessoa.

No "De Lege Libellum" (Liber CL), Crowley define a Verdadeira Vontade como a vontade que não se conforma com as coisas parciais e transitórias, mas... procedem firmemente para ao Fim", e na mesma passagem ele identifica esse "Fim" como a destruição da si mesmo em Amor.


Citações de Aleister Crowley

"A causa mais comum de falha na vida é a ignorancia da própria Verdadeira Vontade, ou dos meios pelas quais se satisfaz essa Vontade." (do Magick, Livro 2, p. 127)
"Um homem que está fazendo sua Verdadeira Vontade tem a inércia do Universo para assistí-lo". (Magick, Livro 4, p.128)
"Não se pode fazer a Verdadeira Vontade inteligentemente a menos que se saiba o que ela é." (Magick, Livro 4, p.174)
"APRENDE firmemente, ó meu Filho, que a verdadeira Vontade não pode errar; pois é o teu Curso decretado nos Céus, em cuja Ordem é Perfeição." (from Liber Aleph, p. 13)
"a Verdadeira Vontade deve saltar, uma fonte de Luz, de dentro de nós, e fluir desimpedida, fervente de Amor, para o Oceano da Vida." (Pequenos Ensaios em Direção à Verdade, p.76)

Thelema prolongamento de 'thelo' (querer); uma determinação (a coisa propriamente), ou seja, (ativamente) escolha (especificamente, propósito, decreto; vontade abstrata) ou (passivamente) inclinação: – desejo, prazer, vontade.

Também se refere à doutrina ou filosofia religiosa difundida por Aleister Crowley a partir de 1904 nos moldes propostos pelo Liber AL vel Legis, publicação recebida por uma entidade auto-denominada "Aiwass", ministro de Cultura de Hoor-par-Kraat (o Deus Hórus).

De acordo com a filosofia thelêmica, o ser humano está afastado de sua condição divina não pela encarnação, conforme pregava, por exemplo, o gnosticismo, e sim pela simples não-conscientização desta natureza. Essa falta de consciência seria mantida por uma série de fatores, dentre os quais podem-se citar o conceito de pecado (enquanto restrição artificial dos impulsos naturais), o egocentrismmo e a entrega à vontade alheia ou aos vícios -- que no conceito thelêmico referem-se a qualquer atitude que controle a vontade ao invés de ser controlada por ela. Assim, cabia ao ser humano buscar uma profunda auto-consciência, chegando assim ao conhecimento do que foi chamado de Verdadeira Vontade (Thelema, do grego vontade), o objetivo primal da encarnação de um espírito individual.

Antecedentes

A palavra Thelema é incomum no Grego Clássico, significando o desejo, mesmo o sexual. Porém já se torna comum na Septuaginta (versão da Bíblia hebraica para o dialeto grego Koiné). Antigas escrituras cristãs utilizavam esta palavra por vezes para se referir à vontade humana, mas era mais usual como referência à vontade de Deus. Na oração do Pai Nosso, por exemplo, em "Venha a nós o Vosso reino, seja feita a Tua vontade, assim na terra como no céu;" (Mateus 6:10), o original de "vontade" é θέλημα. Ainda no mesmo evangelho, em Mt 26:37, tem-se Jesus dizendo a Deus: "faça-se a Tua vontade", novamente com o termo Thelema no original. Ainda além, Santo Agostinho, em um sermão do Séc. V d.C., utiliza a frase "dilige et quod vis fac" ("ama e faze o que tu queres").

O texto renascentista "Hypnerotomachia Poliphili", creditado ao monge dominicano Francesco Colonna e com primeira publicação em 1449, possui uma personagem chamada Thelemia, representativa da vontade ou desejo, que em conjunto com Logistica (a razão) guiavam o protagonista Polifilo por sua jornada em busca de sua amada. Quase sempre, ao ser obrigado a escolher entre os conselhos de Logistica e Thelemia, Polifilio dava ouvidos à seus impulsos sexuais e não à lógica. Esse livro teve grande influência sobre outra obra de grande importância para a base filosófica thelemica, a novela do Séc. XVI, "Gargantua e Pantagruel", do monge franciscano François Rabelais. Neste texto clássico se descreve a "Abadia de Thélème", cuja única regra consistia em "faix çe que tu veux" ("faze o que tu queres"). Já em meados do Séc. XVIII, Sir Francis Dashwood inscreve este adágio, que se tornaria o lema do Hellfire Club, na porta de entrada de sua própria abadia, em Medhenmam, Inglaterra. "Gargantua e Pantagruel" também é referenciado na novela de Sir Walter Besant e de James Rice, Os Monges de Thelema (1878), e na utopia A Construção de Thelema (1910), de C. R. Ashbee.

Notas

(1) "Do what thou wilt shall be the whole of the Law" - a tradução utilizada é a de Marcelo Motta, pois fora feita seguindo uma observação de Germer sobre a necessidade de se ter o mesmo número de letras do original (11). Infelizmente, não se pode traduzir apenas com monossílabos como ocorre no britânico. 11 é o número da Grande Obra.

(2) "Está escrito que 'Amor é a lei, amor sob vontade'. Aqui há um Arcano Velado, pois no idioma grego AGAPE- Amor, tem o mesmo valor numérico que THELEMA - Vontade. Por isto nós compreendemos que a natureza da Vontade Universal é Amor".


Liber CL - De Lege Libellum