quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Fraternitas Templi Satanis - F'T'S'


Trataremos agora de um momento invulgar na história do satanismo no Brasil. Esse capítulo em especial só foi possível graça ao meu irmão em Satã, Zarco Camara, que disponibilizou alguns dos arquivos "Biblos Tenebrae", como eram chamados os arquivos internis e levantou outros dados de sua própria memória. Após o final da IDL o momento era tal que surgiam e sumiam sociedades e grupos satânicos pelo país seguindo o ciclo descrito no capítulo anterior sobre o grupo ADLUAS bem próprio das zonas autónomas temporárias. Mas alguma coisa diferente acontecia com alguns dos membros do circulo mais interno da antiga Igreja de Lúcifer.

Estes membros foram, nominalmente o próprio Lord Ahriman, o irmão Betopataca que por toda a década de 90 possuíram um íntimo contacto. Desta maneira, inconscientemente um elo foi formado e pouco depois enriquecido com a entrada de Gwaihir. Havia entre eles a necessidade de continuar a exploração do satanismo que havia sido iniciada na IDL e que era enriquecida com influências de outras escolas como a Thelema, o Vampirismo, Parapsicologia, Alquimia Negra, entre outras. Tal elo culminou na formação de um "grotto" no Rio de Janeiro de nome Irmandade de Baphomet, contendo sob sua égide inicialmente somente estes três indivíduos. 

A razão de existência do grupo era não apenas a formação de um "grupo satânico" como aconteceu com outros grupos, mas manter viva a corrente do pensamento satânico nacional e a chama luciferina que havia sido acessa com a Igreja de Lúcifer. A verdade era que o nosso satanismo já era bem diferente do que havia la fora. Havia sido atingido um patamar superior que simplesmente não podia ser jogado fora. Enquanto LaVey e cia propunham um egoísmo puramente hedônico descobrimos aqui os perigos da egolatria e o caminho para a descoberta e forja do Eu Superior. Fizemos possível o materialismo místico, como ficará claro na descrição do Sigilo do grupo abaixo.

O que se segue é a descrição do mesmos segundo os arquivos da ordem. Escreve Betopataca:

"Tal Sigilo da Irmandade de Baphomet(IdB), possui um triângulo eqüilátero(todos os ângulos-lados iguais). O triângulo é um símbolo,representante do Fogo e da elevação pelo Azoth ("Fogo de Satã").Este é eqüilátero para representar a igualdade entre os Irmãos do "grotto" (sem graus;sem hierarquia estagnada). Na ponta inferior esquerda coloca-se a letra “E”(de "Ethos");na ponta inferior direita coloca-se a letra “H”(de "Helius");na ponta elevada-superior coloca-se a letra “B”(de "Baphometis").Esta ordem de escrita foi usada pois o poder vem de cima,do LOGOS(Baphomet),até nós(vide que Baphomet é correlacionado por algumas escolas de pensamento com “Ain Soph”).Nós,através da "Ethos" e da Magnum Opus Solis - "Helius" -,vamos até Ele num eixo de baixo para cima.

Dentro do triângulo,existe um "octagon"(octágono). Foi usado o octágono,pois este representa a Magia (vide a proposta de "Magia Octarina Caotecista") que estaria no cerne do grupo,assim como o nome do LOGOS(Baphomet) possui 8 letras. A própria Magia é a Manifestação do Self e de Baphomet, vide a seguinte passagem do "Liber A'Ash vel Capricorni Pnenumatici"(que retrata a natureza e controlo da Magia no Homem e de seu manifestador-Baphomet) recebido por Aleister Crowley:"Eu sou Baphomet,que é a Palavra Óctupla que será equilibrada com Três". A excertada passagem do Liber,também faz uma conexão do oito com o Três (que é representado no sigilo criado pelo triângulo o qual engloba o octágono,equilibrando-o). No centro do octágono,vê-se o símbolo de Baphomet(pentagrama-invertido).Já que no cerne da manifestação mágica(o Octágono),estaria o próprio Baphomet(uma união de nossos SAG's;o LOGOS em si). Além do que,8(número de pontas do octágono) x 3(número de pontas do triângulo) x 5(número de pontas do pentagrama-invertido) = 120 = 1 + 2 + 0 = 3(o ternário perfecto;Terceiro Aeon - Hórus - )."

Fraternitas Templi Satanis (F’T’S’)

Foi deste núcleo de três satanistas que no início do século XXI, a Irmandade de Baphomet deu então lugar a Fraternitas Templi Satanis (F’T’S’). Na opinião do autor que lhes escreve este foi o momento mais criativo, poderoso, intenso e importante para o fortalecimento do identidade do satanismo no Brasil e sua evolução para muito além dos pressupostos iniciais de LaVey. Sem ele provavelmente o progresso feito na Igreja de Lúcifer teria se perdido. O sigilo do grupo e sua explicação abaixo fica evidente a evolução do "Satanismo da Terra Brasilis" (termo cunhado pelo irmão em Satã, Frater Asmodeus) e as demais correntes existentes até então:

Continua Betopataca nos arquivos da ordem:

"O nome “aberto” ou “vulgar” da Ordem,escrito em Latim,está intimamente conectado ao ideário geral que a mesma transmitia ou tencionava ostentar.”Fraternitas” significa “Fraternidade”;”Templi” quer dizer “[do] Templo”; “Satanis” pode ser traduzido,aproximadamente,como “de Satã”.Assim a tradução derradeira do nome da Ordem,seria:“Fraternidade do Templo de Satã”.”Satã” é a emanação directa do LOGOS/Baphomet presente em todo Ser Humano,simboliza o próprio princípio de “Oposição” e “Acusação”(para maiores informações,um estudo semântico e etimológico da palavra “shaitan”,que deu origem ao verbete “Satã”,é deveras revelador e sugerido) absolutamente indispensável para um processo iniciático segundo os ditames da SOMBRA em suas acepções junguianas e horusianas.O verbete “Templo” traz em si a idéia “sacralidade”,local onde os ritos são empreendios e a própria divindade faz-se presente lambendo o praticante com o “divino elã”,dotando-o de “entusiasmo”(palavra que advém do grego “enthousiasmós” e significa “cheio de deuses”).O vocábulo “Fraternidade” dá uma noção de “Irmandade”,é a “Congregação” que erige um “Templo” para Si-Mesmo,a fim de que desta sorte atinja-se de maneira singular e solitária-sinestésica a plena articulação com o LOGOS através da emanação taxionomizada como “Satã”(que é e não-é o adepto,como qualquer arquétipo que o valha).

O Triângulo Invertido representa o princípio aquoso.A Ordem possui princípio aquoso,pois movimenta-se perante a Sociedade e pelo Senso Comum de comum acordo com a filosofia do “wu-wei”(Não-Agir),uma proposição conectada ao Tao(“Na Verdade,’wu-wei’ é uma das atividades mais enérgicas[...].” – Henri Borel”;”Às vezes,o que parece ação tem a essência vazia de um não-agir perfecto.”- Luis Carlos Lisboa).Da mesma sorte que o triângulo inverso,conecta a Ordem a um princípio de estar articulada com o Sol_Negro/LOGOS à guisa de emanação directa do próprio.O triângulo inverso pode ser visualizado como um “Y”,o que se conecta directamente a idéia do “Y Alquímico” (falado no ensaio,de mesma graça,da autoria de Betopataca) e que portanto une todos os integrantes da Ordem com a Santíssima Ponte 9=0 ao passo que estes trabalham com a egrégora da Ordem em seus ritos.Este é eqüilátero para representar a igualdade entre os Irmãos da Ordo(sem graus;sem hierarquia estagnada).

O hexagrama unicursal da Besta,representa o próprio Macrocosmo(as supernas cabalísticas refletidas nos três princípios alquímicos e vice-versa) e arranja-se o símbolo pelo qual se desvela a Besta/Satã.

O pentagrama inverso é o símbolo de Baphomet/LOGOS e Microcosmo.Muitos hei de inferir que o símblo do Microcosmo seria o pentagrama comum,ou seja,com sua ponta para cima.Contudo,deve-se notar que o paradigma de elevação espiritual sofreu uma “Underhüng”(Reversão) no Novo Aeon,estando a verdadeira Iluminação na Matéria e carnalidade da Existência ao invés do Espírito.Desta sorte,a ponta do pentagrama foi invertida.A transcendência Microcosmial,não mais sucede-se em duas instâncias metafísicas(Mundo das Idéias x Mundo Imanente ou Espírito x Carne),e sim numa SÓ INSTÂNCIA(a “transcendência” é dentro da própria articulação da Imanência como esta dá-se no Eterno Presente).

A “interdigitação” entre o pentagrama inverso e o hexagrama unicursal da Besta é reveladora.Demonstra a própria articulação UNA que existe entre Microcosmos x Macrocosmos,e desta maneira simboliza a própria ideologia heraclítica da F’T’S’:Não existe diferença de instâncias.A completude está no UNO/TODO/Tao/Physis/LOGOS.Toda distinção entre Ser x Cosmos e Macrocosmos x Microcosmos é apenas aparente e os limites fundem-se num processo de,arituclada,Tensão x Retorno.Assim como tal interrelação é um indicativo de que maneira Satan,hexagrama,pode ser vistoriado como uma emanação-Tensão do LOGOS(pentagrama inverso) e,impreterivelmente,leva a um Retorno a este Mesmo(que é um dos “objetivos” gerais que a Ordem pretende empreender em seus Membros com suas práticas e pressupostos teóricos).

Se somar-se o número de pontas do hexagrama com o número de pontas do pentagrama inverso,vê-se o resultado final como 11.Onze é o número de Nuit,próprio Amor(princípio Feminino) o qual leva o Adepto - através do “Amor sob Vontade” - para o princípio das sendas iniciáticas (representada pelo Arcano-Maior da “Lua” do “Tarot de Toth”).Desta sorte,a Ordem é um princípio de auxílio ao Adepto no seu caminhar e metamorfismo pelas sendas da iniciação.Pode-se observar que o número de pontas do pentagrama inverso(5),se colocado em apêndice com o número de pontas do hexagrama(6), dá “56”.Cinqüenta e seis é o número de “Babalon” uma das configurações de Nuit,a grande hieródula que leva ao despedaçamento do Homem no Abismo de Daath(a fim de que este atinja Tiphareth e eleve-se até as supernas,por consegüinte) e realiza a Iluminação pela Sombra e luxúria(Indulgência) ao invés de celibato(abstinência).

Se multiplicarmos o número de pontas do pentagrama inverso(5) pelo número de pontas do hexagrama unicursal da Besta(6),o resultado de tal operação multiplicado pelo número de pontas do triângulo invertido(3),ter-se-á como resultado 90.Fazendo um somatório de nove(9) com zero(0),tem-se como derradeiro resultado o número nove(9). Nove é o próprio número de Satan(para maiores informações fitar o ensaio “Numerologia Satânica” do líder da CoL,Rev.Frederick Nagash),o que conecta a Ordem ao Princípio de Articulação com a Emanação do LOGOS(ShTn).Além do que o número 90 traz a mente a noção da ponte 9=0,aceita pela F’T’S’ como um de seus postulados teóricos e práticos.

O nome greco-latino “velado” ou “mágico” da Ordem é “Ethos Phosporus Satanis”( E’P’S’).”Ethos” tem como significância “Irmandade”,”Phosporvs” significa “Lucífero”; ”Satanis” pode ser traduzido,com algum grau de proximidade,por “Satã”.”Satã” representa “Oposição”.”Lúcifero” é aquilo ou aquele que possui qualidade ou correlação de “Lúcifer”:“Lvx Ferre”(“O Portador da Luz”,ou,ainda,”O Doador da Luz”).Lúcifer,segundo os antigos conhecimentos gnósticos,faz-se o escriba cósmico que leva o Adepto às portas da Gnosis(em sua acepção de verbete primeva).Desta maneira,desvela-se claramente um dos postulados pelo quais se serve a Ordem:”Iluminação pela Oposição”.A Iluminação pelo Caminho da Sombra ou de Sirius.Desta maneira,“Ethos Phosporus Satanis” é a “Irmandade [que] Ilumina pela Oposição”,a antinomia causadora do metamorfismo em plena alteridade(“Batalhar como Irmãos,avesso do Ragnarök”- Betopataca).

A relação “Satã Lucífero”,pode ser vista sob um prisma sexual também.”Lúcifer” era correlaciondo com “Vênus”,o qual por sua vez sempre foi louvado como o corpo celeste de “Ishtar”(aquela que pode ser vista como Babalon,já que ambas possuem mesmo apanágio e características).”Satã” por sua vez é a Grande Besta(“Mega Therion”) e relaciona-se,intimamente,com um princípio masculino-satírico(vide sua iconografia e conceituação clássica com pernas de bode,chifres e de encarnação da luxúria-copuladora-fálica).Desta forma,a expressão “Satã-Lúcifero“ é uma amostração clara do binômio Babalon-Therion como constatado no Arcano-Maior de nome “Luxúria” do “Tarot de Toth”.Em suma,a própria Ordem em seu interno,práticas e articulação como emanação do LOGOS,estimula entre seus Membros a união Yoni + Lingam que gera como resultado YoniLingam ou Androgenia,a união de Kteis + Falo...articulação-completude de TODAS as cousas."


Sobre os membros

A produção interna de estudos e rituais da FTS foi algo admirável, muito disso foi usado posteriormente pelo Templo de Satã. Em que pese a Fraternitas Templi Satanis de fato ter possuído um sistema de filiação aos interessados a verdade é que lá dentro só se entrava por convite e ainda assim apenas se o novo membro fosse aprovado por todos os membros anteriores por unanimidade. Uma única bola branca no saco significaria recusa do candidato. De fato, quando fui convidado recusei num primeiro momento pois já participava do ADLUAS e não queria dividir minha Vontade, contudo os 'grandes antigos' estavam lá e formavam um grupo que até hoje não se iguala a nenhum outro que testemunhei. Orgulho-me de ter meu motto entre os arquivos da ordem que segue sem alteração:

Lord Ahriman: Um dos co-fundadores da Ordem, dessarte como uma das mais importantes figuras do escurejado cenário satânico brasileiro.Sendo o idealizador,resistente líder e organizador da "Igreja de Lúcifer",apresentara-se o primo indivíduo a professar, fora de círculos individuais e silentes,o Satanismo.Do seu esforço bandeirante,surgiu a primeira versão em português da "Satanic Bible"("Bíblia Satânica"),a qual se desempanou o fundamental alicerce a viabilizar qualquer discussão sóbria no tópico Satanismo em nosso idioma.Com o Delta-Tempo,retirou-se enquanto membro ativo graças uma pregressa e excruciante enfermidade.

Betopataca: Outro co-fundador da Ordem,auto-iniciara-se no Satanismo porventura na mesma época de Lord Ahriman,contudo somente pôde maximizar sua percepção e prática quando,timidamente,participou da IdL. Por seu fomento e apoio da irmandade perenal de Lord Ahriman,quiçá se convertera naquele que gerou às condições de possibilidade efetivas ao surgimento da F'T'S'.Seu amplo alicerce pensante,confirmado por sua diversificada e aprofundada formação acadêmica, conjunto a série de vivências como membro de múltiplas ordens ocultistas,trouxe uma complexidade ao material engendrado na E'P'S'.Afastou-se, definitivamente,de atividades ordenáticas no intuito de combater uma neoplasia.

Gwaihir: O derradeiro co-fundador.bFôra iniciado no Satanismo e Thelema,através de Betopataca. Sua titânica verve,acidez crítica e ceticismo incontestável foram a tônica necessária à formação prima da "Fraternitas Templi Satanis".Sua produção escrita sempre se descortinara limitada,principalmente graças ao gigântico rigor que exigia de tudo e mais ainda de si próprio.Sua ausência foi duramente sentida,logo no apogeu de manifestação da confraria,quando abraçou  uma existência mais comezinha e apartada do Ocultismo.

DarkHella: Desvendou-se a primeira a ingressar na, sedimentada enquanto tal,Fraternitas Templi Satanis (E'P'S).Sua gênese ritualística e doutrinária primeva, abancavam-se no Ásatrú apesar de sua inquestionável articulação ética e,posteriormente,epistemológica com inúmeros conceitos satânicos.Sua sagacidade em termos tecnológicos e boa-vontade para com os propósitos da Ordem,revelaram-se vitais aos primeiros passos da popularização digital de material produzido por seus membros.Aspecto de vultoso relevo, igualmente,compôs-se sua divulgação de material de cunho mitológico norreno o qual influenciou em não desprezível escala os expedientes mágicos da F'T'S'. Quase na mesma duração de Gwaihir, pediu seu afastamento para dedicar-se exclusivamente ao seu trabalho na área de Informática.

Darkvelvet: Uma das menos propaladas e,decerto, mais importantes figuras a engrossar as fileiras deste "conglomerado satânico".Compôs-se uma auto-iniciada no Satanismo e Thelema,contudo teve seus estudos e práticas ampliados sob os auspícios de Betopataca.Por petição deste,ingressou na Ordem aonde se destacou por seu olhar apurado,temperança e um uso indefectível do kairós[discurso que se dá no momento conveniente,aproveitando a oportunidade aberta no instante mesmo].Sua paixão no lograr da Ordem,condensou-se em um trabalho arquivístico interminável em prol de ordenar com fino acabamento à produção textual dos demais membros.Com a saída de Betopataca, visou debalde manter a F'T'S sobrevivente.

Bastard Obito :Arranja-se uma persona de suma-importância para o Satanismo e Kaoísmo nacionais, conforme se desvela um dos primeiros a gratuitamente divulgar na Rede textos e materiais desta espécie.Seu valioso ingresso,significou a continuação e aprimoramento do "mourejo digital" que a priori se dava aos encargos de DarkHella.Jamais,de modo notório,poder-se-ia deixar de comentar sua imprescindível importância como "experimentador mágico" sem par.Devido à sua permanente prática na "degustação" dos mais plurais "sabores" imagináveis a um magista,viu-se o emergir na Ordem de uma estrutura mágica exponencialmente mais abalizada em solidificar quaisquer anseios por pluralismo ritual. Com a saída de Betopataca, almejou dar continuidade à Ordem junto com Darkvelvet mas,ao que consta, terminou por volver todos seus esforços na manutenção e ampliação de seu "portal eletrônico ocultista":"Morte Súbita Inc.".

Morbitvs Vividvs: Figura de importância satânica desde os idos da Igreja de Lúcifer,a qual foi um valioso participante.Em termos iniciais demonstrou-se resistente à sua entrada na F'T'S',conforme se dedicava mais a um projeto de cunho kaoísta nomeado ADLUAS. Contudo, desde o instante que decidiu por aquiescer às solicitações de integração à Fraternidade,fez-se um de seus mais ativos elementos.Durante sua condição de plena integração,deu à luz a uma pletora inacreditável de material escrito dotado de insofismável qualidade.Sua "usina de idéias", converteu-se em um inextingüível combustível para série de projetos futuros que,com a extinção da Fraternitas Templi Satanis,viram-se infelizmente perdidos.Com o findo da Fraternidade, uniu-se de forma ativa com Obito no projeto "Morte Súbita Inc.".

CROM: Por intervenção e influência diretas de Betopataca,realizou seu "batismo ígneo" nas chamas satânicas.Como deságüe natural,adentrou na F'T'S', incrementando-a com sua pujança jovial,finíssima ironia e humor apto a suscitar um divertimento reflexivo.Sua participação mágica e dialógica, compunha-se minguada,todavia seus ensaios e humorísticos escritos recompensavam esta suposta falta.Tendo logrado uma assaz próxima relação com Darkvelvet,tentou conjuntamente com esta manter,embalde,vívida a Ordem.

DarkPhilosopher: Ente há muito imiscuído ao underground metálico tupiniquim,ingressou no Satanismo com a intervenção de Betopataca.Através de convite de Ahriman,fez-se um membro maravilhosa-mente belicoso da "agremiação demoníaca".Suas bases intelectuais na Física e Ciências Duras, fomentaram um nível de discussão e crítica afinados com expedientes científicos em todas camadas do grupo.Apesar do forte lado cientificizante,gerou artigos e ensaios dotados de uma latente veia estética. Abandonou a Fraternitas Templi Satanis à medida em que se viu atirado em uma "crise espiritual", transformada em conversão ao Cristianismo.

ADLUAS

Com o fim oficial da Igreja de Lúcifer em 2000 o que aconteceu foi que todos os grottos espalhados pelo Brasil estavam por conta própria, ou seja completamente independentes. Alguns simplesmente não estavam prontos para seguirem sozinhos, estes definharam e desapareceram. Outros ansiavam por essa liberdade para crescerem da sua própria maneira. Soube de muitas histórias mas não tive a oportunidade de comprová-las para que possam ser incluídas neste livro. Exceção feita ao grupo que nasceu em Minas Gerais, que por participar conheci de perto sua gênese e evolução. Posso dizer ainda que sua história é bem parecida com a de muitos outros grupos satânicos que existiram na época.

A verdade é que pouco antes do final da Igreja de Lúcifer o grotto de Belo Horizonte já havia declarado sua própria independência. Em 21 de Janeiro de 1999 nasceu assim um grupo conhecido como ADLUAS,  nome este que é uma abreviação de "Aldi Donasdogamatastos Lape Ugegi Angelard a Saitan" que por sua vez é uma frase em enoquiano para  "Grupo do Fogo Infernal para o Crescimento Forte do Pensamento de Satan".

A autonomia intelectual de seus membros com os quais mantive contato nos primeiros anos do segundo milênio ia muito além de apenas ser independentes do que estava acontecendo no Rio de Janeiro. Eles eram na sua própria medida também independentes do próprio satanismo tal como existia na época. Esse processo já começou com a Igreja de Lúcifer, mas foi em Belo Horizonte que amadureceu. A contribuição mais interessante do grupo na minha opinião é a mescla proposta de filosofia Satânica com práticas da Magia Do Caos, na época uma grande novidade entre os ocultistas nacionais, tudo isso sustentado por uma cosmovisão declaradamente Thelemita.

A defesa desta mistura era direta: LaVey ensinou uma filosofia de vida materialista e hedônica voltada ao engrandecimento do Eu e que as crenças em rituais e em magia só fazem sentido quando se esta praticando eles, e que são em si é operações de auto-ilusão dirigida para fins práticos. Por sua vez a magia do caos ensina que quando não estamos praticando magia devemos suspender nossas crenças. O que ADLUAS propunha é portanto algo semelhante ao que os membros da Temple of the Vampire chamam de "Lado Diurno" e "Lado Noturno". Ou seja, em termos de prática magica eles aderem ao caoismo (ou a qualquer coisa que queiram) mas em termos de dia a dia são indivíduos estrategistas  e materialistas, ou seja, satânicos.

Este ambiente permitia no mesmo grupo a existência de indivíduos com visões de mundo muito diferentes, seja políticas, econômicas e até meta-físicas e criou novamente o ambiente criativo onde muitas ideias interessantes surgiram, tanto nos aspectos práticos de magia e vida pessoal como em termos de criações artísticas. De fato disto veio o surgimento da banda Rex Infernus que tornou-se uma espécie de arauto da cosmovisão fractal do grupo.

Em termos de organização o grupo foi também um ótimo exemplo de como quase todos os grupos satânicos funcionavam nessa época, e como muitos continuam funcionando ainda hoje. Ou seja, um grupo inerentemente elitista sem qualquer interesse em angariar novos membros. Um grupo fechado e pequeno exatamente como foi a Igreja de Lúcifer nos seus primeiros anos. O processo de entrada no grupo não era fácil, e era propositalmente difícil. Não bastava o indivíduo conhecer e praticar o satanismo ele precisava ter alguma coisa a acrescentar para ser aceito.

O critério mínimo de entrada era que a pessoa tivesse o domínio sobre sua própria vida. Ela deveria provar que sabe usar conscientemente os 8 circuitos de consciência (Modelados por Timoth Leary) ou ter atingido no mínimo o penúltimo nível em  algumas das ordens iniciáticas tradicionais ou ainda ter atingido o nível de Vampiro Adepto ou Vampiro Mago da Temple of the Vampire. Na prática essa era uma forma de afastar fracassados.

O final do grupo ADLUAS não poderia ser outro. Sendo tão elitista e fechado aconteceu que seus próprios membros foram se destacando em seus empreendimentos e campos de atuação, indo para países diferentes ou para outras regiões do pais para tocar seus próprios empreendimentos e ao se afastarem o grupo se desvaneceu, embora nunca tenha tido um fim oficial.

Essa história é exemplar se repetiu em vários outros estados do pais e ainda hoje se repete. Este é o ciclo de vida de dezenas de capelas e grupos satânicps que pude acompanhar de perto ou de longe. Estes são para mim o exemplo perfeito das 'Zonas Autônomas Temporárias' das quais Hakim Bey falava e do 'Total Environment' que LaVey defendia. Criptosociedades satânica que cujo objetivo é melhorar a vida de seus poucos membros e que quando eles melhoram de vida se desfazem por terem cumprido seu propósito.

Lord Ahriman

O ano de 1997 foi um marco para o Satanismo com a morte de Anton LaVey, mas foi igualmente um marco para o Satanismo Brasileiro, quiçá latino-americano, porque foi o ano em que um homem conhecido como Paulo Machado iniciou seu trabalho de trazer para nosso país a filosofia de vida desenvolvida por LaVey e outros nas décadas anteriores. Morria um mito no Norte, nascia um mito no Sul.

Paulo teve seu primeiro contato com o Satanismo alguns anos antes com as noticias relativas à Church of Satan em meados dos anos 60 e 70. Sempre atraído por tópicos sombrios buscou informações sobre este grupo tão diferente de todas as formas que podia, sem muito sucesso até que em 1993 encomendou uma cópia importada da Satanic Bible por meio de um amigo. Como muitos outros brasileiros depois, identificou-se imediatamente com a proposta de vida contida no livro e entusiasmado com estas idéias tentou entrar em contato com a Church of Satan por carta.

A resposta que obteve foi um balde de água fria. Já naquela época a Igreja de Satã na Califórnia estava vendendo filiações e, o que é pior comercializando postos hierarquicamente elevados dentro da Igreja. Desde aqueles tempos é cobrada uma taxa única de entrada de aproximadamente 100 dólares, mas mesmo uma taxa única parecia a Paulo uma contradição para quem condenava a venda de lugares no céu e uma hipocrisia para quem acusava os pastores e os padres de serem mercantilistas.

Pagar para entrar numa igreja que lhe ensina que você não deve nada a ninguém.... O que poderia ser mas contraditório? Talvez matar em nome de um deus de amor. Recusando-se a aceitar uma taxa para participar de um grupo satânico começou uma busca pessoal por alternativas, até que em 1996 descobriu a existência da “The Church of Lucifer”, uma dissidência da Church of Satan encabeçada pelo Reverendo Frederick Nagash que entre outras particularidades condenava qualquer cobrança dos afiliados.

Comunicando-se somente por correspondências e e-mails Paulo Machado se destacou por sua eloqüência, mesmo sendo estrangeiro e em abril de 1997 fundou no Rio de Janeiro o “quartel-general” brasileiro conhecido como The Church of Lucifer Brazilian Headquarters (COLBH) passando também a adotar o título de Deacon Paulo. Neste momento ele já contava com a companhia de uns poucos companheiros atraídos por seu entusiasmo e idéias, foi nessa época e em sua companhia que adotei o motto de Morbitvs Vividvs. Como eu ainda era de menor de idade, tive que mentir a data de nascimento para ser aceito pelo grupo, mentira da qual até hoje não me arrependo.

A verdade é que este primeiro levante satânico era mais um pequeno grupo de amigos estranhos do que uma organização propriamente dita como as capelas satânicas que surgiriam depois. Mesmo assim deu-se então o inicio de uma fase de produção intelectual bastante intensa, embora com poucos participantes. Deacon Paulo escreveu alguns primeiros modestos ensaios como “Senhor Noel”, “O Vaso Cheio”, “Um Outro Animal” e alguns poemas satânicos em português e inglês como “O Ponto” e “The Dark Element”. Esta coleção de textos é guardada até hoje pelos seus diletos e registram os primeiros escritos genuinamente satânicos feitos em nosso país.

De suas mãos veio além disso a primeira tradução da Bíblia Satânica, foi também parte desta onda de entusiasmo que motivava aquele primeiro grupo. Tratava-se de uma tradução bastante livre e despreocupada porque a ideia original era distribuir o livro somente para os membros do grupo, mas com o fim do mesmo o arquivo acabou vazando para a Internet sendo distribuído por uma infinidade de páginas.

No início de 1998, a Church of Lucifer passou por uma reformulação interna, que entre outras coisas buscou dar ao grupo uma antes inexistente ancestralidade. Quando isso aconteceu Rev. Nagash cortou todos os contatos com os quartéis-generais espalhados pelo mundo, sem dar qualquer explicação aos seus diáconos. Mas era tarde demais para quem pensava que este poderia ser o fim do satanismo nacional. O grupo brasileiro já havia crescido em número e em maturidade e o fato do cordão umbilical ser cortado só lhe fez bem, pois lhe deu independência para crescer suas raízes de modo independente. A Church of Lucifer Brazilian Headquarters passou a adotar o nome “Igreja de Lúcifer”, pois assim já era conhecida entre os seus e Deacon Paulo adotou o moto de Lord Ahriman.

Com a mudança o grupo cresceu e ganhou um novo fôlego e contava com aproximadamente 50 membros nacionais e internacionais. Uma nova leva criativa levou o grupo e Lord Ahriman a escrever seus textos clássico hoje tidos como essenciais para a compreensão da forma como o satanismo se desenvolveu por aqui. Em especial os textos de Lord Ahriman deram um salto de qualidade que até hoje permanece inexplicado. Os ensaios “Caixa de Pandora: emoções negativas”. “Egolatria; A Síndrome da Peneira Furada“ e “O Manto de Carne” foram escritos neste momento e refletiam o desenvolvimento da filosofia deste satanismo eclético que vivemos hoje. Foi motivado por estes textos que na época também comecei a escrever, são daqui os meus primeiros artigos: “Os Dez Mandamentos Satânicos”, “O Fraco Arrependido” e “Eu não respeito” que mais tarde entrariam no Lex Satanicus.

Foi em 98 também que o grupo passou a adotar a organização de grottos nacionais em Porto Alegre, Salvador, São Paulo, Minas Gerais com o grotto central sendo o do Rio de Janeiro. Além de grupos de estudos e práticas regionais a Igreja de Lúcifer se mobilizava de temos em tempos para encontros nacionais, muito embora dificilmente todos os membros aparecessem. Nestes encontros Lord Ahriman falava sobre Satanismo, ocultismo e filosofia, e eram executados rituais em grupos com os participantes dispostos a tal.

Devido ao crescimento desproporcional do grupo, o fortalecimento dos grottos regionais e problemas pessoais entre alguns membros em 2000 a Igreja de Lúcifer dissolveu-se oficialmente. Contudo o Satanismo não enfraqueceu nem um pouco com esse evento já que Lord manteve contato com os antigos membros que lhes eram mais próximos e os grupos de outros estados evoluíam segundo seus próprios caminhos.

Foi a partir daqui que ele se dedicou a escrever seu livro “O Satanomicon” a partir do material acumulado no grupo e desenvolvido posteriormente em diversas conversas com seus irmãos em Satã. O tomo é um documento de aproximadamente 100 páginas tratando de Satanismo, Vampirismo, Thelema, Demonologia Moderna, Filosofia e Ocultismo no qual o autor conclui sua obra de introduzir o pensamento satânico nacional, que honra sua herança LaVeyana, mas é em muitos pontos até mesmo superior a esta. O Livro em si foi entregue de presente para alguns amigos e publicado para o grande público alguns anos depois.

Posteriormente ele lançou ainda outros livros contendo seus ensaios e idéias sobre o Eu e o Mundo, sempre, (mesmo quando tentou evitar) de uma forma satanicamente inspirada. Alguns destes livros foram publicados mas muitos ainda permanecem como material seleto passado de mão em mão, entre eles temos os 'Ensaios do Maleficience', 'Introdução a Magia Satânica' e "O Poder do Eu" o  "Manual do Cafajeste" e o controverso 'O Livro de Satan'

Lord Ahriman foi uma peça chave para formação do Satanismo no Brasil e depois da Igreja de Lúcifer ainda contribui com a fundação de outros grupos de Satanismo, mas nenhum deles tem uma importância histórica tão grande quanto a Igreja de Lúcifer. Seu maior legado contudo não foi a formação deste ou daquele grupo. Sua maior obra não foi tão pouco qualquer um de seus brilhantes textos, mas foi sim ele mesmo e seu exemplo pessoal. Uma lição a ser aprendida por todos os satanistas do Brasil e do mundo.


Morbitvs Vividvs

Order of Nine Angles - ONA


O Pânico Satânico descrito no capítulo anterior, não desapareceu sem antes realizar algumas mudanças importantes no movimento satânico. Foi nesta época complicada que algumas pessoas aproveitaram a má fama do Satanismo para ganharem um pouco de destaque. Pastores, Psicólogos, Policiais... todos queriam aproveitar a febre do momento para ganhar um pouco de notoriedade. Todos, incluindo os próprios Satanistas. Como já se tornara uma fórmula dentro do Satanismo o estigma causador de medo não foi negado mas relido sob uma nova perspectiva. Quando a febre do Ritual de Abuso Satânico ganhou fama internacional, e numa época em que o Satanismo mais causava medo, veio a tona na Inglaterra o Satanismo agressivo da “Order of Nine Angles”, “Ordem dos Nove Ângulos” ou ONA como também é conhecida.

Uma das principais diferenças entre a ONA e o Satanismo anterior é a ênfase na auto-superação seja ela física, mental ou oculta. Em contrapartida ao Satanismo puramente hedônico que existia na América, a ONA inglesa defendia que não existe vitória sem luta e que em busca de se tornar alguém superior o prazer momentâneo deve ser muitas vezes trocado por experiências longas, desgastantes e trabalhosas. Isso não chega realmente a ir contra o Satanismo proposto por LaVey, pois é uma releitra de Epicuro,  mas servia de alerta para que o próprio satanismo não se tornasse um antro de compulsão hedônico e acomodada.

Apesar da antiguidade sugerida pelo grupo não existem registros de tais práticas anteriores ao final do século XX. Ao contrário é possivel traçar a transformação do grupo de bruxaria tradicional em uma ordem satânica por meio do trabalho  de seus protagonistas durante a década de 70. A gênese do grupo se deu quando três grupos (Camlad, Noctulius e Temple of Black Sun) se uniram com o propósito de praticar certas tradições ocultas. Neste momento o enfoque do grupo era a bruxaria tradicional e esta fusão foi liderada por uma mulher da qual sabemos pouco a respeito. Quando Thorold West (Anton Long), então um viajante endinheirado, conheceu esta mulher e foi apresentado por ela a estas tradições ele primeiramente as uniu com o que conhecia de Tantra e Vamachara e iniciou o desenvolvimento do que viria a ser o Caminho Setenário e publicou o "Livro Negro de Satan". A sacerdotisa mudou-se então para a Austrália e Anton Long passou a cuidar do grupo. Nesta época o grupo não chegava a vinte membros e todo material era datilografado e enviado pelo correio ou entregue pessoalmente.

É difícil afirmar exatamente quando o grupo passou a se considerar satanista  mas podemos especular algumas coisas uma vez que existem fontes do início dos anos 70 usando o termo "Satanismo Tradicional". Possivelmente o termo foi cunhado por Anton Long em contraposição ao Satanismo de Lavey que era mais conhecido e como referência a Bruxaria Tradicional que deu origem ao Caminho Setenário. Alguns anos depois David Myatt entra no grupo e usando vários pseudônimos (inclusive Anton Long!) para dar continuidade ao trabalho dando muito mais robustes a tradição. David deu mais forma ao grupo e criou a base de toda sua doutrina. Muitos rituais, cânticos, os Insight Roles, o Opfer, os trabalhos secretos, a hierarquia dos graus, o Star Game e as pesquisas do Acausal e dos Deuses vieram a tona graças a ele.

Foi graças a este trabalho de dabid que nos anos 80 o grupo conheceu uma grande expansão criativa e numérica crescendo por meio de em várias células, chamadas Nexions, espalhadas pela Europa e houve uma grande renovação quando o zine FENRIR passou a ser escrito e distribuído. O famoso “NAOS – Um Guia prático para a Magia Moderna” foi publicado em uma das edições deste zine que entre outras coisas também trouxe o tarot da ordem, ilustrado por Richard Moult (Christos Beest). Beest encabeçou a divulgaçãi da ordem com sua arte e foi o responsável pela "relações públicas" do grupo nesta época. Ele Também publicou neste tempo o intrigante "Diário de um Adepto Interno", relatando os anos que ele morou numa cabana com o Meat e outros membros. Sua permanência dura até 1996 quando deixa a divulgação da Ordem na mão do "Thernn" - mais conhecido hoje como Michael W. Ford, que permanece até o ano 2000 e então se retira para fundar a Order of Phosphorus.

Assim surgiu essa literatura instigante que logo ganhou  adeptos e que é distinguível pela complexidade de sua cosmologia, pela afirmação da sua ancestralidade e por saber tirar proveito de uma imagem sinistra numa época em que o medo pairava no ar. Entretanto o importante não e se a ONA é realmente um grupo milenar como alega ou se foi criado hoje de manhã. O fato é que muito de sua visão de mundo é indiscutivelmente um resgate de raízes e heranças que são encontradas em momentos bem distintos da história como o paganismo europeu pré-cristão e o Reich Alemão. O Templo de Set já se utilizara deste recurso ao identificar o culto do antigo deus egípcio com os princípios do Satanismo, mas a ONA levou esta ideia ao extremo ao estabelecer para os Satanistas não apenas um vislumbre do passado mas toda uma nova forma de se entender a história.

Alektryon Christophoros, mostra muito bem este aspecto do grupo em seu artigo Satanismo Tradicional, Nacional-Socialismo, e o Aeon Faustiano, onde escreve:

“Uma das crenças básicas do Satanismo Tradicional baseia-se no facto de que a sociedade ocidental foi ‘envenenada’ ou empobrecida com valores judaico-cristãos que apenas vieram atrasar a evolução da Humanidade, e a inauguração do Aeon Faustiano: a Nova Ordem Mundial de natureza Elitista e Satânica, em que o poder será entregue à ‘Raça Superior’, a Raça Satânica constituída pelos melhores e mais fortes. Neste aspecto podemos ver uma flagrante correspondência com o Nacional-Socialismo, que em muitos aspectos pode ser visto com uma Religião do Sol, do Führer, do Líder e do Forte. Esta é a Lei Absolutista, a Lei contra o Cristianismo de que Friedrich Nietzsche tão apaixonadamente falou no seu fantástico livro ‘O Anticristo’.”

Estas idéias caíram como uma bomba entre os Satanistas da época que, estimulados com as drásticas mudanças sociais dos anos 60 e 70 e incomodados com o a atitude reacionária da época, queriam novamente ver a chama de Satã arder e transformar o mundo.

O Satanismo torna-se então algo mais grandioso, a preparação para o próximo estágio da humanidade no qual somente uma raça dominará. De todas as etnias, a Raça Satânica se formará e abrirá os portais do Inferno. Segundo tradução de Prmtn Kali & Prmtn Fobus, Anton Long escreve em Uma Introdução ao Satanismo Tradicional: “Para nós, Satanismo é a criação de indivíduos orgulhosos, fortes, de caráter pleno, compreensivos -  indivíduos que foram além da maioria e que representam assim, um tipo mais elevado. Os grupos Satânicos verdadeiros, não procuram seguidores servis, decadentes, fracos. Procuram criar uma elite real - quase uma raça nova de seres. Naturalmente, isto não é fácil - é realmente perigoso. Freqüentemente, novos Iniciados falham por causa da dificuldade ou porque falta-lhes o desejo essencial para ser bem-sucedido. Mas é como a evolução trabalha - os  fortes superam desafios e evoluem; os outros permanecem onde estão, caem, ou são destruídos.”

A Escatologia proposta pelo grupo é tão questionável quanto a de qualquer outra religião, mas ao contrário de muitas outras ela se traduz em algo extremamente prático. Para a Church of Satan, a Era Satânica já era um fato consumado mas para a ONA, esse Novo Mundo não chegaria numa bandeja, devia ser conquistado. Isso faz os satanistas deixam de ser expectadores passivos para se tornam agentes ativos que do campo político ao artístico, das relações pessoais às práticas rituais se preocupam em transformar a terra por meio da invocação das forças por eles chamadas de Deuses Obscuros.

Assim como Anton LaVey, os Satanistas da ONA e todos os Satanistas posteriores por eles influenciados viam nas mudanças sociais sintomas de uma “Nova Era Satânica”. Contudo ao contrário da Church of Satan, a ONA dizia que podíamos e devíamos invocar estas forças transformadoras para acelerar a destruição das coisas antigas e transformar definitivamente as civilizações de nosso planeta. Existe aqui uma certa semelhança com as visões de H.P. Lovecraft, mas também diferenças importantes. Seja como for ambos concordam com uma coisa: Não basta que as estrelas estejam alinhadas, é preciso abrir o portal.

De modo a impulsionar esta missão o grupo desenvolveu um sistema conhecido como a Tradição Septenária organizada numa espécie de Cabala Satânica que levava não só o individuo, mas todo o planeta para o estabelecimento da super-humanidade. Este é outra grande diferença entre as organizações satânicas posteriores. Enquanto que na Church of Satan não havia qualquer preocupação em estabelecer um caminho iniciático no qual o Satanista pudesse se desenvolver e o Templo de Set ainda fornecia apenas uma organização hierarquizada e fechada aos seus membros, a ONA ofereceu abertamente toda uma forte tradição ritualística com a função clara de “guiar seus membros ao longo do caminho difícil e perigoso do desenvolvimento interior com o objetivo de criar um indivíduo totalmente novo”, usando aqui as palavras exatas de alguns documentos da própria ordem.

Isso é feito em primeiro lugar pela “Árvore de Wyrd” que pode ser vista como um mapa da consciência tanto individual como do universo, com chaves a serem ligadas e desligadas, obstáculos a serem vencidos e metas a serem cumpridas para que o domínio satânico possa ser adquirido. Cantos foram revelados, um Tarot sinistro passou a ser usado e toda uma vasta tradição começou a aparecer como apoio a cada um dos sete graus propostos pela organização. No mesmo texto acima citado Anton Long escreve:

“Cada estágio deste caminho tem associado a ele determinadas tarefas, determinadas experiências, que o indivíduo deve empreender por ele mesmo. Isto é, ele sozinho traz a introspecção, o domínio, a compreensão e a habilidade – todos ocultos e pessoais”.

Que contraste foi esse em relação ao Sacerdócio da Church of Satan pelo qual qualquer pessoa podia pagar para ganhar o título de Reverendo! O problema da vulgarizarão do Satanismo pela quantidade de adeptos enfrentado por LaVey foi solucionado pela ONA com a implementação dos Nexus e uma tradição em graus com testes e provações tão duros que simplesmente não podem ser alcançados por qualquer pessoa. Hoje a ONA não é apenas um grupo mas muitos grupos organizados separadamente e mesmo indivíduos isolados que perpetuam a tradição. Como Malachi Azi Dahaka bem colocou em seu artigo "Ordem dos 9 Ângulos I – Origens e Ideais":

"Apesar do nome, a ONA não é uma ordem, oficialmente falando. Ela é um método, um caminho, aplicado por grupos de tribos. Para ser da ONA, basta realizar as práticas e filosofias, mesmo que de forma solitária. Não há líderes, ninguém pra te dizer o que fazer, não há organização oficial, em hipótese alguma existem cobranças sexuais, monetárias ou ingresso de menores de idade (tendo em vista que só se pode exercer o caminho septnário a partir da maturidade). Não há também nenhum “conteúdo ultra secreto” relacionado, não há atividade “oculta na internet ou deepweb” ou algo do tipo. Todo material é aberto aos adeptos que desejarem ter acesso."

Isso não significa que o satanismo tradicional irá substituir o satanismo moderno. Mas a importância da Order of Nine Angles não pode ser negada. Embora por muito tempo tenha sido identificada com o Pânico Satânico de quem é contemporânea e assim criticada por alguns satanistas como um desvio, trata-se apenas de uma outra escola, com seu próprio valor. É difícil não fazer uma comparação com a história do rock: a América trouxe Elvis e LaVey ao mundo e a Inglaterra revidou com Beatles e Satanismo Tradicional. A invasão inglesa no Satanismo é sem igual não porque  os Deuses Obscuros existam como seres sencientes, nem porque o grupo resgatou tradições antigas e nem mesmo porque estão abrindo os “antigos portais”. Mas por um fato muito mais simples: Pela primeira vez o Satanismo deixou de ser uma visão individual e passou a ser um projeto de mundo.

Morbitvs Vividus

Templo do Vampiro


Aparentemente nem só de Satanismo vive Satã. Com a cisão da Church of Satan em 1975 e o sucesso dos grupos que começaram a surgir, o Satanismo deixou de ser apenas uma religião sinistra e abriu portas para algo até então aparentemente inédito. Uma nova estética religiosa. Não demorou muito para que novas crenças começassem a surgir, trazendo consigo não apenas a estética desenvolvida por LaVey, mas toda uma filosofia inspirada pelo espírito que ele libertou nos anos 1960.

Um desses grupos que logo ganhou notoriedade entre os ocultistas e simpatizantes do Caminho da Mão Esquerda veio para preencher uma lacuna criada em 1897 por Bram Stoker. Dentro da filosofia satânica original, Satã não passava de um arquétipo, uma figura mitológica, o que não o impedia de interferir de forma bem real em nosso mundo. Bram Stoker popularizou a imagem do vampiro que, tal qual Satã, foi injustiçada por quase um século. O Vampiro surgia como um aristocrata banido, um ser elitizado e marginalizado ao mesmo tempo. Uma criatura de magia, mas que não se preocupava em fazer o bem para outros. Uma criatura de trevas, poder, ódio. Assim não é surpresa que a inspiração de LaVey tocasse também este ser.

O Temple of the Vampire (Templo do Vampiro) não é propriamente uma organização satanista, mas sua história e filosofia esta tão intimamente ligadas com as organizações citadas anteriormente neste livro, que fica difícil não mencioná-la nesta história. Não existe uma filiação direta entre o Temple of the Vampire e a Church of Satan, mas as duas organizações desfrutam de apreciação pública mútua. Ambas permitem que seus membros participem de ambosos grupos - e o alto escalão, incluindo seus fundadores de fato participam. Entretanto pertencer a um dos grupos não significa necessariamente que a pessoa também participa, ou mesmo tem simpatia, com o outro. Tanto é que os dois grupos pedem que seus membros evitem mencionar juntas a Church of Satan e o Temple of Vampire para evitar que qualquer associação seja implicada diretamente por quem é de fora. 
Para entender a influência do Satanismo neste grupo, basta dar uma rápida lida n'O Credo do Vampiro, um dos textos base do Temple:

"Eu sou um Vampiro.

Eu adoro o meu ego e eu adoro minha vida, pois sou o único Deus que existe.

Eu tenho orgulho de ser um animal predador e eu honro meus instintos animais.

Eu exalto minha mente racional e não acredito que isso seja um desafio da razão.

Eu reconheço a diferença entre o mundo real e a fantasia.

Eu reconheço a fato de que a sobrevivência é a lei mais forte.

Eu reconheço que os Poderes da Escuridão escondem leis naturais através das quais eu posso fazer minha magia.

Eu sei que minhas crenças no ritual são uma fantasia, mas a magia é real e eu respeito e reconheço os resultados da minha magia.

Eu percebo que não há céu como não há inferno e vejo a morte como destruidora da vida.

Portanto eu tirarei o máximo proveito da vida aqui e agora.

Eu sou um Vampiro.

Curve-se diante de mim. "

Muitos Satanistas afirmam cinicamente que basta que você troque a palavra "Vampiro" por "Satanista" e você tem uma nova versão das Declarações Satânicas de LaVey. Mas isso não quer dizer que o Temple of Vampire seja uma versão cosplay da Church of Satan.

Perceba que o Templo do Vampiro foi fundado em 1989 e assim suponho que, por todo contexto do Pânico Satânico, seus fundadores resolveram se afastar do rótulo do diabo e como uma serpente, trocar de pele para tentar algumas coisas novas. Os livros de Anne Rice estavam na moda e o ser vampírico, elegante e bestial, predador e elitista, habitante das trevas e acima da humanidade parecia ser o modelo perfeito. É sintomático o fato de que nesta mesma época Zeena LaVey, aquela filhinha do LaVey que passou pelo batismo satânico, e Nikolas Schreck , seu esposo, fundaram a "Werewolf Order" (Ordem do Lobisomem) explorando as implicações da besta interior e dos escritos da licantropia dentro do satanismo.

O Temple of the Vampire foi então legalmente registrado em Washington por George C. Smith, também conhecido como "Nemo" ou "Lucas Martel". E possui desde então uma série de publicações internas encabeçada pela "Biblia Vampírica". Um fato pouco conhecido, e que novamente justifica a presença do Templo neste livro, é que George Smith era membro do Templo de Set e grande parte do conteúdo de suas bíblias foi originalmente escrito nos três anos em que ele atuava no grupo criado por Michael Aquino.

Smith conseguiu unir o satanismo de LaVey com o misticismo encontrado dentro do Templo de Set. Ele uniu a filosofia materialista com uma série de ideias esotéricas orientais como a Força Vital (Ki), yoga, meditação e embrulhou tudo isso com referências as mitologias assírias e babilônicas. Sua saída para resolver as óbvias contradições que surgiriam entre o objetivismo laveyano e o esoterismo setiano não poderia ser mais criativa. Ele postulou que todo Vampiro possuía dois lados: o Lado Diurno, materialista e o Lado Noturno, voltado as práticas mágicas. A postura é uma formalização e ampliação do próprio conselho de Anton LaVey, que ensinou na Bíblia Satânica que a câmara ritual era o local onde a linha entre fantasia e realidade devia ser apagada.

A organização criada por Nemo também inaugurou uma moda que se repetiria em quase todas as organizações do gênero dai para frente. A alegação de que seus rituais e doutrinas são muito, muito antigos. Os membros do Templo do Vampiro dizem praticar uma religião antiquíssima que foi conhecida com vários nomes no decorrer dos séculos: Ordem do Dragão, Templo do Dragão, Templo da Deusa Dragão Vampírica Tiamat, etc..

Inicialmente qualquer pessoa que comprasse a "Biblia Vampírica" podia ser aceita como parte do grupo. Tempos depois criou-se a opção de inscrição de membro ativo na qual por uma quantia determinada o sócio passava a receber alguns materiais adicionais e seguia uma escalada de cinco graus: O Vampiro Iniciado, o Predador, o Sacerdote, o Feiticeiro e finalmente, o Adepto. Cada grau possui seus próprios ensinamentos, materiais e objetivos, sendo que este tipo de organização é um dos legados do Templo do Vampiro com relação ao Templo de Set. Acima de todos estes graus impera o círculo interno da ordem conhecido como "Ordem de Prometeus" composto basicamente pelos sócios fundadores.

Por fim, não se deve confundir o Vampirismo do grupo com os Vampíros Psíquicos criticados por LaVey na Biblia Satânica. De fato em muitos aspectos trata-sem de duas coisas quase que contrárias uma a outra. O vampiro descrito no livro de lúcifer é um dependente emocional enquanto que o vampiro da TOV é um caçador. Pessoalmente, este autor considera o Vampirismo da Temple of the Vampire como uma modalidade de Satanismo. O nome é outro, a  estética é diferente e ele possui uma metafísica própria que nenhum outro grupo tem, mas mesmo assim sua origem e sua essência estão absolutamente manchadas com a cor do sangue de LaVey.

Morbitvs Vividvs

O Pânico Satânico



Chegaram os anos 80 e o satanismo era um fato. Não era mais uma lenda como nos anos 50, uma excentricidade como nos anos 60, nem moda da vez como na década de 70. Era algo real que crescia, já havia mais de uma igreja satânica e era algo levado a sério por uma porção de pessoas. Na visão dos conservadores da época, era algo a ser combatido. Além disso as organizões satânicas começaram a se multiplicar e sem uma responsabilidade central era inevitável que logo aparecessem os estúpidos. Da indignação reacionária e da estupidez coletiva nasceu a década do Pânico Satânico.

A onda de medo foi iniciada com o livro “Michelle Remembers” de Lawrence Pazder, no qual por meio de seções de hipnose Michelle relatou ao autor os mais sórdidos detalhes de suas experiências com os satanistas. No livro ela contou como tinha sido torturada aos cinco anos por um culto satânico que quase a matou de fome, vomitaram nela, a estupraram e a eletrocutaram. No final, a largaram dentro de um túmulo onde jogaram animais mortos. Após um ano, eles a deixaram ir, e ela "esqueceu" tudo até que começaram suas sessões de hipnose vinte e dois anos depois.

O chamado Ritual de Abuso Satânico, ganhou as manchetes e se tornou uma idéia popular. Descrevia atos como banhar-se com sangue dos mortos, comer fezes com a familia, sacrificar crianças e animais pequenos e toda espécie de atos repulsivos. As Memórias de Michelle diziam que os adoradores do diabo haviam construído uma rede internacional dedicada ao mal, ao abuso infantil, crime e imoralidade. O problema é que em paralelo a isso realmente existia uma rede internacional de satanistas.

O Pânico Satânico tomou conta da opinião pública e uma nova e outra hipócrita caça as bruxas tomou o ocidente. Basicamente os satanista passaram a ser acusados das mesmas coisas os cristãos dos primeiros séculos eram acusados de fazer pela Roma Pagã e que os Judeus foram acusados por pelos cristãos medievais. De fato, muitos outros grupos já foram vítimas da histeria popular infundada inclusive maçons, protestantes, pagãos e  comunistas. Nos anos 80, mais uma vez “pessoas más queriam dominar o mundo” e as mesmas mentiras frutos do medo do desconhecido voltavam a tona em uma nova forma que encontrava no satanista modernos seu mais perfeito bode expiatório.

As acusações começaram a se multiplicar sempre sem provas, frutos de suspeitas seções de regressão. Não é nem preciso dizer que o pânico satânico foi alimentado principalmente pelos cristãos evangélicos conservadores, mas o fato é que toda a sociedade se mobilizou no assunto, mostrando o quanto a humanidade ainda é refém do status quo religioso. Médicos e figuras políticas entraram no jogo e alguns casos tornaram-se assunto de investigações policiais e casos de júri.

Não demorou para que estas acusações doentias encontrassem mentes não mais saudáveis criando uma espécie de circulo vicioso.

Richard Ramirez membro da Church of Satan de mente fraca e estimulado por este cenário em que vivia tornou-se um serial killer que matava, estuprava e roubava em nome do diabo. Frequentemente mutilava os corpos, e deixava pentagramas desenhados no local do crime. Pensava que o poder de Satã iria protegê-lo.

Como qualquer outra lenda urbana as acusações do Pânico Satanico contra o satanismo aos poucos cansaram o publico e sairam de moda, mas não antes de causar diversos danos a reputação e vida de diversos indivíduos e deixar novamente a lição histórica do que a estupidez pode fazer quando se torna um conceito popular. Foi nesta época complicada que algumas poucas pessoas aproveitaram a má fama do satanismo para ganharem um pouco de destaque. E isso aconteceu não só nos diversos pastores cristãos “especialistas” em satanismo como dentro do próprio satanismo moderno. Alguns autores desenvolveram formas de satanismo que se distinguem ela afirmação da sua necessidade de ser sinistra e "má". Foi mais ou menos neste momento que nasceram algumas organizações satânicas como a Church of Lucifer, de quem falaremos mais na segunda parte do livro, a Order of Nine Angles, que abordaremos no capítulo seguinte e a marginalmente satânica Temple of the Vampire, que veremos mais para frente.

1996

O milénio virou rev Mansonconhecendo uma geração que nasceu quando a Church of Satan já era história e que passaou a infância vendo o diabo como personagens de desenho animado. Depois da grande deflagração satânica de LaVey, a formalidade iniciática trazida pelo Templo de Set e o Zeitgeist da Order of Nine Angles os satanistas, e o mundo, se encontraram em uma situação completamente nova. Estas organizações continuaram a fazendo um trabalho interessante, surgiram algumas outras e existem boatos de uma eminente reorganização da Church of Satan. Mas esta época apresentou um contexto novo e o desenvolvimento do satanismo prosseguiu de uma maneira diferente desde então.

Em especial houve a necessidade de se aprender a lidar com a nova realidade apresentada pela ascensão da Internet e isso trouxe ameaças e oportunidades para o satanismo. A parte boa é que desde então é possível para qualquer pessoa interessada ter acesso a textos, livros e rituais que antigamente lhe custariam muito mais esforço, tempo e dinheiro. Quem nasceu depois desta época não faz idéia de como era difícil encontrar informações antes dos anos noventa. Graças a isso vivemos uma liberdade criativa muito maior e a evolução acontece de forma múltipla e dinâmica.

Os sites de satanismos se multiplicaram, muitos sem qualquer ligação com os grupos já mencionados.  A consequência imediata é que houve uma mescla maior entre o satanismo e outras escolas de pensamento, com destaque para a magia do caos. Com isso a postura com relação aos rituais e prática mágica dos satanistas de então se tornaram muito mais diversificadas. Os indivíduos que se destacaram nesta fase nova eram tão diferentes de seus antecessores como diferentes entre si, podemos citar entre eles Michael W. Ford, E.A Koetting, Matt Paradise e mesmo Donalt Tyson entre outros. Alguns destes se dizem defensores do único satanismo verdadeiro, outros fogem do título de satanistas mas todos são indiscutivelmente herdeiros de LaVey ou no mínimo crias diversas da Era Satânica.

A parte ruim desta facilidade de acesso ao conhecimento é que a internet e mais recentemente as redes sociais criaram um ambiente onde é muito fácil existir algo que chamo de 'satanistas não-praticantes'. Pessoas que cultivam uma imagem satânica mas que são na verdade fracassados. Desde esta década tornou-se cada vez mais fácil encontrar alguém que se diga satanista mas muito mais difícil encontrar um de verdade. Acredito que isso aconteça porque sem um grupo real presencial, sem convívio, reuniões, contato social, etc.. é muito mais fácil falar sobre satanismo do que vivê-lo.

Não está claro como essa geração vai resolver este problema. Talvez a própria tecnologia forneça alguma solução. Talvez isso nem mesmo seja realmente um problema pois pode servir como uma espécie de peneira para separar os indivíduos realmente notáveis da massa que pensa que é elite. O modelo dos pequenos grupos satânicos que usem, mas não se limitem a, o mundo digital ou o modelo da criptocracia satânica me parecem ser promissores. Outra questão pendente e que uma hora ou outra terá que ser encarada por alguém é a consequência da enxurrada de influências esotéricas no satanismo atual, que sem dúvida fariam LaVey e mesmo Aquino levantar uma sobrancelha. A diversidade é realmente interessante, mas metafísica demais e resultados de menos é um convite ao devaneio. A falta de foco e o desejo de parecer místico demais pode levar os satanistas do amanhã por terrenos pantanosos.Ou

Outro aspecto do satanismo anos noventa foi o que LaVey chamava de "Cultura do Apocalipse." Se a geração que nasceu nos anos 50 cresceu sob a sombra de uma guerra atômica e assimilou a possibilidade de uma iminente destruição do planeta. A geração dos anos 60 uniu esta inevitabilidade com nossa destruição pelo descontrolado crescimento populacional. Os anos 70 compreendeu o desastre ecológico para o qual caminhamos. Os anos 80 conheceu uma nova ameaça global desta vez sob a forma de crises políticas globais. Os anos 90 trouxeram a profileração da AIDS e a ameaça de outras pandemias. Os anos 2000 apresentaram ao mundo a ameaça terrorista e o fantasma do colapso financeiro mundial. Ou seja, se hoje na década de 10's existe algo com que estamos acostumaos, este algo é o Fim do Mundo.

Mas muitas pessoas ainda não conseguem aceitar isso: o mundo pode acabar a qualquer instante, ou muito mais provável, você pode morrer hoje. Após serem decepcionadas pelas fúteis promessas da cristandade algumas pessoas buscaram conforto no misticismo pagão ou em livros de auto-ajuda. Mas os satanistas, especialmente desde os anos 90, queriam simplesmente a liberdade de ser deixados em paz para criarem suas próprias realidades.

Disse LaVey já em idade avançada: “Esta é uma característica que eu divido com a nova geração de satanistas que poderia ser melhor rotulada como a Cultura do Apocalipse. Não que eles acreditem no apocalipse Bíblico, a última batalha entre o bem e o mal, mas justamente o contrário. Uma urgência, uma necessidade de pararmos de nos lamentar para que se o mundo terminar a amanhã nó saberemos que vivemos o dia de hoje. Basicamente, tocamos harpa enquanto Roma pega fogo."

Ao contrário do que pensavam os histéricos do Pânico Satânico da década de 80, os satanistas não estavam preocupados em dominar o mundo. Eles queriam sim ser senhores de seus próprios destinos. Não havia uma conspiração secreta, mas uma revolução invisível. Especialmente LaVey jamais pensou que o satanismo se tornaria uma religião dominante, mas tinha certeza de que ela infectaria e transformaria o mundo todo. E temos de concordar com ele quando notamos que os grandes avanços na história da humanidade não foram feitos no marchar dos milhares mas nos avanços dos poucos. O progresso é sempre feito por uma elite. E se deve haver um esforço por parte de alguém da massa, o esforço deve ser o de se elitizar para se encontrar com os seus e assim florescer.

É por isso que em seus últimos anos LaVey retomou o sistema de grottos, desta vez sem qualquer interferência pesada e estimulando o contato próximo entre os membros locais, a criação de círculos internos e uma independência maior quanto a sede na Califórnia. Um exemplo muito bem sucedido deste novo modelo de grottos resultou na Associação Portuguesa de Satanismo, que produziu um material de extrema qualidade nos anos seguintes. LaVey entendeu que assim como foi com ele nos anos 60, a mais satânica de todas as organizações é simplesmente o grupo de amigos. Observando o crescimento acelerado de igrejas dissidentes e do crescente ecletismo LaVey notou que era preciso mesmo impulsionar a criação de pequenos grupos de elites satânicas pensantes e independentes por toda parte. Mais era tarde demais, ele já estava velho e cansado e os satanistas já estavam fazendo isso por conta própria.

É significativo e simbólico que que LaVey tenha morrido nos anos 90. Pouco após sua morte foi lançado o último livro “Satan Speaks” que completaria o cânon laveyano do satanismo moderno. Este livro é essencialmente diferente dos demais, aqui LaVey já estava consagrado como satanista e podia se dar ao luxo de tratar de outros assuntos de seu interesse como questão judaica, o poder da mídia, o porte de armas, a morte da moda e outras particularidades. Anton vivia na pela a necessidade de individualização que cada satanista deveria viver. Afinal de contas não faria muito sentido se uma religião baseada no individuo acabasse criando um exército de pessoas esteticamente, e ideologicamente iguais. O livro é aberto com um prefácio escrito por Marylin Manson.

Marylin Manson foi em seu tempo um exemplo perfeito deste novo momento do satanismo onde o Indivíduo Destacado e a Cultura do Apocalipse se encontram. Quando LaVey morreu em 1997 e sua igreja demorou para revelar alguém com uma liderança e criatividade a altura e Manson preencheu este vácuo tornando-se o porta voz desta nova geração de satanistas, muito mais do que qualquer Magister de qualquer outra ordem. Marylin era ele mesmo um membro e reverendo da Church of Satan mas nunca se prendeu a isso refletindo a sua própria maneira este novo momento da historia do satanismo que oscilava entre o sensacionalismo e o elitismo. Quanto a isso basta ver sua produção artística como "1996" e demais músicas da época. O satanismo teve a sorte de transformar o pânico satânico em entretenimento para as massas e assim poderia viver satanicamente com tranquilidade para trabalhar pelo advento da Era de Satã ou para a próxima sessão de massagem.

As músicas de Mason foram apreciadas por milhares de pessoas acéfalas que não se davam o trabalho de prestar atenção em suas letras e por algumas pessoas de maior sensatez que justamente por entender suas letras aprenderam a não levar o espetáculo tão a sério. Manson foi um homem do shown bussiness e claramente tratou seus entrevistadores de acordo com a inteligência que demonstram ter. Exatamente como LaVey vendeu para as massas a chance de se elevarem, ou de pelo menos terem um pouco de diversão. E convenhamos se não teve a mesma profundidade literária de LaVey ao menos tem um melhor talento musical. Novos tempos exigiam novas estratégias.

O tempo de Manson já passou e hoje em dia embora o Diabo não esteja mais tão na moda, os satanistas conseguem viver suas vidas em paz. É verdade que ainda existem mesmo nas Américas grupos fundamentalistas de diversas religiões que preferem viver suas vidas segundo tradições orais de dois milênios atrás ou de mitos da era do bronze. Mas o satanista não é contra a existência de grupos fundamentalistas, ele só não quer ser obrigado a fazer parte deles. Cada um deve ser livre para viver da maneira que quiser, e isso está bem claro na política de “Total Environment” proposta por LaVey nos seus últimos anos.

De certa forma o ocidente já foi conquistado por Satã. Mas no cenário global observamos a polarização do antigo monoteísmo com os valores ocidentais. Em termos de mundo, embora hoje os países do ocidente sejam um ótimo lugar para o satanismo existe a sombra do crescimento do neo-pentecostalismo que trás novamente a tona as implicações políticas de uma maioria religiosa. Mas a maior ameaça nesse sentido vem do oriente. Internacionalmente o choque das civilizações é algo que não pode ser ignorado. O Islamismo é aceito liberalmente no ocidente enquanto engessa suas teocracias no oriente. Pouco depois do final dos noventa, em 2001 essa tensão estourou de vez e até hoje não sabemos como e quando isso vai acabar.

Em poucas palavras hoje temos duas alternativas: ou levamos sutilmente o inferno para o resto do mundo ou teremos impostas novamente as antigas restrições das quais já tínhamos nos livrado. Maomé nos aguarde, pois Moisés e Cristo já foram contaminados.

Toda essa situação nova foi bem própria da virada do milênio. As quatro características principais deste cenário para resumir são: Um enfoque do satanismo na pratica individual, O impacto da Internet, a Cultura do Apocalipse e a polarização global do liberalismo ocidental contra o modelo monoteísta encabeçado pelo islamismo. Como estes fatores vão se desenvolver e influenciar o satanismo do futuro é algo difícil de prever, mas eles já tiveram seu primeiro grande filhote, a Corrente 218, que será tratada no próximo capítulo.

A Corrente 218

Em um dos primeiros capítulos deste livro, afirmei que LaVey não se encontrava apenas no lugar certo, na hora certa, quando abriu os portões para que a chama infernal purgasse a hipocrisia da Terra. Ele também era a pessoa certa.

Acredito não exagerar quando afirmo que LaVey não apenas aproveitou uma onda, mas soube surfar nela. Cada passo que dava lhe mostrava adiante novos passos que podia dar, em relação ao Satanismo. Com o tempo sua criatividade parece ter se acalmado e hoje não é exagero afirmar que a Church of Satan se tornou uma organização pública de eventos satânicos. Seus novos membros criaram novos materiais, notáveis, mas de maneira mais reclusa. Se antes era obrigatório se ter uma versão, nem que fosse marginal, da Bíblia de LaVey, hoje poucos sabem quem são os líderes da Igreja de Satã, ou qual material ela anda publicando.

Mas isto não é dizer que a Church se desviou de seu caminho ou que perdeu a força. LaVey sempre deixou claro que sua visão de Satanismo era uma visão materialista, terrena e hedonista. Não é de se admirar que muitos Satanistas mais espiritualizados acabassem buscando, então, novas fontes de conhecimento. O Templo de Set foi uma delas, mas nem de longe a última ou a mais extrema.

A chamada corrente 218 ou corrente anticósmica é uma das mais recentes expressões do Satanismo contemporâneo. Não sabemos ainda qual será seu impacto no futuro mas achei por bem registrar este novo impulso no final do livro. Parte de sua ascensão se deu graças a banda Dissection de quem falaremos em seguida. É verdade que a relação do Satanismo com o metal não é algo recente. Desde os anos 60 esta temática é usada, mas diga-se de passagem nunca foi realmente abraçada pela Church of Satan - dado que LaVey era mais adepto do jazz e Peter Gilmore sempre tendeu para a música clássica. Hoje contudo parece que o Black Metal finalmente encontrou sua própria filosofia e foi muito além da estética.

Apesar de falar de deuses antiquíssimos e realidades ancestrais - talvez heranças diretas da ancestralidade clamada por ordens como a ONA ou o Temple of the Vampire - as primeiras menções da corrente 218 são bem recentes e ocorrem pouco antes da virada do último milênio. Ela provavelmente foi fruto da era da internet, pois é formada pelo conhecimento e influencia de várias escolas sobre o Satanismo, sendo um verdadeiro sincretismo do caminho da mão esquerda. Meu irmão em Satã, Pharzhup resumiu muito bem este ponto em um artigo dedicado ao assunto em seu zine Lucifer Luciferax:

"A fundamentação da corrente se dá a partir de um vasto sincretismo de ramos e vertentes do Caminho da Mão Esquerda. Tal sincretismo busca sintetizar a essência de cada aspecto que compõe a heterogeneidade e aplicá-la na consecução das proposições fundamentais. Dentre as diversas tradições que coadunam forças que se combinam na Corrente 218 citamos: a magia do Caos, o Satanismo (Tradicional e Moderno), o Luciferianismo (Tradicional e Moderno), a tradição Draconiana, a tradição Tifoniana, a Bruxaria Sabática, a Qabalah Qliphótica, Thelema, o Tantra, a Quimbanda, o Vodu e cultos ligados à Morte."

Embora essa definição seja minunciosa não será difícil encontrar quem discorde dela, especialmente quanto à influência da Thelema e do Satanismo Moderno. Creio que esta influência seja apenas histórica, para não dizer meramente cronológica. Quanto à Thelema, é bem clara a influência de Kenneth Grant mas não do que veio antes dele. Quanto ao Satanismo Moderno, a maioria dos adeptos afirmará claramente um completo repúdio à Church of Satan. A razão é simples; o Satanismo do LaVey envolve uma exaltação dos prazeres da carne enquanto que a Corrente 218 advoga sua aniquilação em prol de realidades superiores. Para os satanistas anti-cósmicos o mundo não é uma festa mas uma prisão; e eles estão em rebelião.

A origem deste tipo de Satanismo pode ser traçada a partir da criação, na Suécia, da Ordem Misantrópica Luciferiana (MLO) em 1995. A base dos ensinamentos da MLO é a Caosofia, a crença de que o Caos é uma realidade pan-dimensional, com uma quantidade infinita de realidades em contraposição ao Cosmos, que tem apenas uma realidade, três dimensões espaciais e um tempo linear. É entendimento do grupo que o verdadeiro Satanismo não pode pertencer à sociedade moderna, que tem como base modelos únicos e fixos do que é ou não real. Podemos dizer que a MLO trouxe uma espécie de cabala satânica. Essa idéia não é nova e já tinha sido levantada pelo pessoal do Templo de Set, mas não com a mesma profundidade.

Contudo foi apenas em 2002 que foi publicado o Liber Azerate, contendo as bases destes ensinamentos. Escrito por Frater Nemidial, o grande objetivo do sistema proposto neste livro, e nas obras que o seguiram, é a liberação da 'Chama Negra' através da transcendência das limitações do espaço e tempo que formam o Cosmos. Dai o nome anti-cósmico. Esta Chama Negra é o "Eu Superior", que vai muito além do ego vulgar do Satanismo primevo.

O processo de transcedência anti-cósmica passa pelo despertar, fortalecimento e ascensão da Chama Negra, ou Dragão Negro, como as vezes é chamado, que jaz dormente nas almas dos fortes. Essa ascensão por sua vez só pode ser alcançada por meio da obtenção da sabedoria tal como retratada pela tocha de Lúcifer, o fogo de Prometeus, o presente de Samyaza, o Chama Negra de Ahriman, no Veneno de Taninsam, no Fogo sem fumaça de Tifon, etc.. Todos estes deuses anti-cósmicos são reconhecidos como aspectos de uma realidade muito mais profunda. Azerate é, por fim o nome oculto dos 11 deuses anti-cósmicos citados neste livro (Moloch, Beelzebuth, Lucifuge Rofocale, Astaroth, Asmodeus, Belfegor, Baal, Adramelech, Lilith, Naamah and Satan.) O valor numérico de Azerate" (Azrat) é 218 que dá título a corrente. 2+1+8=11, deve-se dizer representa todos os poderes anti-cósmicos presentes em todas as culturas antigas que combatem a tirania da ordem cósmica representada pelo número 10

E aqui apresenta-se, então, um ponto interessante. Obviamente desde que se criou a idéia de um "deus" das trevas - seja lá qual o nome que lhe deram - ele angariou seus seguidores. Agora a realidade de tal criatura, como a de qualquer outro Deus, só pode ser comprovada por seus seguidores. LaVey, na década de 1960, criou uma religião satânica associando Satã à mente e à natureza  humana. A primeira religião satânica afirmava que Satã era um reflexo de nosso sistema nervoso, que se não fosse aceito nos destruiria. Um dos cuidados de LaVey foi o de sempre deixar a metafísica de fora de suas crenças públicas - há os que afirmam que apesar de não crer na existência objetiva de uma entidade Satã, LaVey mantinha em uma caixa forte, dentro da Black House, um contrato firmado onde oferecia a alma a Satã. Foi uma religião cética, materialista e cínicia.

Agora suponha que Satã realmente exista. Qual seria a maneira que ele escolheria para criar um culto em sua própria homenagem, caso nos deixemos levar pelo pressuposto de que ele era, e é, uma das criaturas mais astutas da criação? A religião de LaVey abriu a porta para a criação de vertentes do Satanismo jamais imaginadas antes, nem mesmo pelos histéricos cristãos medievais. O esoterismo satânico que se desenvolveu daquele primeiro Satanismo californiano, se tornou uma das correntes mais brutais, místicas e extremas - como o próprio Satã.

O quão diferente esse caminho é do Satanismo de LaVey. Ambos reconhecem que o mundo material possui delícias e tragédias mas para a Church Of Satan o mundo é algo a ser gerenciado enquanto que para a corrente anti-cósmica o mundo é uma espécie de prisão da qual apenas os mais fortes conseguem se libertar. A corrente entretanto permaneceu em uma gestação sinistra, restrita ao MLO até meados de 2006, quando finalmente veio a público. O Dissection lançou o album Reinkaos, com letras de co-autoria do próprio Frater Nemidial. Este álbum tinha, de fato, o objetivo de trazer os ensinamentos da MLO para quem quisesse ter acesso a eles, e foi justamente o que aconteceu.

O álbum fala da sabedoria que não é meramente um conhecimento intelectual, mas fruto da experiência e do contato direto com os poderes obscuros. A Corrente 218 entende que para abrir os olhos do Dragão Cego, deve aniquilar a prisão ilusória que impede a ilimitada e eterna expressão de si mesmo. A meta dos seus adeptos é portanto fazer contato com estes poderes representados pelo Deuses Obscuros por meio de um ardoroso trabalho.

De fato não há nada de inédito nisto. Esta crença e esses métodos são bem próximos dos propostos pela Order of Nine Angles. Estes trabalho de superação cósmica podem envolver graves riscos físicos e mentais e colocar a própria vida em perigo, mas servem para fortalecer o satanista e tornar sua própria Chama Negra mais forte e acelerar a sua evolução anti-cósmica na conquista da gnosis negra.

Ai a filosofia anti-cósmica chega em uma aparente contradição. Como podemos nos libertar de uma prisão se nós somos parte dela? Se esta realidade, esta vida é uma ilusão, como podemos abrir os olhos?

O quão extremo esta resposta pode ser ficou claro quando, no mesmo ano do lançamento de Reinkaos, o vocalista e fundador do Dissection, Jon Nödtveidt, mostrou a porta de saída da prisão, se suicidando dentro de um círculo de velas com uma arma na mão e o Liber Azerate na outra.

Abaixo, a nota oficial divulgada pelos outros membros da banda:

"Jon Nödtveidt era um homem que vivia sua vida de acordo com suas convicções e vontade verdadeira. Poucos dias atrás, ele decidiu terminar com a sua vida por suas próprias mãos. Como um verdadeiro Satanista ele conduziu a sua vida de sua própria maneira e terminou quando sentiu que tinha cumprido o seu próprio destino. Nem todos terão a compreensão ou aceitação do seu trajeto pessoal nesta vida e além, mas todos devem respeitar a sua escolha.

“Todos nós, que se encontraram com ele nos últimos dias, podem assegurar que ele estava mais focado, mais feliz e mais forte do que nunca. É de nossa convicção, que ele deixou este mundo de mentiras com um risada de desprezo, sabendo que tinha cumprido tudo que se tinha proposto para que ele mesmo realizasse. O espaço vazio que deixa para atrás será preenchido com a essência obscura que manifestou através da sua vida e o trabalho com magia negra. Seu legado e o Fogo Luciferiano vão permanecer vivos através daqueles poucos que o conheceram de verdade e apreciaram seu trabalho pelo que realmente foi e ainda é. Como o objetivo de nosso irmão na vida e morte nunca foi o de "Descansar em Paz", desejamos a ele, em vez disso, vitórias em todas as batalhas que virão, até que o Destino Acósmico esteja completo.

" Pela glória dos Deuses Obscuros e o Caos Furioso!”
"218"

Se ele está no Inferno, como acreditam os cristãos, se apenas virou pó como acreditam os layeanos, ou se está livre para viver sem as amarras deste mundo como acreditam os anti-cósmicos é, de fato, uma questão de crença que não pode ser respondida. Mas independente de qualquer coisa isso levanta a questão: Até onde você quer chegar com o Satanismo? Até onde está dispostos a ir para atingir o ápice da sua evolução física, mental e espiritual? Até onde sabemos para onde estamos indo? Que preço estamos dispostos a pagar pela vida ou pela ilusão, como os anti cósmicos colocam, que levamos? Estas são algumas questões desafiadoras feitas pela corrente 218, e eles oferecem a versão deles de respostas para elas.

Crenças à parte, é inegável que se este foi um sacrifício, ele teve resultados. Com o lançamento do Reinkaose e o suicídio ritual do líder da banda, a Corrente 218 explodiu como contra-cultura e desde então podemos falar realmente sobre a existência de uma corrente cao-gnostica-satânica.

Conforme a filosofia e prática evoluiu (novamente temos aqui o Satanismo como algo eternamente em construção, um organismo que está se desenvolvendo e crescendo) a Ordem Misantrópica Luciferiana passou a se chamar Temple of the Black Light e de certa forma abriu a corrente 218 para o resto do mundo.

Com a mudança de nome o grupo deixou de ser tão fechado e, embora ainda bastante seletivo na entrada de membros, passou a abrir suas práticas e  encorajar as pessoas e outros grupos a conhecerem a praticarem seu sistema. Graças a esta abertura, a corrente 218 tornou-se, de certa forma, maior que o próprio grupo e ainda mais mutante e difícil de ser definida. Recentemente observa-se uma tendência a abraçar influências latino-americanas como a Quimbanda e o culto de San La Muerte.

Na declaração da ordem, podiamos ler que as principais influências da OML eram o Setianismo Draconiano, O Caos-Gnosticismo Sumeriano e a (Anti) Kabbala Kliffotica. Em termos práticos percebe-se que as influências mais fortes nesta corrente são as de Kenneth Grant e Andrew Chumbley e entre os adeptos nota-se até mesmo uma rejeição ao Satanismo LaVeyano tido como superficial. A Corrente Anti-Cósmica entende que o Satanismo ateísta, que defende apenas uma inofensiva adoração do ego, é algo que deve ser superado por ser fraco, pacifista e acomodado demais. Sinceramente creio que LaVey, se vivo, certamente também teria suas críticas contra eles, em especial pelo excesso de mistificações e pelo desprezo aos confortos e prazeres do mundo material. Seja como for é muito bom para o movimento que sua própria base seja alvo de críticas, pois isso o refinará ainda mais.

Freud já ensinava que "matar os pais" é algo próprio, se não necessário, do amadurecimento. Isso não quer dizer que você deve metralhar sua mãe ou esfaquear seu pai mas sim que deve tornar-se independente, deve aprender a se virar sozinho, pensar por si próprio e tomar responsabilidade por seus próprios atos. Assim é saudável ir intelectualmente além de LaVey e todo bom satanista faz isso. Mas com isso voltamos a velha questão da "Negligência dos ortodoxos passados." presente nos Nove Pecados Satânicos:

"Esteja alerta que esta é uma das chaves de lavagem cerebral,  aceitar algo como "novo" e "diferente" quando, na realidade, é algo que era outrora amplamente aceito mas agora é apresentado numa nova roupagem. Esperamos delirar com a genialidade do "criador" e nos esquecemos do original. Isto é feito para uma sociedade alienada."

Por um lado isso nos lembra que a própria filosofia da Church of Satan tinha bases muito mais antigas e profundas do que se imagina num primeiro momento, como aquelas citadas no prólogo, e que o Satanismo não surgiu do nada de uma hora para outra. Como mencionei no início deste livro ele evoluiu. Mas uma outra leitura poderia ser feita hoje sobre esse pecado satânico pois dificilmente existiria uma Corrente 218 atualmente se Anton LaVey não tivesse raspado a careca e aberto o caminho algumas décadas atrás. Ou talvez se existisse fossem muito diferente, e acredito, bem menos satânica.

Morbitvs Vividvs

O Templo de Set


Quando LaVey fechou as portas da Church of Satan para o grande público duas coisas aconteceram. Muitas pessoas que estavam de fora não puderam entrar, e algumas pessoas que estavam do lado de dentro quiseram sair.

Alguns membros que tinham uma visão menos materialista do Satanismo, ou que desejavam dar uma ênfase maior ao seu lado ritualístico e metafísico se viram de repente sem um "papa". E um grande público que desejava conhecer Satã não possuíam mais um contato direto com o inferno. Esta fome, por um lado, unida à vontade de comer, do outro, deu origem a um novo cardápio satânico, muito mais variado e curioso.

Este processo começou logo em 1975, quando os membros

do Grotto de Louisville, Kentucky, reagiram à elitização da Church of Satan com a formação de uma nova organização, chamada Temple of Set (Templo de Set). Essa rebelião foi liderada por Michael Aquino, editor do periódico Cloven Roof, responsável pelo desenvolvimento de muito material - tanto filosófico quanto mágico da Church - e tenente-coronel do Exército dos Estados Unidos. Aquino e LavEy eram amigos pessoais e trocaram cartas por muitos anos que poderiam ser facilmente reunidas e publicadas como um excelente livro sobre satanismo.

Aquino liderava um grotto chamado Temple of Set e assim o novo grupo teria para sempre seu passado vinculado a Church of Satan, realmente todos os membros iniciais eram da organização fundada por LaVey, mas a partir de então declarou sua independência quanto ao seu futuro e recebeu reconhecimento estadual e federal, bem como isenção de impostos naquele mesmo ano.

Livre das amarras ideológicas LaVeyanas, o Templo de Set foi o primeiro grupo satânico que começou a desenvolver suas próprias ideias de como o Satanismo deveria ser, com a coragem de inclusive criticar alguns aspectos do trabalho prévio de LaVey. Um passo importante para o desenvolvimento da religião satânica já que foi o primeiro conjunto de críticas que o Satanismo recebia vindo não de cristãos ou de religiosos escandalizados com a religião de LaVey, mas de outros satanistas que desejavam mostrar que sua crença era muito mais ampla e profunda do que se supunha. O episódio resultou em alguns avanços e alguns atrasos na filosofia satânica, mas o importante aqui é entender que no Satanismo não existe nenhuma autoridade final.

Mesmo LaVey, seu criador, é questionado e suas obras básicas revistas o tempo todo por aqueles que o seguem. Como uma forma de organizar livres pensadores, esta segunda fase do Satanismo, que aparentemente foi fruto de desentendimentos, fez hoje da religião diabólica uma das filosofias mais diversificadas, dada à existência de infinitos pontos de vistas em sua própria estrutura e a tendência natural de seus membros de questionarem tudo que se assemelhe a um novo dogma. Opiniões diferentes tanto no campo da política, quanto da arte e da filosofia, convivem lado a lado, unidas pelo ideal da individualidade física, mental e filosófica.

O Templo de Set refletiu muito bem esta independência quando comparado com a Church of Satan. Talvez aquele que tenha sido o avanço mais ousado do Templo de Set, foi a afirmação de que Satã não era apenas um símbolo ou um arquétipo, mas uma entidade real e a incorporação da evolução espiritual juntamente com a física - mas sem nunca dar mais peso ao imaterial do que ao material. Esse posicionamento já podia ser vinslumbrado alguns anos antes quando Aquino, na época sacerdote da organização de LaVey., escreveu o Diabolicon. A verdade é que a compreensão do que é Satã varia até mesmo de satanista para satanista. No fundo não importa muito se é uma figura representativa ou uma força cósmica que impulsiona a evolução humana, os seus resultados prático na vida do satanista são os mesmos e é isso que importa.

As bases filosoficas e práticas do Templo podem ser lidas no 'The Crystal Tablet of Set' material fornecido logo no primeiro grau do Templo. A primeira coisa que se percebe é que o Templo de Set definitivamente supera qualquer necessidade de blasfêmia que existia, ainda que residualmente na Church of Satã. Enquanto a organização de LaVey ainda se apoiava em símbolos judaico/cristãos, Aquino se divorciou de qualquer vínculo com a crença, trabalhando com um arquétipo sombrio muito mais primordial, portanto muito anterior à Igreja Cristã, adotando como símbolo máximo a figura do deus egípcio. Assim, o Satã de Aquino não era exatamente o mesmo de LaVey, ele seria a figura que se transformou, com o desenvolvimento do cristianismo, na figura chifruda temida pela igreja. Ao invés de questionar a iconoclastia da igreja, Aquino passou a desenvolver o esoterismo egípcio. Uma forma ao meu ver, de passar de um desenvolvimento baseado no aspecto agressor de Satã para o aspecto de iniciador do mesmo, ele não buscava desconstruir mais nada e sim começar a criar coisas novas.

O coração de "individualismo esclarecido" contudo ainda está lá, e existe uma sincera e organizada forma de promoção e melhoria de si mesmo. Este processo, necessariamente diferente e distinto para cada indivíduo foi chamado dentro do Templo de "Xeper", no sentido de "vir a ser" ou "tonrar-se" ou mais precisamente "Eu venho a ser."

Esta preocupação com a melhoria pessoal - tanto mental quanto espiritual - deixou seu legado para as organizações posteriores. Enquanto o grupo de Anton LaVey seguia apenas uma hierarquização eclesiástica simplificada o grupo de Aquino adotou uma organização iniciática, inspirada nos modelos deixados por grupos ocultistas dos séculos anteriores. A grande importância desta mudança é que, desde então, as organizações satânicas começaram a dar mais ênfase à evolução pessoal do que a um reconhecimento coletivo. Desta forma todo um esquema de iniciação foi criado com a seguinte ordem:

Setiano ( Primeiro Grau)

Adepto ( Segundo Grau)

Sacerdote / Sacerdotiza ( Terceiro Grau)

Magister / Magistra Templi ( Quarto Grau)

Magus / Maga ( Quinto Grau)

Ipsissimus / Ipsissima ( Sexto Grau)

Existia agora um caminho a percorrer. Não bastava ser de família rica ou pagar 100 dólares para ser um sacerdote, como se tornou a realidade decadente da Church of Satan. Muito pelo contrário, suas políticas de adesão eram muito mais rigorosas, ainda hoje menos da metade de todos os candidatos são aceitos e é necessário um período de reconhecimento de dois anos. Em 2007 o grupo contava com apenas cerca de 200 membros que se reúnem em encontros anuais, quase sempre nos Estados Unidos. O sacerdócio da organização criada por Aquino era, e ainda é, restrito a membros de Terceiro Grau e  entre eles é formado um Conselho dos Nove aos moldes da Church of Satan. A liderança de todo o templo é escolhida periodicamente dentro deste Conselho que além de Michael Aquino já pertenceu a outras figuras importantes como Don Webb e Zeena Schreck (ex Zeena LaVey) e mais recentemente Patricia Hardy.

Mas talvez o resultado mais poderoso do templo criado por Aquino foi mostrar a outros satanistas que o Satanismo não só poderia existir sem a figura de LaVey e da Church of Satan como poderia se desenvolver em algo poderoso, saindo da sombra da organização mãe e se tornar uma crença ainda mais poderosa e autônoma. Assim, uma miríade de outros grupos independentes nasceriam. No fim, aquilo que no começo atrapalhou os planos de uma Igreja Satânica forte e centralizada contribuiu com a diversividade e mutabilidade do Satanismo posterior. Algo que, mesmo que não tenha percebido, foi advogado por LaVey desde o início: não queremos um grupo forte d eindivíduos fracos, desejamos um exército poderoso de indivíduos fortes. Assim cada novo grupo satânico se punha à prova, sendo aniquilado ou sobrevivendo e se tornando um poderoso representante de diferentes perspectivas do Satanismo.

Morbitvs Vividvs